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Sua câmera DSLR é míope? Verifique a calibragem de foco

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Um problema inerente às câmeras DSLR (monorreflex), que não afeta as mirrorless, é a calibragem de foco. A DSLR faz autofoco com base na imagem refletida no espelho, que sempre será um pouco diferente da imagem projetada sobre o sensor. O resultado é um erro de focagem, que sempre existe, mas que pode variar de negligenciável a severo. Como os fabricantes estão lançando sensores e lentes cada vez mais nítidos, problemas que eram teóricos na época do filme agora saltam aos olhos.

No jargão de fotografia, diz-se que uma câmera faz "back focus" quando o autofoco cai atrás do objeto (ou seja, mais longe que o objeto), e "front focus" quando cai à frente do objeto (ou seja, mais perto que o objeto) que deveria estar mais nítido. A tradução (foco atrás, foco à frente) fica meio estranha, então vou usar os termos em inglês mesmo quando necessário. Desculpe aí, Policarpo Quaresma!

Descobri da pior forma possível que uma lente que tinha comprado há algum tempo, um zoom 18-140mm, está com "front focus". Pior: apresenta esse defeito em apenas uma faixa de zooms, de 18 a 35mm. Depois de dois dias fotografando em campo, vi que muitas fotos não estavam com aquela nitidez que se espera de uma DSLR, e que distinguem suas fotos daquelas feitas num celular ou numa câmera de bolso.

O desvio de foco pode ter inúmeras causas. O corpo da câmera pode estar estragado ou apenas descalibrado, caso em que todas as lentes vão apresentar o mesmo desvio. Não é meu caso, nos testes que fiz (e vou explicá-los depois) a outra lente (50mm 1.8g) não apresenta erro de foco. Então meu problema é só com o zoom. As demais lentes que já tive e vendi, não tinham tido problema também.

É comum o desvio de foco acontecer apenas para certas combinações de câmera e lente. Este zoom 18-140mm que apresenta desvio aqui, pode ter desempenho perfeito se acoplado a outra câmera. Por conta disso, câmeras melhores tem uma calibragem de autofoco (AF Fine Tune) que permite o ajuste para cada lente. Infelizmente, minha D3200 é um modelo básico e não tem esse recurso.

Para exemplificar, vou colocar três exemplos de imagem. São fotos tiradas com o zoom 18-140mm na posição 18mm, ou seja, grande-angular. As imagens foram cortadas bastante pequenas, com menos de 300 pixels de largura, e os prédios mostrados estão a 500m de distância. (Se tiver dúvidas a respeito da real nitidez, clique nas imagens para ver os cortes originais, em vez da versão interpolada que o navegador mostra na página.)

Figura 1: Corte de imagem focada com Live View. Clique na imagem para ver o corte original 100%

A imagem acima é focada com Live View. Neste modo, a DSLR funciona como uma mirrorless e faz o autofoco baseada na imagem que cai sobre o sensor. O foco e a nitidez são os melhores possíveis que o equipamento pode dar.

Figura 2: Corte de imagem focada com o ponto central do visor. Clique na imagem para ver o corte original 100%

A imagem acima foi focada com o ponto central de foco do visor ótico. Claramente o foco está incorreto. A imagem serve para uso casual, tipo lembrança de família, sendo equivalente à nitidez de um celular. Mas perdeu aquele "punch" de foto de DSLR.

Agora, uma outra foto também focada pelo visor, mas com um truquezinho:

Figura 3: Corte de imagem focada com o visor, usando o ponto acima e à esquerda do central. Clique na imagem para ver o corte original 100%

A Nikon D3200 tem 11 pontos de autofoco. Na foto acima, utilizei um ponto de foco diferente, à "noroeste" do ponto central (acima e à esquerda). Usando este ponto, o autofoco ficou bem melhor. A imagem via Live View ainda é melhor, com mais contraste, mas isto já cai dentro da faixa de tolerância de outras variáveis, como a exposição da câmera e parâmetros de conversão RAW.

