Site menu A escola japonesa

A escola japonesa

Ultimamente é moda falar mal do Japão: uma sociedade engessada, endividada, envelhecida, presa no futuro do pretérito dos anos 1990, que nunca achou o próximo degrau econômico depois da industrialização. Quisera que o Brasil tivesse estacionado nesse ponto... ao menos teríamos trens-bala e trens de passageiros.

Eu sou do tempo em que se falava exatamente o oposto: tudo que era japonês era bom e perfeito. A começar pelo alfabeto baseado em ideogramas, que exercitava os dois lados do cérebro e até mesmo mitigava os efeitos deletérios de um AVC. Um dos textos mais racistas de todos os tempos, "The Bell Curve", livro de cabeceira de qualquer supremacista branco estadunidense, fez barretada ao japonês, colocava o QI médio do oriental 10 pontos acima do branco ocidental (*). E é claro, como não lembrar dos colegas de trabalho nipófilos, Rigues e Melissa Boiko?

Outro nipófilo, mais comedido que os supracitados, era o Steve Jobs. A verticalização e a qualidade da indústria japonesa lhe fascinavam. Ele disse que a Sony era quem "merecia" ter lançado o iPod, por ter a faca e o queijo na mão (excelência em hardware, tradição do Walkman, e ser dona de boa parte do acervo musical mundial via Sony Music) e via o quanto a compartimentalização interna da Sony foi prejudicial a ela mesma.

Outra característica, essa meio "lado B" da indústria japonesa, e que a Apple compartilhou por um bom tempo, é o apreço por padrões fechados, cabos e conexões completamente sui generis, formatos de mídia obscuros, etc. Em parte para proteger o consumidor de si mesmo, em parte por síndrome NIH, e em parte por ganância.

Circulam umas histórias apócrifas do tipo: um dia por mês, os executivos e gerentes trocam de lugar com os comandados e assumem tarefas como fazer faxina e lavar banheiro, para ensinar a humildade e ajudar a detectar problemas e ineficiências. Ou aquela outra história de que os mesmos caras que carregaram um piano Yamaha até o local de um concerto também afinaram-no e tocaram algumas músicas para conferir.

Pessoalmente, admiro a ética de trabalho japonesa. Não as longas horas extras, mas a aparente equiparação que eles fazem entre trabalho manual e intelectual. Não dá pra saber o quanto disso é propaganda, seria necessário viver como um japonês para conferir. Mas, mesmo sendo aparência, acho melhor que o Brasil, onde gente de "elite" se orgulha ostensivamente de nunca ter lavado um copo.

E sim, essa "dança das cadeiras" funciona, inclusive no nível doméstico. A diarista não reclama da vassoura pouco ergonômica ou da torneira pingando, mas isso afeta o trabalho dela, e você só vai descobrir se dignar-se a fazer o serviço dela de vez em quando. Nada melhor que fazer um trabalho manual para descobrir que aquilo que leva "uns 10 minutinhos" leva mesmo é duas horas.

Dois livros famosos, "Made in Japan" (Akio Morita, da Sony), e "Honda por [Soichiro] Honda" são bons textos a respeito da ética de trabalho japonesa. Como disse antes, não ignoro que são em boa parte propaganda, e foram escritos na época em que o Japão estava por cima da carne seca, mas também há muitas lições importantes.

O outro aspecto da indústria japonesa que eu aprecio, e que provavelmente o Steve Jobs também apreciava, e é característica notável da Apple até hoje, é o seu caráter opinativo. Parte-se do princípio que o consumidor não sabe o que quer; ele precisa ser educado e adestrado.

A partir deste ponto, posso estar "vendo demais" com base em um punhadinho de pontos de dados, mas FWIW, vamos lá.

Possuo um ar-condicionado Daikin. A temperatura mínima no modo frio é 18ºC. Ele também se recusa a trabalhar a plena carga se a temperatura ambiente está abaixo de 21ºC. Não adianta colocar o ventilador na velocidade máxima. Alguém lá do R&D da Daikin decretou: é besteira refrigerar abaixo de 18ºC. Você *não* tem o direito de dormir de edredon em pleno verão. (**)

Enquanto isso, se bem me lembro, o ar-condicionado LG descia até 16ºC e o Midea desce até 15ºC. É outra escola, igualmente válida: atender aos caprichos do freguês. Se ele quer trincar de frio, providencia-se. Aliás, brasileiro gosta muito disso, né? Ar-condicionado no talo, o frio seco como uma bolha de civilização no meio do bananal quente e úmido.

A interface desse Daikin é igual a de um outro de dez anos atrás. A aparência das unidades interna e externa continua igualmente sem graça. Diferente dos fabricantes coreanos que fazem um grande esforço para inovar no design, a Daikin não está nem aí para isso. Talvez porque considere que split é igual nariz: não existe nenhum bonito, então você treina sua vista para não enxergá-lo. Ou, se tiver bolsos fundos o suficiente, instala um split cassete.

Também tenho um automóvel de marca japonesa. É o terceiro da mesma marca, realmente fomos conquistados pela qualidade e confiabilidade, embora nem seja a Toyota.

