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O homem do bigode verde

Meu avô materno era o "cara inteligente" da freguesia, a quem se recorria para consertar um relógio, projetar uma roda d'água ou buscar um conselho. De ascendência alemã, inventou de arrumar uma namorada "polaca" (*) na época da II Guerra, que inclusive já tinha um pretendente da mesma etnia. Ciente das desvantagens causadas pela geopolítica, aprendeu polonês antes de ir falar com o futuro sogro. (**) (***)

Na seara dos conselhos, gostava de contar histórias cheias de detalhes exagerados, no estilo das parábolas. Uma delas era o Homem do Bigode Verde. Havia uma moça que fazia questão de um homem com bigode verde, rejeitava qualquer pretendente que não tivesse bigode verde. Um belo dia o homem perfeito apareceu e levou-a para seu castelo — onde ela constatou um pote de tinta verde, bem como os corpos embalsamados de muitas outras mulheres, acondicionados em caixões de cristal.

A moral da história é mais ou menos óbvia: se você impõe exigências impossíveis, vai atrair mais fraudes que pretendentes legítimos. E quem se dá ao trabalho de cometer uma fraude, quer algo em troca. Isto vale para qualquer relacionamento, pessoal ou profissional.

Lembrei imediatamente dessa história quando comecei a assistir o seriado "Dirty John" no Netflix. O "John Sujo" era sociopata e golpista, viciado em opioides, especializado em seduzir mulheres ricas e emocionalmente vulneráveis. A última vítima foi Debra Newell, caso mais profundamente explorado pelo seriado. Também há um documentário não-dramatizado de mesmo nome. Recomendadíssimos.

Me incomoda um pouco ter lembrado logo do Bigode Verde. Parece que estou culpando a vítima. Noves fora que adoro um Schadenfreude, é preciso deixar claro que o único criminoso da história é Dirty John. Ele escolheu cometer cada crime, ele não era uma força impessoal da natureza, não é como se Debra tivesse construído uma casa sobre a duna. O erro da vítima foi ter criado um incentivo para a ocorrência da seleção adversa. Isto não é exclusividade feminina.

O aspecto mais feminino é a vulnerabilidade. Por uma mistura de fatores como força física naturalmente menor, temperamento e cultura (e noves fora acusações falsas e alienação parental) é muito mais fácil mostrar a porta da rua à Bloody Mary que ao Dirty John. Isto reforça o anti-pattern: a mulher tende a compor uma lista de exigências cada vez mais longa na tentativa de espantar o Dirty John, pois sabe que é difícil livrar-se dele, e...

É claro que essa coisa de compilar longas listas de requisitos para um pretendente, não raro com exigências absurdas e conflitantes entre si, me irrita. Antes de me tomar por misógino, substitua "pretendente a cônjuge" por "candidato a emprego" e você vai enxergar o absurdo com clareza.

Há uma regra que vale igualmente para cônjuges e para empregados: o cara perfeito não vem pronto. Ele tem de ser construído, treinado, adestrado, encorajado. Pessoas, e empresas, que não entendem esta regra vivem estabelecendo relacionamentos com gente que não presta, e depois ficam reclamando que "não tem homem", "não tem gente qualificada no mercado".

Voltando ao domínio sentimental. Um aspecto muito peculiar, e bem explorado pelo seriado, é a colaboração involuntária da mãe de Debra. De fato, em muitos casos reais que conheço, onde mulheres foram "enfeitiçadas" por pulhas, quase sempre os sogros (e em particular as sogras) também se deixaram enfeitiçar. Não raro esse feitiço colateral sobrevive ao fim do relacionamento principal! O que deveria ser uma força moderadora, acaba potencializando.

Dirty John foi apenas um maioral de sua raça, a dos psicopatas. Os psicopatas abundam, embora felizmente a maioria seja não-violenta (ou simplesmente covarde). Toda família tem pelo menos uma "ovelha negra" com características de psicopatia — aquele cara que sempre tem uma desculpa na ponta da língua, que sempre acha que se lhe deve alguma coisa, que nunca cumpre os contratos não-escritos típicos de uma família. Nem as famílias, nem a sociedade, nem o sistema legal sabem como lidar com eles, pelo menos por ora.

Notas

(*) O pessoal da região de Massaranduba se diz "polaco" mas na verdade é uma miuçalhada de povos eslavos: poloneses, tchecos, russos, etc. lembrando que a Polônia e muitos países balcânicos mudavam muito as fronteiras e até mesmo deixaram de existir em certas épocas.

(**) A sorte também ajudou. Diz a lenda que a família do concorrente convidou a família da minha avó para comer "kishka" (morcela) feita a partir de um porco abatido no mesmo dia. Por qualquer motivo a desmontagem do porco atrasou, e meu bisavô foi embora às 11 da noite, com fome e declarando que aquilo era uma gente ruim de serviço.

(***) Pra quem acha que é difícil arrumar namorada hoje em dia...