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Visita a Engenheiro Bley

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Desta vez o passeio ferroviário semianual adentrou os rincões do Paraná, até um pátio/triângulo (e antiga estação) denominado Engenheiro Bley, na cidade de Lapa/PR. Esta cidade já faz parte da região metropolitana de Curitiba.

Figura 1: Saída do pátio de Eng. Bley, na direção de Rio Negro/Mafra

Eng. Bley é um ponto estratégico da malha ferroviária sul, pois é basicamente o "ponto de decisão" entre os portos de Paranaguá/PR e São Francisco do Sul/SC. Todo o "tráfego típico" para os dois portos — exportação de grãos do interior do Paraná — vem de Ponta Grossa e tem de passar por este ponto.

O lugar é "central" de duas formas completamente diferentes: é estratégico para a ferrovia, e ao mesmo tempo está exatamente no meio do nada. O mapa abaixo mostra a localização, note que é praticamente equidistante das diversas rodovias que cortam a região:

Figura 2: Localização de Eng. Bley no mapa. Fonte: Google Earth

É fácil chegar até a cidade de Lapa/PR, mas fazer os 15km finais até o pátio é um pouco mais complicado. Estrada de terra em condições sub-ótimas, nenhuma placa indicativa, e pouquíssima gente mora por ali. Uma gente meio arredia para dar informações... Pelo menos a Internet móvel da Vivo pegou praticamente até o destino, e o santo Google Maps foi então de grande valia.

O solo do lugar parece argiloso-arenoso: uma poeira desgraçada em dia de sol, e forma facões profundos sob chuva. Deve ficar complicado passar por ali em época chuvosa, pelo menos com automóvel comum. Acho que até há mineração de argila na área, na volta peguei uma fila de caminhões-caçamba trucados e carregados — que são obrigados por sua largura a ficar dentro dos facões, e quase não passaram em alguns pontos. Tive de ser paciente.

É mais um caso de localidade que tinha excelente acesso via trens de passageiros, e que se viu isolada quando este meio de transporte desapareceu.

Como se pode ver na figura abaixo, o pátio de Eng. Bley é triangular, e como todo triângulo ferroviário ele tem curvas "interessantes" quando visto de cima — pelo menos se o observador for do sexo masculino, heterossexual e dotado de alguma imaginação :)

Figura 3: Foto de satélite do pátio de Eng. Bley. Fonte: Google Earth.

A paisagem da região é o típico Planalto de Santa Catarina e Paraná: levemente ondulada, campos a perder de vista. Pode ser relaxante ao olhar, ou muito chata; depende do seu humor.

A Figura 4 é a vista da estrada. Isto bem antes do pátio, que está numa altitude relativamente baixa em relação ao entorno.

Figura 4: Vista da estrada entre Lapa/PR e Eng. Bley, lado oeste

Apesar do isolamento e de não haver sequer uma bodega para comprar uma garrafa de água, Engenheiro Bley é um paraíso para os train geeks: trilhos para todo lado e garantia de que vai passar trem (afinal é a confluência de três ferrovias).

Conforme dito antes, este pátio já foi uma estação de passageiros, e o prédio continua lá, embora muito depredado. Curiosamente, há rampas de carga em cada lado do triângulo. Também há uma "casinha" da Embratel, mais uma antena bastante alta. O prédio da estação, mesmo decrépito, ainda abriga equipamentos de sinalização e controle da ferrovia.

Figura 5: Plataforma e prédio da antiga estação de Eng. Bley

Cada lado do triângulo possui linha dupla ou tripla, o que promove-o a pátio de manobras e, principalmente, de cruzamentos. (Dois trens "cruzam" quando, vindo de direções opostas, se encontram e passam um pelo outro. Ferrovias de carga costumam ter apenas uma linha, de modo que os cruzamentos só podem acontecer em pátios onde há pelo menos duas linhas.)

Cada "lado" do triângulo de Eng. Bley tem mais ou menos 600m de comprimento. Uma simples caminhada em torno significa andar alguns quilômetros. Ainda inventei de ir até a extremidade da linha dupla em direção a Rio Negro, onde havia um trem parado, esperando para cruzar com outro. Havia uma estradinha margeando o trilho, mas achei que "deve ser logo ali" e fui à pé, o que rendeu 4km de caminhada sob o sol a pino:

Figura 6: Pátio de Eng. Bley, saída para Rio Negro/Mafra

Outro fator de atratividade de Eng. Bley é a abundância de pontes ferroviárias. O pátio fica próximo ao Rio Iguaçu e um afluente seu. Todas as três saídas do pátio acabam em pontes. Tanto a saída de Curitiba quanto de Ponta Grossa cruzam o Rio Iguaçu, enquanto a saída para Rio Negro cruza duas vezes seguidas o afluente mais modesto.

Não bastasse isso, ainda há ruínas de outras pontes no entorno; as ferrovias cruzavam os rios em lugares diferentes, antes de certas melhorias feitas em 1952 e 1969.

Figura 7: Vista da saída para Curitiba

Neste ponto de confluência de ferrovias é possível ver a diferença de padrão na construção e manutenção. A ferrovia Curitiba-Ponta Grossa possui semáforos, desvios com comando remoto, parte dos dormentes é de cimento, a fixação dos trilhos nos dormentes é Pandrol (mola) em vez do tradicional parafuso etc. As confluências para Rio Negro não têm nada disso.

