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Trem para o Inferno

Traduzido e adaptado do conto "That Hell-Bound Train", de Robert Bloch

O pai de Martim era ferroviário. Nunca alçou um posto elevado na ferrovia, mas percorria os trilhos da Paulista e tinha orgulho do emprego.

Desde que a mãe de Martim tinha fugido com um caixeiro-viajante (e um reles passageiro, ainda por cima!) o marido abandonado se embebedava todas as noites, e sempre cantava a velha canção Aquele trem para o Inferno.

Martim não conseguia mais lembrar de nada da letra, mas lembrava perfeitamente a forma que seu pai cantava a música. Quando papai cometeu o erro de se embriagar logo à tarde e foi prensado entre um tanque e uma gôndola, Martim estranhou que seus colegas não cantaram a canção na hora do enterro.

Depois disso, as coisas não foram tão bem para Martim, mas ele sempre lembrava da canção do papai, e ruminava as notas toda noite no orfanato. E quando ele fugiu, assobiava a música nos matos.

Martim ficou por aí, de léu em léu, por uns quatro ou cinco anos até descobrir do jeito difícil que não chegaria a lugar nenhum desse jeito. Ele tentou muita coisa: colheita de frutas, lavar pratos, roubar calotas de automóveis, depois pneus — mas depois de ficar seis meses preso numa delegacia, forçado a trabalhar de graça como calceteiro, ficou claro que não tinha futuro nisso.

Então ele tentou ingressar na ferrovia, assim como seu pai, mas lhe disseram que havia uma crise, que não estavam contratando. Mas Martim não conseguia ficar longe do trilho. Sempre que viajava, era de trem. Ele preferia ir clandestino num vagão gelado que se sujeitar a pedir carona na estrada. Quando conseguia uma garrafa de bebida, e se acomodava quentinho entre sacos de grãos, a vida parecia ideal, e pensava nos tempos de criança e solfejava a música sobre Aquele trem para o Inferno.

Era o trem em que viajavam os bêbados e pecadores, jogadores e golpistas, os perdulários, mulherengos e todo o lúmpen. E seria realmente bom viajar em tão boa companhia, mas Martim não gostava da parte final, quando o trem finalmente chegava no Depósito Lá Embaixo. Passar a eternidade nos caldeirões do capeta, sem sequer um sindicato para protegê-lo.

Mas o passeio até lá seria bom, se houvesse o tal trem para o Inferno, mas é claro que ele não existia.

Pelo menos Martim achava que não existia, até aquela noite escura e fria em que estava andando pelos trilhos em direção ao norte. Noite típica de junho, ele tinha de ir até o Rio, talvez até o Espírito Santo para não morrer no inverno. Ele não estava exatamente com vontade de chegar. Apesar de que a vida de ladrão era, segundo diziam, mais fácil por lá.

Não mesmo, ele não estava mais nessa. Além de pecado, um pecado que não dá lucro. Fazer capetices por um retorno miserável. Era melhor se deixar acolher pelo Exército da Salvação e ficar tomando sopa.

Martim continuou andando e assobiando a música do papai, esperando um cargueiro vindo do sul. Ele teria de pegar carona nele, não havia nada mais a fazer.

Mas o primeiro trem que apareceu veio de outra direção, trovejando do norte.

Martim olhou mas não viu nada, ainda assim ele ouvia. Tinha de ser um trem, ele já sentia o aço estalar e vibrar sob seus pés. Mas era muito estranho, pela tabela de horários não poderia haver nada vindo do norte por muitas horas.

A neblina estava baixa e grossa, mas pelo menos o farol deveria ser visível. Em lugar disso havia apenas o apito, gritando na garganta negra da noite. Martim conhecia o tom exato do apito de cada locomotiva da ferrovia, e aquele era diferente, além disso não parecia sinalizar, parecia gemer como uma alma perdida.

O trem devia estar muito perto agora, e ele foi para o lado da linha. E num instante a composição apareceu, correndo pelos trilhos e atingindo a imobilidade muito mais prontamente do que o normal. Mas as rodas não estavam muito bem lubrificadas, porque elas gemiam também, gemiam como os amaldiçoados.

