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Ar-condicionado multi-split

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Pois é, a casa onde estavam instalados os splits que inspiraram o outro artigo foi vendida. Agora eu moro num apartamento. Um dos atrativos de um imóvel de construção recente é a infra-estrutura moderna: cabos de rede e TV a cabo têm conduítes apropriados, e muitos já vêm com a tubulação de ar-condicionado split. Isto evita o aspecto mais traumático da instalação do split: quebrar paredes e/ou fazer buracos.

O "lado B" dos prédios construídos pós-bolha imobiliária é a metragem quadrada cada vez mais reduzida, e as sacadas técnicas para as máquinas dos splits são cronicamente subdimensionadas.

Por exemplo, meu novo muquifo tem 4 ambientes, todos com preparação para split, mas a sacada técnica tem gloriosos 140cm x 60cm (Figura 1).

Figura 1: A sacada técnica destinada a quatro splits

A tubulação ainda emerge da parede bem no meio, o que come parte da profundidade útil. Para chegar a esta sacada é preciso pular a janela, a 10 andares de altura. A altura dos equipamentos não pode passar muito da grade (uns 80cm) sob pena de ficar aparente e arrumar encrenca com o condomínio.

Outros moradores têm ainda menos sorte, a sacada técnica é uma caixa dentro da sala, limitando a altura do equipamento de fato, não apenas de direito! Nestes espaços é possível encaixar duas, até três condensadoras verticais, aquelas que parecem barricas. Se o morador fizer questão dos quatro splits, ainda existe uma solução, mais cara e com algumas desvantagens: o multi-split.

Figura 2: Mais uma mancada de resolução custosa: gesso rebaixado demais no sítio da evaporadora.

Por multi-split entendemos o aparelho de split onde uma condensadora atende diversos ambientes, cada um com sua própria unidade interna (chamada de evaporadora), usando os mesmos canos de cobre cheios de gás do split comum. É diferente de ar-condicionado central, com aqueles dutos de ar, adotado em ambientes comerciais e apartamentos realmente luxuosos.

Quando utilizar

Multi-split só faz sentido quando o espaço para as condensadoras for muito limitado.

Ainda que os multi-splits à venda sejam muito sofisticados, custa no mínimo 30% mais caro instalar um multi-split, se comparado ao custo total de diversos splits tecnologicamente equivalentes (com inverter, gás ecológico, etc.).

Além do custo maior, há o problema de haver um ponto único de falha. Se a condensadora quebrar, a casa toda fica sem ar-condicionado. Múltiplas máquinas proporcionam mais confiabilidade (dificilmente mais de uma vai quebrar ao mesmo tempo) a preço menor, não há o que discutir.

Do ponto de vista tecnológico, o multi-split é uma máquina bem mais interessante que o split comum, embora isso tenha valor duvidoso como argumento de venda.

Multi-split por força bruta

Há alguns anos atrás, quando comprei meu primeiro split, o multi-split dominante era o "burro": a caixa externa era apenas uma, mas lá dentro havia um circuito de refrigeração completo para cada unidade interna, com compressor, radiador e tudo mais. Algumas chegam a ter dois ventiladores.

Esses modelos normalmente são bi-split, muito raramente tri-split. Como é de se esperar, a condensadora é enorme e muito pesada, quase tanto quanto a soma das duas ou três condensadoras simples que ela substitui.

Apesar do peso e tamanho, esse tipo de multi-split ainda pode ser útil se o espaço é limitado em apenas uma dimensão (por exemplo, na altura). Uma máquina duas vezes mais volumosa é apenas 25% maior em cada dimensão (altura, largura e profundidade).

As multi-split "burras" têm duas vantagens: são relativamente baratas (embora ainda mais caros do que splits individuais) e a falha de um circuito não compromete os demais. Em tese, o usuário não sofre a maior desvantagem do multi-split: ficar sem nenhum ar-condicionado em caso de pane na única condensadora do sistema.