Então a história curta é essa: descobri uma "gambiarra" para evitar o problema de desvio de foco da minha lente 18-140mm, que é fazer foco usando um ponto diferente do central, e reenquadrar. A vantagem é que, mesmo na faixa de zoom em que a lente não apresenta desvio, usar este ponto de foco continua proporcionando bons resultados (não é preciso mudar o método em função da ampliação).

Outra forma simples e efetiva de contornar o problema, se você não pode trocar ou consertar o equipamento, é usar Live View, que os inexperientes inclusive preferem, em lugar de usar o visor. Na verdade, usar Live View é sempre recomendável quando a maior nitidez possível é desejada, porque como foi dito antes, o autofoco via espelho sempre apresenta pequenos desvios, mesmo em equipamento considerado perfeito, em função da temperatura e do tempo de uso.

Como detectar o desvio de foco

Detectar se o desvio existe ou não existe é fácil. Basta fotografar um mesmo objeto com Live View e através do visor; e depois comparar as versões ampliadas. Se a foto tirada com o visor estiver consideravelmente menos nítida que a do Live View, seu equipamento provavelmente tem o problema. (Lembrando que o Live View sempre vai alcançar nitidez maior, então uma diferença realmente pequena não pode ser considerada defeito.)

Tire essas fotos de teste com ISO 100, com dia claro ou utilizando flash, com abertura máxima (menor número f). Um obturador lento ou o ruído de ISOs mais altos vai roubar nitidez e embolar a comparação. Um número f mais alto aumenta a profundidade de campo e pode mascarar o desvio de foco.

O objeto mais cômodo para os primeiros testes é uma paisagem, pois o foco será "no infinito". Isto serve para quase todas as lentes modernas (Canon, Nikon AF-S) que podem focar além do infinito. Em lentes mais antigas (como Nikon 50mm 1.8D), o foco pára exatamente no infinito, e um "back focus" não seria denunciado numa paisagem.

Aí começa a parte chata que é determinar as nuances.

Primeiro você tem de descobrir se é um problema da câmera ou da lente. Se você possuir mais de uma lente, faça o mesmo teste com as demais lentes. Se acontece o mesmo problema, o desvio é causado pela câmera. Como disse antes, no meu caso só aconteceu com uma lente entre meia dúzia, então tem de ser a lente.

No caso do zoom, pode ser que o problema aconteça apenas numa faixa de ampliações, como foi o meu caso (o zoom tem autofoco perfeito acima de 40mm).

Em seguida deve-se determinar se o autofoco está errando para menos ou para mais. O método típico de descobrir isso é enfileirando uma seqüência de objetos iguais, como pilhas ou soldadinhos de chumbo, e fotografar a fila diagonalmente, focando no objeto central. Se a melhor nitidez caiu sobre um objeto atrás do central, a câmera está fazendo "back focus". Se caiu sobre um objeto à frente, é "front focus".

Novamente, o zoom complica o problema porque é perfeitamente possível que um zoom apresente "front focus" em grande-angular e "back focus" em tele. Como eu disse, essa é a parte chata, porque exige muitos testes, e é preciso tomar notas para não se perder nas conclusões. E obviamente os testes devem ser repetidos para confirmar as conclusões iniciais.

Outro problema que uma DSLR pode apresentar é um desvio dos pontos de foco do visor. A DSLR não foca exatamente onde está o "pontinho", aquilo ali é só um desenho gravado no espelho. É preciso fazer testes, fotografando com o corpo de lado, de cabeça para baixo, etc. Se a orientação da câmera faz diferença, talvez o autofoco não esteja descalibrado, esteja apenas "olhando" para um ponto ligeiramente diferente do desenhado. (Infelizmente, não era o caso da minha câmera.)

Finalmente, os problemas de desvio de foco costumam apresentar lateralidade, ou seja, o desvio afetará mais um lado do quadro do que o outro. Imagino que isto acontece quando tem alguma coisa torta dentro da lente. No caso da minha lente, o desvio é claramente na direção noroeste-sudeste. Por conta disso, o ponto de foco noroeste quase não desvia, enquanto o ponto de foco sudoeste erra ainda mais feio que o ponto central.

Para descobrir a lateralidade do problema, o jeito é fazer testes com cada ponto de foco do visor, montando um mapa dos erros.