Lembrando que antigamente a saída para Rio Negro era simplesmente um ramal, ou seja, ia até Rio Negro/PR e parava. A travessia do rio homônimo até Mafra/SC e a ligação com a ferrovia São Francisco é um pouco mais recente.

Na foto abaixo é possível ver as caixas de comando dos desvios:

Figura 8: Entrada do pátio de Eng. Bley, vindo de Ponta Grossa. Linhas à esquerda vão para Curitiba, linhas à direita vão para Rio Negro/Mafra

Muito próximo a este ponto, a ponte sobre o glorioso Rio Iguaçu. Construída em alvenaria, é fácil atravessá-la à pé, e possui inclusive aquelas "cestinhas" para os incautos se abrigarem se forem pegos de surpresa pelo trem.

Figura 9: Ponte sobre o Rio Iguaçu, próxima ao local da Figura 8

Ainda sobre pontes, Engenheiro Bley é geograficamente próximo da famosa Ponte dos Arcos, em Balsa Nova, onde o pessoal faz bungee-jumping e de vez em quando morre um, pego de surpresa pelo trem.

Infelizmente não fui lá porque não há estrada direta de Eng. Bley. Seria necessário voltar até a Lapa, dali ir para a BR-277... uma volta e tanto, e meu alvará de soltura era de curta duração.

Figura 10: Os grafiteiros quebram a monotonia dos vagões da ALL

Assim que tinha chegado em Eng. Bley, havia lá um trem, esperando outro para seguir a Rio Negro/Mafra. O trem saiu enquanto eu andava pelo pátio. Voltando de Lapa para casa, deparei com o mesmo trem, novamente parado.

Eu ainda não sabia, mas tinha havido um acidente na descida da ferrovia São Francisco, em Rio Natal, então o tráfego naquela direção estava problemático. Mas a foto ficou legal.

Figura 11: Ponte ferroviária sobre a BR-476

O ramal do Rio Negro foi retificado em praticamente toda sua extensão. A linha original corria a leste da atual. Um resquício que sobreviveu em grande estilo foi uma ponte, convertida em ponte rodoviária, na rodovia estadual entre Campo do Tenente/PR e Lapa/PR.

Figura 12: Ponte rodoviária da rodovia PR-247, antiga ponte ferroviária do Ramal do Rio Negro

A rodovia PR-247 "herdou" o leito da antiga ferrovia, o que explica algumas curvas bem fechadas, perigosas e "redondinhas", incomuns numa rodovia moderna. A cidade de Campo do Tenente ainda conserva a estação ferroviária original, em uso como câmara legislativa, e uma bela casa em frente, resquício de tempos mais românticos.

Figura 13: Antiga estação ferroviária de Campo do Tenente/PR
Figura 14: Casarão Villa Anna, em frente à antiga estação, Campo do Tenente/PR

Na volta, dei uma passada no pátio de Rio Negro mas não havia realmente nada novo ali. Voltei por São Bento do Sul, onde conversei com o ambientalista Henry Henkels — não sem um certo temor, afinal temos ideologias políticas opostas e nossas discussões na Internet muitas vezes ficaram acaloradas. Mas constatei que aquele velho axioma "as pessoas comportam-se melhor ao vivo" continua valendo :)

Pelo Henry soube do acidente em Rio Natal (que acabei não indo olhar — devia estar coalhado de gente), e também de um trabalho de sinalização de estradas interioranas para a alegria dos mountain bikers. É análogo ao "Vale Europeu", porém mais elaborado, com as placas naquele padrão dos trilheiros.

Por puro acaso, acabei passando por uma estradinha assim sinalizada. Deu aquela vontade de estar de bicicleta. Quem sabe em breve, agora que a muié tirou a carteira de navalhista, digo, de motorista.

Figura 15: Placa de sinalização na Estrada dos Bugres, São Bento do Sul/SC

Por mais batido que esteja ir a Corupá ver os trens, não posso resistir. Devido ao acidente no Rio Natal, o pátio estava coalhado de vagões, como nunca vi antes, e uma das locomotivas avariadas no acidente estava lá. Não é uma visão muito agradável, mas valeu a oportunidade de fazer "jornalismo".

Figura 16: Locomotiva G-22U estacionada em Corupá/SC, avariada em acidente na serra de Rio Natal

Esta semana realmente não foi boa para a ALL. Acidente em Araquari na quarta-feira, que também testemunhei (um caminhão bateu no trem, no cruzamento com a BR-280), agora este descarrilamento na serra em Rio Natal. Três locomotivas bem danificadas, maquinistas feridos etc.

Para completar, uma locomotiva pifou na minha frente em Corupá, quando estava preparando-se para partir. O motor não segurava a lenta, ou coisa assim. Se eu fosse supersticioso, começaria a achar que o problema está comigo...

O fato é: as G-22U estão se acabando, de um jeito ou de outro, e a ALL tem de pensar em arrumar máquinas novas, pelo menos para a ferrovia São Francisco.

E é isso aí. Despeço-me com o playlist dos videos do passeio. Enjoy.

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