Esse tipo de multi-split está em extinção. Havia modelos de diversos fabricantes (Consul, Electrolux, Komeco, Midea, Carrier) mas agora há apenas Electrolux bi-split e Komeco tri-split, ambos com condensadoras muito grandes que não me serviram. Meus planos de refrigerar o muquifo gastando pouco foram por água abaixo.

Multi-split moderno

O multi-split moderno implementa a tecnologia VRF (Variable Refrigerant Flow — fluxo variável de gás refrigerante), o que explica parte do seu alto custo: o dobro do que seria gasto em splits individuais comuns, ou 50% a mais que o custo dos splits "inverter".

Vou descrever a seguir os principais aspectos que distinguem o multi-split de outras soluções.

Compressor inverter

Diferente de um compressor comum, que só pode estar "ligado" ou "desligado", o compressor inverter pode trabalhar numa ampla faixa de velocidades. O nome "inverter" vem do circuito eletrônico de controle.

É praticamente obrigatório que um multi-split seja inverter, porque a capacidade da condensadora tem de variar, conforme o número de unidades internas (evaporadoras) em operação.

Alguns multi-split "burros", como o Komeco 3x12000 BTU, utilizam uma engenhosa combinação de dois compressores, um maior e outro menor, podendo assim variar a capacidade em passos discretos: 0%, 33% (compressor pequeno), 66% (compressor grande) e 100% (os dois compressores). Esta tática só é possível quando a capacidade das evaporadoras é fixa e predefinida.

Na implementação mais usual, o compressor inverter possui um motor de indução trifásico, alimentado por um circuito eletrônico em vez de ser ligado direto à rede elétrica. O circuito proporciona partida suave (sem tranco e sem pico de corrente) e controle da rotação numa ampla faixa.

Como a corrente trifásica é sintetizada pelo circuito inverter, e não há pico de corrente na partida, compressores muito potentes (até 5kW, equivalentes a 60.000 BTU) podem ser ligados numa rede monofásica.

Avanços pós-inverter

Na briga pelo primeiro lugar em eficiência, as diferenças entre os modelos ficam cada vez menores. Os itens a seguir são pequenos avanços, são válidos, mas não são condições sine qua non na escolha do aparelho.

Vida útil do compressor

Em tese, o inverter aumenta muito a vida útil do compressor, pois evita o tranco de partida, o aquecimento do motor devido à grande corrente de partida, e o liga-desliga em carga parcial — três fatores de desgaste prematuro. Aumentar a confiabilidade do único compressor é muito importante porque tudo depende dele.

Os fabricantes alegam que o inverter economiza até 40% de energia quando o aparelho trabalha em carga parcial. Eu sou meio cético a este respeito, mas de fato o inverter evita dois grandes desperdícios de energia: a corrente de partida do motor comum, e a retomada de fluxo do gás, que demora até um minuto.

Finalmente, motor inverter (seja qual for o tipo) não precisa de capacitor de partida — uma peça que estraga muito.

Válvula eletrônica de expansão

Um split comum só tem uma capacidade, por exemplo 9.000 BTU. Se apenas 3.000 BTU são necessários, o compressor liga e desliga, ficando ligado em média 33% do tempo. O split inverter para um ambiente gira o compressor a um terço da velocidade.

O multi-split lida com um problema mais complexo: há diversos ambientes, cada um com uma necessidade diferente de refrigeração. Por exemplo: 3.000 BTU, 2.000 BTU e 1.000 BTU. O compressor inverter produz a capacidade total necessária (no exemplo, 6.000 BTU), mas também é preciso distribuir o refrigerante de forma desigual, do contrário os três ambientes receberiam 2.000 BTU cada e não poderiam manter a temperatura escolhida pelo usuário.

O problema é resolvido pela EEV — válvula eletrônica de expansão. Nos aparelhos de um ambiente, esta válvula também existe mas é mecânica, pois só precisa regular a pressão do gás. Nos multi-split, as válvulas (uma para cada ambiente) regulam pressão e volume.

Este é um componente caro que só existe no multi-split, o que justifica parte do sobrepreço. O controle destas válvulas, conjugado ao controle do compressor, também é muito mais complexo que o de um split normal.

