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O enigma da pirâmide

É sabido que o cérebro humano tem problema em visualizar processos. As pessoas gostam de andar numa cidade limpa, com calçadas em ordem e casas ajardinadas, tipo cidade turística do Brasil ou da Europa, mas ignoram o processo que levou a este resultado: cada pessoa tem de evitar jogar lixo no chão, e cada dono de casa tem de manter em ordem o jardim e a calçada.

Se tivéssemos de destilar em poucas palavras qual é o objetivo de toda a educação que recebemos, em casa e na escola, seria algo como: aprender que toda mudança implica num processo. Que não existe almoço grátis. Que o prazer precisa ser diferido para atingir qualquer objetivo não-trivial. Para qualquer coisa ir do ponto A ao ponto B, é preciso uma aplicação contínua e dosada de esforço organizado.

Um tipo particular de processo que, mesmo com toda a educação que recebemos, ainda é difícil de assimilar, é o processo exponencial. É difícil antever as conseqüências de um processo exponencial quando ele é fisicamente possível, e é difícil antever quando um processo pretensamente exponencial vai fatalmente cessar.

Alguns exemplos, reais e imaginários, de atrapalhações com crescimentos exponenciais:

Chegamos então nas pirâmides financeiras, real assunto deste post. As pirâmides vêm e vão regularmente, a cada década pelo menos, como catástrofes naturais. Sempre a tempo de educar cada geração a respeito de processos exponencias e da inexistência de almoço grátis.

Eu divido as pirâmides financeiras em dois tipos: as explícitas e as implícitas. Pirâmide explícita é alguma variante do esquema de Ponzi, que uma pessoa razoável ainda consegue vislumbrar que é uma farsa — mas quando uma destas aparece, você descobre que pessoas razoáveis são minoria!

Pirâmide implícita está embutida em algum esquema, que dá a impressão de ser um modelo de negócio.

Na época em que este artigo foi escrito, estávamos acompanhando o "fenômeno" TelexFree. Já vi tanto disto que nem me chamou a atenção. Só ficou mais persistente na memória porque coincidiu do blog do Luís Nassif (que eu amo odiar) ser atacado, coincidentemente depois de umas reportagens críticas à TelexFree.

Mas presenciei um fenômeno de pirâmide que varreu a cidade em 1993, assim como a TelexFree parece ter varrido o Acre. Era um esquema Ponzi sem tirar nem pôr, não havia nem mesmo simulacro de venda de produtos. Duas semanas de furor.

Houve um dia, que chamei de "Quinta-Feira Negra" onde simplesmente não se trabalhou na software house em que eu era empregado. Muita gente que eu julgava inteligente caiu no meu conceito. Os argumentos eram sempre no estilo seita religiosa: Fulano entrou na pirâmide, Fulano é sério e esperto, logo deve ser uma boa.

Eu não entrei; até acreditava que poderia ganhar-se dinheiro com aquilo, mas uma conta simples mostrava que, para um ganhar, oito teriam de perder, e não me senti confortável com isto. Confrontadas com este argumento, as pessoas tinham aquela atitude de "se eu ganhar o meu, que se f*da", que a pirâmide ia se espalhar pra outras cidades e lá é que o negócio poderia emperrar.

Como esperado, a pirâmide desabou poucos dias (ou horas?) depois. Teve um ingrediente interessante: muita gente entrou na pirâmide com cheque pré-datado, e quando o negócio começou a ruir, a galera sustou os cheques. Entre nós, acostumados a lidar com banco de dados, pilheriávamos que a pirâmide fez "rollback". Aí houve as situações de gente que já tinha depositado o cheque e recusou-se a devolver o dinheiro... muita amizade de longa data terminou ali.

Muitas pirâmides, que poderíamos chamar de "semi-explícitas", usam um produto para veicular o argumento. A Amway era "marketing de rede", parece sustentável até você considerar que vender produto de limpeza para amigos não poderia render-lhe uma fortuna... Por mais que os produtos Amway existissem, a promessa central de enriquecer montando uma "Rede" era piramidal, exponencial. Se o produto é tão bom, por que o fabricante não vende tudo ele mesmo, e embolsa todo o lucro?