Os três carros tinham o mesmo cacoete: ficam "lerdos" quando o tempo é quente, de uns 30ºC para cima. É preciso pisar bem mais para atingir a mesma potência. Ele não se nega a andar quando exigido, mas dá para notar que tem algo acontecendo.

Não é característica de combustível nem de presença ou ausência de turbo; eram 3 carros com motores bem diferentes, e todos tinham o mesmo cacoete. É comportamento implantado na ECU, de propósito, pelo fabricante: uma forma de sinalizar ao motorista que o motor está operando em condições adversas. E funciona, mesmo inconscientemente o motorista tira o pé. O que provavelmente colabora para a legendária durabilidade dos automóveis japoneses.

É sabido que os indicadores de painel de carros modernos mentem o tempo todo. O conta-giros não fica oscilando com o motor em marcha lenta, mesmo que a RPM esteja realmente oscilando, porque isso seria interpretado como avaria, causando idas desnecessárias à concessionária. O medidor de temperatura também mente, fica exatamente no meio, mesmo quando o motor está um pouco mais quente que o normal, pelo mesmo motivo.

No caso dos carros supracitados, ele mente no ponteiro, mas fica "remanchando" para sinalizar a condição de leve superaquecimento de forma discreta.

Outra característica do carro é o seu controle de tração e estabilidade. É incrivelmente discreto. Um motorista que não se interesse por aspectos técnicos poderia passar a vida dirigindo o veículo sem saber que ele possui este recurso. Isso em contraste a outras marcas, cujo controle de estabilidade é tão intrusivo que o carro parece até menos potente do que realmente é.

Mas sim, mesmo discreto, o controle de estabilidade do carro japonês funciona, e muito bem.

O painel do carro japonês também é surpreendentemente simples, comparativamente à maioria de seus concorrentes. Os carros coreanos e chineses parecem estar anos-luz à frente de um carro japonês, se os bells and whistles do painel contassem toda a história. Hoje em dia, qualquer carro simples da Volks ou da GM também adota tecnologias que os japoneses ainda relutam em adotar.

É outra escolha deliberada de design, e uma que eu aprecio. Um console cheio de luzes, avisos, mensagens, parece futurista e avançado num primeiro momento. Meia hora depois, é cansativo. Numa viagem longa, você só quer ver o essencial, e se frustra quando o essencial está oculto dentro de menus pouco intuitivos. "Ah, leia o manual." Nem mesmo eu vou ler manual de instruções de um automóvel alugado...

Mas o painel antiquado não é um sintoma 100% falso. O fabricante japonês é sim bastante conservador em adotar tecnologias novas, pouco testadas.

Meu primeiro carro japonês (2011) ainda tinha um câmbio automático quase 100% hidráulico, onde apenas poucas válvulas hidráulicas foram substituídas por válvulas elétricas. O câmbio do Del Rey automático (dos anos 1980, num Brasil onde era proibido importar carros) já tinha esse mesmo grau de "eletrificação".

O mesmo quanto ao número de marchas. Os carros japoneses estão sempre "atrasados" neste quesito. Meus dois primeiros automóveis da marca tinham apenas quatro marchas. Uma Fiat Toro tem nove.

Aliás, como disse ainda outro colega da finada Conectiva, a Fiat (agora a Stellantis) é um fabricante que possui um caráter antípoda: traz muitas novidades tecnológicas para estar à frente da concorrência, e de vez em quando tropeça, o que é normal quando se está na vanguarda. Só lembrar do Fiat Tipo e do Fiat Marea: carros que tomaram o mercado de assalto no lançamento, até hoje são objeto de desejo de alguns, mas...

Notas

(*) Eu deveria escrever um artigo sobre isto, embora tenha evitado assuntos "canceláveis" nos últimos anos. A tese do autor é que o QI médio do negro é menor que o do branco, o que explicaria todos os seus problemas. Porém, o autor não entende muito de estatística, e essa afirmação tem três problemas sérios.

O primeiro é que, por ser o QI uma distribuição normal, se a afirmação dele fosse verdadeira, a ocorrência de negros superdotados seria excepcionalmente rara, tipo 1 em 1 bilhão, o que não coincide com a observação empírica.

O segundo problema é que, bem à moda americana, ele tratou as etnias como se fossem óleo e água, não considerou os mestiços, que no Brasil todos somos em algum grau, e mesmo nos EUA são numerosos. Qual o efeito da miscigenação sobre a suposta média por etnia? Tira a média? Nivela por baixo? Por cima? Caso em que uma miscigenação massiva resolveria tudo?

O terceiro problema, que originou o asterisco, é que o autor imprudentemente situou o QI médio do oriental 10 pontos acima do branco ocidental. Novamente, pelo fato do QI ser uma distribuição normal, isto significaria que o número de superdotados e gênios orientais seria tão avassaladoramente superior ao do Ocidente, que seria uma completa perda de tempo tentar competir com eles.

Eu não li o livro, estou tirando esses 10 pontos da memória, mas a ideia (com a qual eu não concordo mesmo) é essa aí.

(**) No livro "Made in Japan", Akio Morita informa que os prédios de escritórios da Sony não são mantidos rigorosamente na mesma temperatura ao longo das quatro estações; a climatização existe mas é parcial.