Enfim, os gemidos pararam de uma vez e Martim olhou para o que parecia ser um trem de passageiros. Era grande e preto, sem uma única luz emanando da locomotiva ou de qualquer dos vários carros. Os letreiros não podiam ser lidos, mas ele já tinha concluído que este trem não podia pertencer à Paulista nem à Sorocabana.

Ele teve ainda mais certeza quando viu o homem descer do primeiro carro. Havia algo errado com o jeito de andar, era como se arrastasse um dos pés, e o jeito com que carregava a lanterna apagada. O homem levantou-a ao nível da boca, soprou e ela brilhou imediatamente num tom vermelho. Você não precisa ser um ferroviário para saber que este é um jeito bem estranho de acender uma lanterna.

Conforme o homem se aproximou, Martim reconheceu o boné de condutor enterrado na cabeça, e sentiu-se melhor por ora — até notar que ele estava um pouco alto, como que para esconder alguma protuberância na fronte.

Martim tinha um arremedo de educação; vocalizou automaticamente um "Boa-noite, senhor Condutor" e este último sorriu.

Ernest Borgnine, interpretando o diabólico condutor do Trem 19 no filme O imperador do Norte

"Boa-noite, Martim."
"Como sabe meu nome?"

O homem sorriu mais. "Como sabia que eu era o Condutor?"
"Você é, não é?"

"Para você, sim. Embora outras pessoas, em outras ocasiões da vida, podem me reconhecer em diferentes papéis. Por exemplo, você devia ver como os caras do cinema me pintam..." Ele gargalhou. "Eu viajo muito", explicou-se.

"O que traz você aqui?", Martim inquiriu.

"Por que a pergunta? Você é que sabe, Martim, eu vim porque você precisou de mim. Nesta noite, eu descobri de repente que você está fraquejando. Pensando em entrar no Exército da Salvação, correto?"

Martim hesitou. "Bem..."

"Não se envergonhe. Errar é humano, como disse o outro, foi quem mesmo...? Não importa, o caso é que senti que você precisava de mim, então saí da minha rota para te encontrar."

"Para quê?"

"Para quê? Para te oferecer um passeio, é claro, Não é melhor viajar confortavelmente de trem do que trabalhar por um prato de sopa? Cansativo, bolhas nos pés, ouvir xingamentos..."

"Não sei se quero entrar neste trem, senhor. Considerando para onde ele vai."

O Condutor suspirou. "Ah, sim. O velho roteiro. Eu presumo que você deseja barganhar, não é?"

"Exatamente."

"Bem, temo que eu já não faça este tipo de coisa. Os passageiros para meu trem são abundantes hoje em dia. Por que eu deveria oferecer-lhe algo em troca?"

"Você deve querer muito que eu embarque, do contrário não teria saído do seu caminho para me encontrar aqui."

O Condutor suspirou de novo. "É, você tem razão. Orgulho sempre foi minha grande fraqueza, eu admito. E eu odiaria perder você para a concorrência, depois de achar por tantos anos que você era meu." Ele hesitou por um momento e disse "Ok, estou preparado para negociar com você, nos seus termos, se você insiste."

"Termos?" perguntou Martim.

"O contrato-padrão. Qualquer coisa que você quiser."
"Ah." disse Martim.
"Mas eu vou avisando: sem truques. Eu atendo a qualquer pedido seu, que você possa exprimir em palavras — mas em troca você promete embarcar no meu trem quando chegar a hora."
"E se a hora nunca chegar?"
"Chegará." disse o Condutor.
"Suponha que meu desejo envolva ficar de fora para sempre?"
"Isso não existe."
"Não tenha tanta certeza."

"Deixe eu tomar conta desta parte," disse o Condutor. "Não importa o que você tem em mente, estou avisando que no final eu venho pegar você. E não haverá nada dessa bobagem de arrependimento no último minuto, nem nenhum padre ou advogado que vá mostrar-lhe como escapar de mim. Eu ofereço um acordo simples e claro. Você obtém o que quer e eu obtenho o que eu quero."

