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O ocaso do bom fascista

Finalmente saiu o terceiro tomo da biografia "Getúlio", de Lira Neto. Comprei um dos primeiros exemplares disponíveis, depois de procurar em algumas livrarias de Campinas.

Como se o autor tivesse lido minha resenha dos tomos 1 e 2, desta vez ele esclareceu logo no começo do texto que vislumbra a tendência suicida (ou mais precisamente de auto-sacrifício) em diversos eventos ao longo da vida do presidente.

Ficou realmente patente o quanto Getúlio Vargas decaiu depois de ser deposto em 1945. O livro pega carona nesta linha; a própria foto escolhida para a capa do livro, de um Getúlio envelhecido e não-sorridente, induz a esta sensação.

Foi eleito senador em 1946, mas ficou quase continuamente de licença, pois era alvo diuturno de discursos inflamados. Não renunciava de vez pois o mandato parlamentar era um "seguro" contra eventuais perseguições. O que não faltava era gente disposta a perseguí-lo e criticá-lo. Havia muitas contas da época do Estado Novo por ajustar, e outros motivos menos louváveis.

Getúlio viveu uma situação análoga ao lulopetismo atual: tinha (ou pensava ter) o apoio da classe trabalhadora enquanto era continuamente malhado pela imprensa e pela dita "elite". Assim como hoje, os antigetulistas adotaram a moralidade administrativa como bandeira, fazendo seguidas denúncias de corrupção, apesar do seu próprio telhado de vidro.

Alguns, principalmente os petralhas, enxergam aí uma justificação: os inimigos de Getúlio eram tão corruptos quanto ele, mas Getúlio "roubava pro batalhão", usava a corrupção para manter coeso um sistema que, no cômputo geral, era bom para o povo. E quem criticava, era anti-povo. Simples assim.

Nem preciso dizer o quanto eu desprezo esta tese. Aplicar esse rótulo "anti-povo" a qualquer crítica ao sistema é fascismo, sem tirar nem pôr.

Fazer política desse jeito dá gênese aos "salvadores da pátria" como foram Carlos Lacerda, Collor, quiçá o Bolsonaro. Os santos-do-pau-oco da moralidade não teriam plateia se o país fosse menos burocrático, menos corrupto e menos povoado de marajás.

Mas pelo menos Getúlio tentou inovar, tentou governar sem apelar novamente à ditadura. Entre Getúlio e Carlos Lacerda, não apareceu muita novidade na política brasileira desde então.

Há de se ressaltar que Getúlio, ele mesmo, era totalmente honesto e tão pouco preocupado com dinheiro que chegou a passar dificuldades financeiras. Talvez ele (e outros) acreditassem que isto validava o modelo.

A fé de Gegê no desenvolvimentismo e descrença no liberalismo fizeram-no adotar posições políticas pra lá de pragmáticas, como apoiar o General Dutra (que lhe deu o golpe) na eleição de 1946, e deixar-se lançar candidato a presidente em 1950 por ninguém menos que Ademar de Barros — o primeiro governador "rouba mas faz" de São Paulo. Tudo isto para bloquear o caminho de Eduardo Gomes, o Brigadeiro, sempre bonito e solteiro e nominada besta-fera do liberalismo.

No fim as manobras não deram o resultado esperado, já que Dutra adotou uma política de "abertura descontrolada" do mercado (palavras do autor) que consumiram rapidamente as reservas cambiais brasileiras. Esperava-se que o Brasil fosse contemplado com algo semelhante ao Plano Marshall, o que nunca aconteceu. A rápida piora do cenário fez povo e elite desejarem a volta rápida do ex-ditador do Estado Novo.

O suicídio de Getúlio Vargas costuma ser debitado na conta do jornalista Carlos Lacerda, mas o fato é que inúmeras outras revelações erodiram sua posição, e conduziriam forçosamente à renúncia ou pelo menos a uma licença. O próprio Getúlio, confrontado com malfeitos do seu círculo íntimo, teria mencionado que corria um "mar de lama" sob o Catete, vergando-se afinal à célebre metáfora cunhada por Lacerda.

Pairam muitas dúvidas sobre a gravidade e mesmo sobre a veracidade do atentado da Rua Tonelero, mas o "Anjo Negro" tinha uma longa lista de pecados. Coisas do tipo intermediar guias de importação mediante propina. Como é que uma pessoa tão próxima do presidente tinha liberdade para fazer essas coisas? A pergunta está no ar desde então.

Aliás, é interessante como esse modelo de intervenção na economia sempre vai à breca do mesmo jeito. Explicando melhor com um exemplo: a fim de controlar importações, priorizar itens mais importantes e poupar divisas, foi criado um setor no Banco do Brasil, chamado CEXIM. O efeito prático foi exatamente o oposto: o volume das importações dobrou e as guias só eram emitidas mediante propina.

Como os militares estavam se preparando para depor Getúlio — não sendo esta a forma mais escorreita de lidar com problemas políticos — e Getúlio lançando mão do suicídio para remexer a política por mais uma década no mínimo, o ex-ditador conseguiu transportar a sua notável dubiedade — herói ou vilão? — para o além-túmulo.