É prudente fazer esses testes em qualquer equipamento novo, para ser trocado ainda no prazo de devolução, ou pelo menos dentro do prazo de garantia.

Como contornar problemas de desvio de foco

Uma vez determinado que o problema está na câmera ou numa lente, o ideal seria mandar o equipamento de volta, para ser trocado, consertado ou calibrado. Nem sempre isso é possível, seja devido ao custo, seja porque adquirimos equipamento usado. A decisão é um pouco mais fácil se o problema estiver na câmera, porque ela é calibrável pelo fabricante. Problema na lente provavelmente não tem conserto simples.

Câmeras mais avançadas têm calibragem de foco para cada lente (AF Fine Tune). Se você tiver feito os testes e tiver absoluta certeza da quantidade e qualidade do desvio, pode usar este recurso. Infelizmente minha câmera não o possui.

A forma mais direta e honesta de contornar o problema de desvio de foco, é usar Live View.

Outra forma simples é usar uma abertura um pouco mais fechada, que aumenta a profundidade de campo e mascara o desvio. Isto funciona se o desvio for pequeno. Lembrando que, numa câmera "crop" aberturas mais fechadas que f/8 vão roubar nitidez por conta da difração. (O desvio da minha lente é grande e não pode ser completamente mascarado por este método.) O próprio caráter do desvio pode mudar conforme a abertura, então seria preciso fazer mais testes para determinar a abertura ótima, que minimiza o desvio de foco sem causar perda de nitidez por outros motivos.

Se a lente possui anel de foco manual com "instant override", permitindo um ajuste após o autofoco, pode-se determinar quanto ajuste compensa o problema. No caso da minha lente, 3 "dentinhos" da textura do anel de foco no sentido horário neutralizam o erro. Só não posso fazer o ajuste em ampliações acima de 35mm porque aí a lente funciona direito, e mexer no foco significaria efetivamente desfocar a imagem.

Fazer foco manual seria, à primeira vista, outra solução de contorno, principalmente no caso de lentes mais antigas com "hard stop" no infinito, então para fotografar uma paisagem basta focar no infinito manualmente. Mas, fora esse caso específico, foco manual não resolve porque justamente o visor capta a imagem refletida pelo espelho, então se o autofoco da câmera está errando, muito provavelmente o foco pelo visor será enganoso também.

Para piorar, as câmeras modernas não têm microprismas ou imagem repartida no visor, então é preciso confiar no autofoco eletrônico. As Nikons têm inclusive um modo "rangefinder", e indicam a direção do foco, além de indicar se está em foco ou não. Mas estas informações vêm do mesmo mecanismo que faz o autofoco incorreto, quando há desvio de foco, então elas são inúteis fora do contexto de teste.

Notei uma coisa: na minha lente com desvio de foco, há uma larga faixa de focos que a câmera considera como "foco perfeito". O foco realmente perfeito está na extrema direita da tolerância (o rangefinder está quase indicando um ponto de desvio para a direita), mas ainda dentro da tolerância. Dependendo do humor do fabricante, ele poderia alegar que a lente está "boa" por estar dentro dessa tolerância...

Uma vez que você saiba que o foco realmente perfeito esteja num dos extremos da faixa de tolerância, você pode usar foco manual como solução de contorno, mas ciente de que as indicações do rangefinder estão adulteradas pelo desvio de foco. Basicamente você sabe que o erro é para um lado, e então "erra" para o outro para compensar.

A chance é grande de o desvio ser causado por alguma coisa torta no equipamento, e neste caso cada ponto de foco será afetado de forma diferente, como é o caso da minha lente. Determinar um ponto de foco bom, ou menos pior, e passar a usá-lo exclusivamente para autofoco foi a melhor solução de contorno que encontrei.

A inspiração de tentar um ponto de foco diferente do central veio do fato de eu ter começado a usar o ponto central de foco faz pouco tempo. Antes disso, não tinha notado o problema, porque a câmera escolhia o ponto de foco automaticamente, então uma porcentagem das fotos saía nítida (a porcentagem ruim eu creditava à minha imperícia). Ao usar apenas o ponto central, todas as fotos saíram ruins.

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