"Ouvi dizer que você engana as pessoas, que é pior que um vendedor de carros usados."
"Ei, espera aí..."
"Eu peço desculpas," Martim corrigiu rápido. "Mas o fato é que, por definição, você não é confiável."
"Eu admito. Por outro lado, parece que você pensa que achou uma saída para o paradoxo."
"É. Uma coisa infalível."
"Infalível? Muito engraçado!" O homem começou a se rir todo, então parou de vez. "Mas estamos perdendo tempo precioso, Martim. Vamos ao acordo. O que você quer de mim?"

Martim respirou fundo. "Eu quero poder parar o tempo."
"Agora?"
"Não, não ainda. E não para todo mundo. Eu sei que seria impossível, é claro. Mas quero parar o tempo para mim mesmo. Apenas uma vez, em algum momento futuro. Quando chegar num ponto em que esteja feliz, é onde eu gostaria de parar o tempo. E ser feliz para sempre."

"É um pedido e tanto," resmungou o Condutor. "Nunca ouvi nada assim antes, e pode acreditar, já ouvi muita coisa." Ele fitou Martim. "Você realmente pensou bastante neste negócio, não é?"

"Por anos a fio", Martim admitiu. Então ele tossiu. "Bem, o que você diz?"

"Não é impossível, se considerarmos o seu sentido subjetivo do tempo," murmurou o Condutor. "Sim, eu creio que pode ser feito."

"Mas eu realmente quero que o tempo pare. Não quero simplesmente a impressão imaginária de estar parado."

"Entendido. E pode ser feito."

"Então você concorda?"

"Por que não? Eu prometi, não prometi? Me dê sua mão."

Martim hesitou. "Isso vai doer? Eu não gosto muito de ver sangue, e..."

"Deixe de bobagem! Você tem ouvido muita besteira por aí. Nosso trato já está feito, meu garoto. Eu só quero colocar algo na sua mão. O mecanismo que realizará seu desejo. Eu não tenho como saber quando você pretende exercer sua parte do contrato, e quando isto acontecer, não posso sair do meu caminho só para atendê-lo. Então é melhor você ter autonomia nesta questão."

"Você vai me dar um congelador do tempo?"

"Mais ou menos isto. Assim que você decidir que é a hora. Aqui, pegue o meu relógio."

O condutor do Trem 19 é rigoroso com o horário

Ele tirou o relógio de bolso, um relógio padrão da ferrovia com caixa de prata. Ele abriu a tampa traseira e fez um delicado ajuste no mecanismo. Martim tentou ver o que ele estava mexendo, mas os dedos moviam-se tão rápido que pareciam borrados.

"Aqui está." O Condutor falou contente. "Está tudo pronto agora. Este relógio não precisa de ajustes para mostrar a hora certa. Mas, quando você decidir parar o tempo, gire o botão de ajuste na direção contrária dos ponteiros até ele parar. Quando ele parar, o tempo vai parar. Para você. Simples o suficiente?" E o Condutor depositou o relógio na mão de Martim.

O jovem homem fechou os dedos em torno do relógio. "Isto é tudo?"

"Sim, é tudo. Mas lembre-se — você só pode parar o relógio uma vez. Então escolha bem o momento. Estou sendo sincero: use bem seu desejo."

"Eu vou usar bem." Martim mostrou os dentes. "E já que você foi tão sincero, também vou ser. Tem uma coisa que você esqueceu. Realmente não importa que momento vou escolher. Como eu vou parar o tempo, vou ficar aqui para sempre, não ficarei mais velho, não vou morrer e nunca terei de embarcar no seu trem!"

O Condutor virou-se, e falou, balançando os ombros, imitando choro: "E você disse que eu era pior que um vendedor de carros usados!".

Então ele foi andando até desaparecer na neblina, houve um apito curto e impaciente, e o trem começou a mover-se, desaparecendo logo na escuridão.

Martim ficou ali, olhando para o relógio de prata na sua mão. Se ele não pudesse sentir o peso do relógio na mão, e não pudesse sentir o cheiro peculiar, acharia que tudo não passou de um delírio: trem, Condutor, trato.