Já as "pirâmides implícitas" são os negócios da moda que de tempos em tempos capturam a imaginação da classe média e média-alta. Factorings, flats, cotas em hotéis. Alguns acreditam que a coqueluche dos imóveis no início dos anos 2010 foram meio piramidais. Também temos o Bitcoin, que o tempo dirá se serve para alguma coisa ou não... Uma moda particularmente duradoura, que por acaso acompanhei de perto, foi a das "factorings".

Factoring em si é um negócio legítimo. Trata-se de desconto de títulos mercantis. Digamos que a empresa "A" vendeu a prazo para "B", mas gostaria de receber à vista. Então "A" vende a duplicata ou cheque pré-datado para a factoring "C", que cobra uma taxa de desconto. No vencimento, "B" paga direto para "C".

No Brasil o factoring virou modinha mediante uma seqüência de distorções, legais e ilegais, do conceito original:

Assim, havia uma factoring em cada esquina, com seu respectivo dono fazendo projeções mirabolantes. Numa delas, alguém tinha investindo 1000 reais e esperava comprar uma Ferrari em três anos. É bem verdade que nos bons tempos do FHC uma Ferrari custava R$ 66 mil. A moda contaminou inclusive grandes empresários. Vi muita gente perder fortunas em factoring.

A moda das factorings tinha diversos componentes "piramidais". O primeiro, mais banal, é a captação de recursos, que como eu disse é ilegal. Quando a factoring ia mal das pernas, o ato reflexo era convencer mais alguns investitrouxas a entrar no negócio, e ir rolando.

As factorings mais safadas davam uma promissória como "garantia", as mais organizadas incluíam os investidores no quadro societário para dar um ar de legalidade. Em qualquer caso, todo mundo que eu conheço que investiu em factoring, de um jeito ou do outro, perdeu muito dinheiro.

O segundo componente é o fato da empresa "vender dinheiro". Numa empresa normal, muito do capital está empenhado em coisas palpáveis. Já numa empresa financeira, quase todo o ativo é dinheiro em caixa. Considerando quão deslumbrado e burro é o típico pequeno empresário brasileiro, é quase uma inevitabilidade que o dinheiro vá parar em sítios, barcos e noitadas em puteiro.

O terceiro componente, o mais insidioso porque engana até pessoas racionais, é achar que uma taxa de juros de 10% ao mês é sustentável, ou mesmo realizável. Por quê? Porque ela embute um risco enorme. O senso comum diz ao dono de factoring que ele vai enfrentar 1% ou 2% de inadimplência. Na prática, a inadimplência pode ir a 10%, 20%, 50%. Quem toma dinheiro emprestado a 10% ao mês, ou compra a prazo nessa taxa, é porque já está à beira da insolvência.

Pelo fato de ser pulverizado em milhares de pessoas, crédito de varejo a juros extorcivos parece ser um investimento diversificado, mas não é. Há dois grandes monolitos: a) aquele tipo de pessoa que sempre está "ou no rolo ou tá na zerda", que simplesmente dão o calote e esperam 5 anos para limpar o nome; e b) a massa de vulneráveis que perde sua pequena renda ao primeiro sinal de problema macroeconômico, seja pandemia ou crise financeira mundial.

O comerciante também quer ganhar 10% ao mês sem fazer força. Na medida do possível, ele também fornece crédito, mas apenas para seus melhores clientes. Os cheques de clientes duvidosos são empurrados para a factoring.

Em tese, o factoring "de varejo" é viável mediante o estabelecimento de uma boa relação com o comerciante, e escolhendo bem os cheques pré-datados. Porém, na prática, o custo de avaliar o limite de crédito de cada cliente é proibitivo.

O único tipo de factoring que é lucrativo e sustentável, e perfeitamente legal, é quando "B" e "C" são do mesmo grupo econômico. As taxas de desconto costumam ser pequenas, até porque o risco é zero.