Depois de um longo namoro, acabei assinando a Starlink Mini como Internet secundária para o home office.
As promoções recentes da empresa, oferecendo antena barata e mensalidade razoável, devidamente propagandeadas nos lugares certos, e mais o boca-a-boca positivo de colegas de trabalho, tornaram o serviço irresistível.
O cenário aqui no mato é que dependemos da Internet para todo tipo de comunicação, inclusive TV e telefonia. Celular só pega se subir no telhado, literalmente.
Insisti por longos anos em Internet secundária 4G, com um receptor Elsys Amplimax (*) no sótão, na expectativa que a cobertura celular fosse melhorar ao longo do tempo. Mas nada mudou em 4 anos: 1Mbps e RTT ("ping") de 900ms só dão para telemetria IoT, alarme, quiçá uma mensagem WhatsApp de texto, e nada mais. E a mensalidade é quase tão alta quanto a Internet de fibra ótica.
Contratar um segundo provedor de fibra adicionaria um nove ao SLI (*7). Mas dois links passando pelos mesmos postes e pelo mesmo padrão de entrada parecem ser uma provocação tanto contra Murphy quanto contra Maquiavel (*6).
Um link secundário wireless seria ideal. Mas ninguém mais oferece a Internet via rádio que era a salvação da lavoura nos anos 2010 baixos. HughesNet era muito cara para uso não-comercial.
A HughesNet era a única opção de Internet via satélite em lugares ermos (**). Com todas as desvantagens típicas de comunicação via satélite geoestacionário: custo estratosférico, antena grande alinhada por profissionais, franquia minúscula e RTT na casa dos 600-800ms.
Aí veio a Starlink, com um paradigma diferente: uma constelação de satélites voando baixo e rápido. Na primeira versão, a antena do cliente mexia-se para alinhar-se sozinha. Nas versões mais novas, nem mesmo possui partes móveis.
Podem falar o que quiserem do Elon Musk, mas esse ovo de Colombo ele botou de pé, sim senhor.
Para ser honesto, não acreditava que a Starlink entregasse um décimo do que promete. E o custo não autorizava uma contratação por impulso ou para experimentação (*4). Em tese, a antena exige 110º de céu aberto, então teria de colocá-la numa torre, porque o IBAMA faz questão das árvores altas aqui no entorno.
Mas o preço da antena e da mensalidade foram diminuindo, diminuindo, até quase empatar com o plano pós-pago 4G. A oferta da Starlink Mini faculta devolver o kit em até 30 dias. A pá-de-cal foi o relato de colegas de trabalho que corajosamente (ou temerariamente) usam Starlink como Internet primária. Pelo menos um colocou a antena numa sacada de apartamento!
O workflow de compra, a apresentação e o procedimento de instalação da Starlink Mini são "padrão Apple". Abre a caixa, espeta o cabo de alimentação, escaneia o QR Code para instalar o app que conecta-se ao Wi-Fi da antena e finaliza a configuração.
Comprei a antena direto da Starlink, que na promoção custou apenas R$ 99. Mas ela pode ser adquirida em qualquer loja. O atrelamento a um plano é feito após a ativação bem-sucedida via app.
Naturalmente meu foco era em planos residenciais e pessoa física. Mas também existem planos para empresas, que permitem conexões entrantes, suprem IPv4 quente em vez de CGNAT, e oferecem mais banda de upload.
Mesmo o plano residencial oferece IPv6. É é uma faixa /56; quem é netmonk-raiz, raça em extinção, sabe o que isto significa. Alguém lá dentro da Starlink entende de IPv6. A quase totalidade dos provedores oferece uma faixa /64, o que significa que não entendem de IPv6.
Outro detalhe que demonstra capricho de connaisseur é que os endereços IPv4 e IPv6 de saída têm DNS reverso decente. No meu caso é customer.splobra1.isp.starlink.com. Além do nome ter um significado claro, é extremamente raro que um provedor ou entidade configure corretamente o DNS reverso dos seus endereços IPv6.