Mas tinha o relógio e sentia o odor deixado para trás conforme o trem partia. Não havia muitas locomotivas por aí que usavam enxofre como combustível.

E ele não tinha dúvida a respeito do trato. Era a conclusão lógica natural do que vinha pensando desde muito. Outros idiotas teriam aceito a barganha em troca de riqueza, ou poder. Papai teria se vendido por uma caixa de uísque.

Martim sabia que tinha feito um negócio melhor. Melhor? Era à prova de falhas. Tudo que ele precisava era escolher seu momento.

Colocou o relógio no bolso e continou a andar pelos trilhos. Ele não tinha um destino real em mente antes, mas agora tinha. Ele queria achar um momento de felicidade...

Apesar de jovem, Martim não era um deslumbrado. Ele sabia perfeitamente bem que felicidade é uma coisa relativa; que há condições e níveis de contentamento, e eles variam conforme o estágio da vida.

Na qualidade de andarilho ele ficava satisfeito com um prato quente recebido de esmola, um banco no parque e uma garrafinha de qualquer coisa alcoólica. Mais de uma vez atingiu o clímax de felicidade com estes poucos luxos, mas sabia que havia coisas melhores sobre a terra. Martim decidiu encontrá-las.

Em dois dias estava no Rio de Janeiro. Fazendo um expediente aqui, outro ali, esmolando acolá, foi promovido de andarilho a vagabundo. Conseguia dinheiro para comer um prato-feito por dia, acompanhado de uma caipirinha, e arrumou um sobretudo puído, mas não de todo feio, que também lhe servia de cobertor à noite.

Houve uma noite, depois de curtir todos estes três luxos ao máximo, que Martim pensou em atrasar o relógio, no máximo da bebedeira. Mas ele também pensou nos rostos dos Josés da Silva que lhe davam esmolas. Eles eram caretas, é verdade, mas pareciam estar bem na vida. Vestiam boas roupas, tinham bons empregos, dirigiam carros bacanas. E para eles, felicidade era ainda mais intensa: jantares em hotéis, dormiam sobre colchões de mola, bebiam uísque e bom vinho em vez da sua cachaça que às vezes cheirava a gasolina.

Caretas ou não, eles tinham alguma coisa. Martim manipulou o relógio um pouco mais, trocou a tentação de atrasá-lo por mais um copo de cana, e foi dormir determinado a arrumar um emprego e melhorar seu índice de felicidade.

No outro dia ele acordou com uma terrível ressaca, mas a determinação ainda estava com ele. Antes do fim do mês, Martim estava trabalhando numa construção na Zona Sul. Ele odiava o esforço, mas o pagamento era até bom, e logo e ele pôde alugar uma casa minúscula, mais para barraco, na Ilha do Governador. Agora podia comer em restaurantes por quilo, comprou uma boa cama a prestações, e todo sábado ia na zona. Era muito bom, porém...

O mestre de obras gostava do trabalho de Martim e prometeu-lhe um aumento na próxima obra. Fazendo as contas, se ele se segurasse no emprego, poderia até comprar um carro usado. Com um automóvel, podia até arrumar uma garota "normal" de vez em quando, do tipo que não se precisa pagar. Alguns colegas de trabalho seguiam esta sina e pareciam felizes.

Então Martim continou trabalhando, o salário realmente aumentou, veio o carro e duas garotas.

Logo que isto se sucedeu, pensou em atrasar o relógio. Imediatamente. Até que ele lembrou o que alguns colegas mais velhos diziam. Que esse tipo de diversão era coisa de quem não conhece a vida. A real satisfação é ter uma garota só sua.

Martim achou que devia a si mesmo descobrir se isto era verdade ou não. Se não fosse, sempre poderia voltar à vida louca de solteiro.

Passou-se quase um ano até que encontrou Lilian. Neste interim ele já tinha sido promovido mais uma vez e estava trabalhando no escritório. Por insistência do chefe freqüentava uma escola noturna e estava aprendendo o básico de contabilidade. Era chato, mas redundava num salário trinta por cento maior e era melhor que trabalhar ao sol e ao sereno.