A válvula de expansão é onde o líquido refrigerante começa a esfriar. Em splits residenciais, inclusive multi-splits, as válvulas ficam na máquina externa. Isto simplifica o sistema e deixa o ruído da expansão do lado de fora, mas obriga que a tubulação "de ida" também possua isolamento térmico.

Overbooking de capacidade

A válvula EEV também viabiliza outro argumento de venda dos multi-split: a flexibilidade na escolha das unidades internas, conforme a necessidade de cada ambiente. Pode-se ligar evaporadoras de capacidade muito diferente, de 7.000 a 18.000 BTU, numa mesma condensadora, e o refrigerante é distribuído de acordo.

A capacidade total das evaporadoras pode ultrapassar a da condensadora, se houver expectativa de carga parcial na maior parte do tempo. Por exemplo, três quartos (9.000 BTU x 3) e sala (18.000 BTU), total geral de 45.000 BTU, ligados numa condensadora de 30.000 BTU, mas dificilmente os quartos são refrigerados ao mesmo tempo que a sala, e apenas dois de três quartos são ocupados simultaneamente.

Gás R-410a

O gás R-22 ainda é muito utilizado em splits comuns, mas modelos inverter vêm todos com R-410a, que não agride a camada de ozônio. Outra vantagem deste gás é proporcionar maior eficiência — o que se traduz em menor consumo de energia e unidades condensadoras menores para uma mesma capacidade.

Isto é importante para o contexto do multi-split, cujo mercado-alvo é justamente quem tem espaço limitado. Um multi-split cuja máquina tem peso e volume equivalentes à soma dos splits convencionais que ele substitui, não é tão conveniente.

Modelos disponíveis no mercado

O multi-split é bastante difundido na Europa e principalmente no Japão, talvez devido ao tamanho minúsculo das moradias por lá. Todas as marcas de primeira linha (Fujitsu, Daikin, Samsung, LG, Panasonic, Mitsubishi, Carrier, etc.) oferecem aparelhos desse tipo.

No Brasil, a oferta é bem menor, e diversas marcas pararam de comercializar seus modelos. Na grande maioria eram multi-splits "burros".

Em lojas on-line, encontram-se modelos da Fujitsu, Daikin, Carrier e Samsung. As instaladoras credenciadas aqui da região oferecem Fujitsu e Daikin. No caso das outras marcas, seria preciso comprar a máquina na Internet e contratar a instalação separadamente, o que é meio temerário (em caso de problemas, um vai empurrar o problema pro outro).

Figura 3: Split instalado no quarto onde o gesso foi rebaixado

Acabei optando pela Daikin, conhecida como a "Mercedes-Benz do ar condicionado", por questões comerciais. A instaladora com quem fechei negócio (MF Refrigeração) é uma empresa pequena se comparada às demais que consultei, porém foi a única que me atendeu prontamente, visitando o local no horário combinado, fazendo orçamento com rapidez, etc. Além do mais, já tinha instalado outros multi-splits do mesmo modelo no mesmo prédio.

O resto das empresas só me deu algum tipo de satisfação quando fui lá pessoalmente, porque decerto não podiam me expulsar! Isso dá uma boa noção de como você vai ser atendido em caso de problemas posteriores. Fora que passaram orçamentos 50% mais caros. Esse povo acha que a gente não tem Internet pra consultar o preço dos equipamentos?

Figura 4: Máquina do split na sacada técnica

O aparelho é muito silencioso dentro e fora; é preciso colocar a mão na unidade externa para descobrir se está funcionando.

A quem interessar possa, o modelo da condensadora é 4MXS80KVM, quente/fria, 8.0kW (equivalente a 27000 BTU), consumo máximo de 2.3kW de energia. As evaporadoras são 3 x FTXS25KVM (2.5kW ou aprox. 9000 BTU) e 1 x FTXS50KVM (5.0kW ou 18000 BTU).

A Daikin só tem um defeito: não dá muita bola para seus próprios sites. O site brasileiro e o site internacional não têm muita informação. Precisei recorrer aos sites dos países onde a empresa tem forte presença. Um dos melhores sites é o da Daikin australiana.

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