O segredo da Starlink é funcionar basicamente como um refletor entre o cliente e o ponto de presença (PoP) mais próximo. É quase uma tecnologia de Internet de última milha. A Starlink possui inúmeros PoPs ao redor do mundo, algumas dezenas no Brasil. O mais próximo de mim está a apenas 50km.
No início, a Starlink só funcionava para clientes a no máximo 500-600km de um PoP, para que um mesmo satélite pudesse enxergar os dois lados. Hoje, a comunicação pode passar por mais de um satélite (a constelação comunica-se entre si por laser) e a cobertura é praticamente global, mesmo em países sem PoP. Claro que essas áreas pagam uma penalidade em velocidade e latência.
Pelo fato dos satélites voarem muito baixo (550km de altitude), o sinal de rádio é muito mais forte do que no caso dos satélites geoestacionários. As antenas podem ser muito menores, e a latência adicionada pela viagem no espaço é bastante reduzida: em tese, menos de 4ms, contra 240ms de um satélite "normal".
Por outro lado, os satélites passam muito rápido no céu (ficam no máximo 4 minutos no cone de visibilidade) então os algoritmos de conexão e handover têm de trabalhar bastante, tanto lá em cima quanto aqui embaixo.
Adquiri o kit Starlink Mini. É o que tem sido oferecido de forma mais agressiva no Brasil. A antena Mini é pequena e leve, sem partes móveis, com toda a eletrônica alojada na própria antena, apropriada para uso ad-hoc, portátil e/ou em movimento. O plano a ser contratado muda conforme o caso de uso; o plano móvel é mais caro.
A Starlink Mini tem algumas peculiaridades em relação à antena tradicional, de que você deve tomar conhecimento, principalmente se for usá-la como Internet primária:
Posicionei a antena num local de acesso fácil (telhado da garagem) e com uns 80-90º de visão desobstruída no pior eixo. O app indica algumas obstruções pontuais, mas classifica o local como "desobstruído", o que promete sinal sem muitas interrupções.
Se não desse certo, a próxima tentativa seria colocar na cumeeira da casa com um mastro, que provavelmente daria os tais 110º de cone de visão, em troca de uma dificuldade muito maior de instalação e manutenção, mas parece que realmente não será necessário.
A antena prefere estar levemente inclinada na direção sul, no ângulo produzido pelo suporte móvel. Com o suporte fixo, feito para prender no telhado ou num cano, a antena fica mais na horizontal. O app reclama que a antena está 20º fora do ângulo ótimo, mas não parece afetar o funcionamento.
Observe que, ao final do alinhamento, a antena possua alguma inclinação para qualquer lado, pois se ficar completamente na horizontal, vai acumular água, que prejudica a comunicação.
O app da própria Starlink dá os seguintes números: 260Mbps download, 18Mbps upload, 37ms de ping, perda de pacotes de 0,6%. Provavelmente ele faz essas medidas até o PoP mais próximo, o que não é errado, mas é otimista.
Num Speedtest da vida, espere 150Mbps ou menos de download e 14Mbps de upload. O ping é até um pouco menor do que o próprio app reporta: 30-35ms. O jitter é alto, com desvio médio de +/-7ms, mas isso é normal para um link wireless.
Isso coloca a Starlink no patamar de uma conexão celular 4G, numa área de boa cobertura. Em relação ao 4G, o Starlink tem vantagem no download, enquanto perde para o 5G em todos os aspectos, inclusive no ping.
Essa consideração vale para uma Internet secundária. Como Internet primária, Starlink tem uma vantagem matadora frente ao celular: a franquia. Planos Starlink pessoa física não têm franquia, em contraste com as franquias microscópicas de planos 4G/5G. Se você só tem essas duas opções de conectividade primária, então na verdade sua única opção é mandar dinheiro para o Homem de Ferro (*8).