E Lilian era por si só fonte de alegria. Quando ela disse que queria casar, Martim estava quase certo que a hora era agora. Exceto que ela era... bem, era uma garota "decente", do tipo que não faz certas coisas antes de casar. E para casar, era preciso ter algum dinheiro guardado, talvez fosse melhor esperar uma outra promoção.

Isto demorou mais um ano. Martim era paciente, porque sabia que valeria a pena. Cada vez que estava em dúvida, desembolsava o relógio e o contemplava. Mas nunca mostrou-o para Lilian, nem para ninguém. A maioria dos outros usava relógios de pulso, de ouro, e aquele relógio de bolso de prata parecia um tanto gasto e antiquado.

Martim observou contente o burburinho. Apenas algumas voltas no botão de ajuste e ele teria algo que o resto do gado humano nunca teria. Satisfação permanente, ao lado da sua noiva enrubescida. Mas estar casado era apenas o começo. Claro, era maravilhoso, mas Lilian disse que seria ainda melhor se se mudassem para um lugar maior, e tratassem de arrumá-lo. Martim queria móveis decentes, uma TV, um carro bom.

Então perseverou no trabalho e acabou promovido à área comercial. Com o bebê para chegar, ele queria esperar e ver seu filho nascer. E quando nasceu, ficou curioso e esperou até que crescesse um pouco, começasse a andar e desenvolvesse uma personalidade própria.

Mais ou menos nesta época a empresa mandava-o viajar na condição de "resolvedor de problemas", e agora ele ficava em hotéis caros, comia e vivia com todas as despesas pagas. Mais de uma vez se sentiu tentado a atrasar o relógio. Esta era a vida boa...

Claro, seria ainda melhor se não tivesse de trabalhar. Cedo ou tarde ele teria participação no fechamento de algum contrato, ganharia uma bolada e poderia se aposentar. Então seria ideal.

Acabou acontecendo, mas demorou bastante. O filho de Martim já estava no segundo grau. Martim teve uma forte sensação de que era agora ou nunca, porque não era mais um jovem.

Mas então conheceu Dagmar, e ela não parecia vê-lo como um homem de meia-idade, apesar do cabelo estar rareando e a pança crescendo. Ela ensinou-lhe como um topete poderia esconder a careca e como uma cinta encolhe sensivelmente a barriga. Na verdade ela ensinou-lhe muitas outras coisas que não seria de bom tom descrever, mas ele gostou tanto de aprender que, numa parada de semáforo, sacou seu relógio para atrasá-lo ali mesmo.

Mas exatamente naquele instante espoucou um flash de fotógrafo. Era um detetive particular no carro ao lado. Depois disso passou-se um longo período bastante infeliz em que Martim estava muito ocupado com o processo de divórcio.

Quando finalmente assinou os papéis com Lilian, ele estava quebrado. De um momento para o outro, Dagmar também não quis mais conversa com ele. Então endireitou os ombros e voltou ao trabalho.

Incrivelmente, conseguiu juntar dinheiro de novo. Mas demorou, e desta vez não houve muita diversão no processo. As garotas bonitas dos bares elegantes não se interessavam por ele, e ele não se interessava por elas. A bebida também não o atraía mais. Exatamente como os colegas mais velhos tinham avisado que ia acontecer.

Mas havia outros prazeres que um homem rico podia procurar. Viajar, por exemplo — não viajar clandestino num trem, mas sim de avião ou iate. Por uns tempos parecia que tinha achado o estágio perfeito, visitando o Taj Mahal. Martim sacou o velho relógio, e preparou-se para atrasá-lo. Ninguém mais estava olhando...

E foi por isso que ele hesitou. Claro, era um momento agradável, mas ele estava sozinho. Lilian e o garoto estavam longe, Dagmar já era, e ele nunca tinha tirado tempo para fazer amigos. Talvez se fizesse um círculo de amigos, encontraria a felicidade final. Aí estava a resposta: não era apenas o dinheiro, poder ou o sexo ou ver coisas bonitas. A satisfação real estava nas amizades.

Então, no trecho de volta para casa, Martim tentou encetar algumas conversas no bar do navio. Mas eram pessoas muito mais jovens, e Martim não tinha nada em comum com elas. Também queriam dançar e beber, e ele não estava em condições de fazer estas coisas. Mesmo assim ele tentou.

E talvez foi por isso que ele teve o pequeno acidente um dia antes de atracar no Rio. "Pequeno acidente" foi o eufemismo usado pelo médico do navio para descrever o acontecido, mas Martim percebeu que era algo grave quando o médico mandou-o ficar deitado, e chamou uma ambulância pelo rádio para removê-lo direto da doca para o hospital.

No hospital, todo o tratamento caríssimo e os sorrisos e palavras não enganavam Martim. Ele era um homem velho com um coração pifando, e achavam que morreria ali mesmo.

Mas ele podia enganar a todos. Ainda tinha o relógio; encontrou-o no casaco quando vestiu as roupas, e saiu de fininho do hospital.

Ele não tinha de morrer. Ele podia enganar a morte com um simples gesto — e pretendia fazê-lo como um homem livre.

Este era o verdadeiro segredo da felicidade. Agora tinha entendido. Nem mesmo amizade significava tanto quanto liberdade. Era a melhor coisa de todas — ser livre de amigos, família e dos desejos da carne.

Martim caminhava lentamente ao longo dos trilhos sob o céu estrelado. Curiosamente ele estava perto de onde tudo havia começado, há tantos anos. Mas o momento era bom, bom o suficiente para ser prolongado para sempre. Uma vez um vagabundo, sempre um vagabundo.

Ele sorriu ao pensar nisto, e então o sorriso ficou de repente torcido no rosto, assim como era torcida a dor ali dentro do peito. O mundo começou a girar e ele caiu na plataforma da estação.

Ele não podia ver muito bem, mas ainda estava consciente e sabia o que tinha acontecido. Outro ataque cardíaco, e fulminante. Então era isso. Exceto que ele não ia enganar-se mais. Ele não ia esperar mais para ver o que aconteceria a seguir.

Agora era sua chance de usar seu poder e salvar sua vida. E ia fazê-lo. Ainda podia mover-se, nada podia impedí-lo. Tateou o bolso, sacou o relógio de prata. Algumas voltas no botão e ele teria enganado a morte, e nunca teria de viajar no Trem para o Inferno. Ele podia continuar assim para sempre. Para sempre.

Martim nunca tinha pesado estas duas palavras antes. Continuar para sempre... Para quê? Será que ele queria realmente continuar para sempre deste jeito: um homem velho e doente, deitado no chão frio?

Não. Ele não podia, e não faria. E de repente teve vontade de chorar, porque sabia que em algum ponto da jornada tinha sido mais esperto que ele mesmo. E agora era tarde. Seus olhos foram apagando, e havia um barulho nos ouvidos...

Ele reconheceu o ruído, é claro, e não ficou nem um pouco surpreso ao ver o trem chegar da neblina e parar a seu lado. Nem ficou surpreso quando o Condutor desceu e andou lentamente em sua direção.

O Condutor não tinha mudado nadinha. Até o sorriso era exatamente o mesmo.

"Olá, Martim," ele disse. "Todos a bordo."

"Eu sei," Martim sussurrou, "Mas você terá de me carregar. Não posso andar. Na verdade eu nem estou realmente falando com minha boca, correto?"

"Sim, você está," o Condutor respondeu. "Eu posso ouví-lo bem. E você também pode andar." Ele abaixou-se e colocou a mão sobre o peito de Martim. Houve um momento de delírio gelado, e Martim podia levantar-se.

Ele ficou de pé e seguiu o Condutor pela plataforma, até chegar na porta de um carro.

"É neste aqui?" perguntou.

"Não, é no próximo carro," respondeu o Condutor, "Creio que você possa viajar de primeira classe. Afinal, é um homem bem-sucedido. Provou as alegrias da riqueza, prestígio e posição social. Conheceu os prazeres do casamento e da paternidade. Comeu bem, viajou bem, divertiu-se à grande. Então, nada de recriminações de último minuto."