E quanto à fibra ótica? Na minha opinião, Starlink não substitui Internet via cabo; nem em desempenho, nem em confiabilidade, nem em preço. Um PoP da Starlink é equivalente a um PoP do seu provedor de Internet. O que é melhor: estar conectado a esse PoP via fibra ou via rádio?
Isso não desmerece a tecnologia, até porque o que não falta no Brasil são áreas sem cobertura de banda larga e mesmo de celular. Para quem não tinha nada, ter uma Internet com velocidade 5G e sem franquia é uma dádiva do céu (literalmente). Muita gente que trabalha itinerante e mesmo muitos serviços públicos (polícia, SAMU, concessionária de energia elétrica) têm adotado Starlink móvel.
No Brasil, gostamos de "esticar a corda", é nosso esporte nacional. Então muita gente se empolgou com Starlink, substituiu sua fibra ótica por ele, alguns foram logo montando provedor no cafundó do Judas usando um plano Starlink residencial como uplink.
Noves fora as pirangagens, surpreende a adoção de Starlink em áreas urbanas no Brasil, isso é inclusive objeto de estudo lá fora. Entrevejo dois fatores. O primeiro fator é a atávica bronca que o brasileiro tem com as grandes operadoras (que realmente pisam na bola). O segundo é o crime organizado, que em muitas áreas impede a livre concorrência de provedores de Internet, impondo um "gatonet" de péssima qualidade.
Sem dúvida a existência da Starlink "coloca o pau na mesa", como gostavam de dizer meus amigos netmonks. Agora todo provedor sabe que, se pisar repetidamente na bola, o cliente vai embora num átimo, porque agora ele tem para onde correr, nem que seja por birra.
A Starlink também muda radicalmente o cenário da disponibilidade de Internet. Adicione um sistema elétrico off-grid, e você pode morar e trabalhar em literalmente qualquer lugar.
(*) O Amplimax 4G da Elsys é um bom produto, tem recebido atualizações desde que o adquiri em 2022, que inclusive corrigiram bugs de longa data, algo pouco usual nesse mercado. Uma pena que a operadora de celular não fez a parte dela.
(**) A definição de "ermo" mudou bastante. Até o início dos anos 2000, era quase impossível obter Internet em cidades menores ou bairros afastados, mesmo estando disposto a pagar link dedicado. Os poucos que trabalhavam remoto tinham de escolher a dedo onde morar, chegando a medir a distância até a central telefônica mais próxima para que ADSL estivesse disponível. Muitas empresas e escolas usavam HughesNet. Os planos da época eram ainda piores que hoje: 200kbps de velocidade e 5GB de franquia de dados.
(*4) Já vão longe os tempos que o tráfego neste site gerava receita suficiente para permitir dispêndios em experiências e livros, que depois iam sendo amortizados com os banners de propaganda nos respectivos artigos. Nem perco mais tempo com ads.
(*5) Adquiri um cabo que tem apenas 50cm, com uma cápsula à prova de elementos, semelhante a de câmeras IP. Da cápsula em diante, você pode usar um cabo Ethernet comum e conectores comuns.
(*6) Embora eu finalmente tenha me dignado a ler "O Príncipe", de Maquiavel, e não vi nada muito maquiavélico. Só vi bons conselhos, e muitas verdades.
(*7) SLI = Service Level Indicator, aparentado do SLA (Service Level Agreement) e do SLO (Service Level Objective). SLA e SLO costumam ser expressos em "tantos noves", por exemplo "três noves" significa 99,9% de disponibilidade.
(*8) Antes de Elon Musk ser fortemente associado à segunda administração Trump, os "tech bros" eram bastante entusiasmados a respeito dele, comparando-o a Tony Stark, o "Homem de Ferro" dos quadrinhos Marvel. O fato não passou despercebido dos roteiristas, e Musk até fez uma ponta no filme Iron Man 2.