"Está certo," Martim suspirou. "Não posso culpá-lo pelos meus erros. Por outro lado, eu não lhe devo nada. Trabalhei por tudo que conquistei. Fiz tudo sozinho. Nem precisei do seu relógio."

"É, não precisou," o Condutor disse, sorrindo. "Mas você se importa de me devolvê-lo agora?"

"Vai precisar dele para enganar o próximo otário, não é?" Martim disse entredentes.

"Talvez."

O tom que ele usou ao pronunciar "Talvez" fez Martim olhar com mais atenção. Tentou ver os olhos do Condutor, mas a sombra do boné não permitia. Então baixou a cabeça e contemplou o relógio.

"Me diga uma coisa," ele disse pausadamente. "Se eu lhe devolver o relógio, o que você fará com ele?"

"Vou atirá-lo fora por aí, por quê?" disse o Condutor. "É o que vou fazer com ele." E estendeu a mão.

"E se um passante encontrá-lo? E girar o botão para trás, e parar o tempo?"

"Ninguém faria isto," respondeu o Condutor. "Mesmo que soubesse."

"Quer dizer que era tudo conversa? Isto era apenas um relógio comum?!"

"Eu não disse isso," sussurou o Condutor impaciente. "Eu apenas disse que ninguém nunca ajustou o relógio para trás. São todos como você, Martim — procurando a felicidade completa na próxima curva do caminho. Esperando pelo momento que nunca chega."

O Condutor estendeu a mão de novo.

Martim suspirou e balançou a cabeça. "Você me enganou, afinal."

"Você enganou-se a si mesmo, Martim. E agora você vai viajar neste Trem para o Inferno."

Ele conduziu Martim com firmeza até o carro de primeira classe, e então escada acima. Logo que entrou, o trem começou a andar e o apito chorou. E Martim ficou ali de pé no corredor que chacoalhava, observando os demais passageiros. Ele podia vê-los sentados, e não pareciam realmente estranhos.

Estavam todos ali; os bêbados e pecadores, os jogadores e golpistas, os perdulários, mulherengos e imprestáveis de todo o gênero.

Claro, eles sabiam para onde estavam indo, mas não pareciam nem um pouco preocupados. As cortinas estavam todas baixadas, mas havia iluminação interna, e estavam todos aproveitando o momento. Cantando, passando a garrafa de mão em mão e fazendo muito barulho, gargalhando, jogando dados, contando piadas, gabando-se das suas estrepolias, exatamente como a música de papai descrevia.

"Excelente companhia para a viagem," Martim disse. "Puxa, nunca vi uma turma tão animada. Quero dizer, eles parecem gostar de estar aqui."

O Condutor deu aquela risada curta, feia. "Temo que o ambiente não continue tão divertido quando chegarmos ao Depósito Lá Embaixo."

Pela terceira vez, ele estendeu a mão aberta. "Agora, antes de sentar, faça o favor de me devolver o relógio. Trato é trato..."

Martim sorriu. "Trato é trato," ele repetiu. "Concordei em viajar no seu trem se eu pudesse parar o tempo quando achasse o momento de felicidade. E eu acho que nunca estive tão feliz quanto agora."

Lentamente, Martim segurou o botão de ajuste do relógio.

"Não!" esbravejou o Condutor. "Não!!!"

Mas os ponteiros giraram para trás.

"Você tem noção do que fez?!" berrou o Condutor. "Nunca vamos chegar no Depósito! Vamos continuar viajando, todos nós — para sempre!!!"

"Eu sei. Mas a graça está na viagem, não no destino. Você me ensinou isto. E eu quero desfrutar da viagem. Veja, talvez eu possa até ajudar. Se você tiver mais um boné por aí, e me deixar ficar com este relógio..."

E assim se fez. Vestindo o boné da ferrovia e carregando seu velho relógio de prata, não há pessoa mais feliz que Martim, neste mundo ou no outro, agora e para sempre. Martim, o novo guarda-freios do Trem para o Inferno.