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Os 30 dinheiros por quilômetro de ferrovia

Existe uma lenda urbana a respeito da Ferrovia do Contestado: de que o governo pagou 30 contos de réis (*) por quilômetro construído, o que levou a ferrovia a ser alongada desnecessariamente. E que o governo ainda pagava 6% ao ano de juros sobre todo o capital investido na ferrovia; ou sobre a parcela excedente aos Rs. 30:000$000 (**).

Você encontra essa informação em absolutamente todo canto, até em trabalhos acadêmicos, até no livro seminal sobre o assunto (Trem de Ferro: A ferrovia no Contestado, de Nilson Thomé). É o tipo de coisa que faz o folclore do pessoal de humanas...

Uma vez que, em cada lugar que se busca sobre o assunto, encontra-se uma informação ligeiramente diferente, o negócio é ir direto na fonte: os decretos governamentais de concessão. Que hoje em dia são disponibilizados on-line no site do Congresso.

Isso é uma bonança para os pesquisadores, até porque a história da ferrovia é em si mesma mal documentada, e os decretos são uma das poucas fontes sólidas. Mas não é só por preciosismo que eles estão no site do Congresso. Tais decretos tiveram efeitos jurídicos por quase um século, e talvez ainda sejam relevantes em questões de disputa de terras.

Os decretos são inúmeros, e formam uma cadeia, com os mais recentes modificando no todo ou em parte os mais antigos. Quem sabe um dia eu tire o tempo para buscar todos, mas por ora fiquem com dois deles, particularmente importantes:

Decreto original de 1889, em que o Império concede a ferrovia a Teixeira Soares.

Decreto de 1901, em que a República ratifica a concessão, com diversas alterações.

Constituem leitura interessante, mas para os fins deste texto, o decreto de 1901 concede garantia de juros (***) de 6% ao ano sobre o capital investido na construção da ferrovia, até o montante de 30 contos de réis por km, por 30 anos.

O decreto de 1889 expressava esta concessão de outra forma: 6% sobre um capital total máximo de 37 mil contos de réis, provavelmente já considerando o custo aproximado da ferrovia inteira, cujo comprimento esperado era de 1200km ou 1400km.

Portanto, está claro que o governo não "pagou aos estrangeiros" 30 dinheiros por km. Ele garantiu a rentabilidade do capital investido até esse limite, por tempo limitado, e na expectativa que o lucro apurado pela ferrovia seria na prática muito maior que esse, portanto a garantia nunca seria exercida.

Mais: o decreto de 1901 previa que, se por um período o governo tivesse de pagar a garantia de juros, e no período seguinte o lucro anual ultrapassasse 8%, metade do excedente seria devolvido ao governo, até o reembolso completo. Portanto, a garantia de 6% era uma espécie de empréstimo não exigível.

Se o lucro anual ultrapassasse 12%, outras condições do decreto entravam em vigor, como diminuição de tarifas de transporte, gratuidade para transporte de tropas militares e populações colonizadoras, entre outras.

Ao contrário do que costuma dizer, as vantagens concedidas pela concessão não foram necessariamente ultrajantes para a época. Um título da dívida pública do Império pagava 5% ao ano. Ferrovias construídas no Canadá na mesma época receberam concessões de largas faixas de terra assim como aqui.

Tampouco a concessão foi "entregue de bandeja aos americanos". Foi feita a Teixeira Soares, na época (e ainda hoje) considerado um herói nacional por ter logrado construir a ferrovia Curitiba-Paranaguá.

Onde foi que deu errado?

Mas é inegável que a ferrovia Itararé-Uruguai saiu precária, longa e cheia de curvas, o que alimenta o folclore em torno do assunto há mais de um século. Onde foi que a concessão errou?

Assim como os fundadores de startups hodiernos, Teixeira Soares teve de vender a maior fatia de sua concessão a investidores estrangeiros, inicialmente franceses e belgas, depois americanos, para levantar o capital necessário à construção da ferrovia. Soares reteve uma pequena participação, e a liderança técnica.

Mas investidor não pode resistir a meter o bedelho. Na construção do trecho entre Ponta Grossa e Itararé, principalmente na região de Jaguariaíva, os investidores insistiram que cada quilômetro da ferrovia deveria custar no máximo 30 contos, a fim de que 100% do capital fixo estivesse coberto pela garantia de juros, pois foi assim que eles interpretaram o decreto.

Teixeira Soares tentou argumentar, que poder-se-ia remanejar capital de um trecho a outro, a fim de manter o custo médio nos mesmos 30 contos de réis por km, além de resultar numa linha mais curta e com melhores condições técnicas, aumentando seu potencial lucrativo. Mas não conseguiu convencer os donos do ouro, e resignou-se dando à sua própria obra o apelido de "ferrovia de guarda-livros, não de engenheiros".

Em todo caso, a intenção nunca foi garantir 6% ao ano sobre todo o investimento na ferrovia; apenas sobre uma parte. É correto presumir que esses investidores aí pretenderam esfolar o Brasil.

O resultado é que o trecho entre Jaguariaíva e Itararé possuía o dobro da distância em linha reta, além de ser tortuosíssimo, mal-feito, quase sem pontes, cortes, aterros ou viadutos, e nenhum túnel. Os periódicos da época, como "O Malho", faziam a festa.

De maneira geral, todo o trecho paranaense da Itararé-Uruguai é muito ruim, embora menos dramaticamente que em Jaguariaíva. Ainda hoje, na PR-438, acho que na região de Guaraúna, há uma espécie de mirante informal para amantes dos trens, aonde se pode fotografar o trem fazendo inúmeras curvas, como uma serpente, para descer um leve gradiente. Que podia ter sido construído reto, bastava movimentar um punhado de terra.

Figura 1: Paisagem da estrada entre Irati e Ponta Grossa, olhando na direção de Irati.

Via de regra as ferrovias pioneiras eram todas construídas às pressas e com padrões técnicos baixos, porém na intenção de retificá-las quase que em seguida, na medida em que as regiões cortadas por elas se desenvolvessem e as ferrovias lucrassem. A ferrovia Curitiba-Ponta Grossa é um exemplo bem-sucedido, já deve estar no quarto traçado. Porém, a Itararé-Uruguai foi tão mal-feita que acabou sabotando sua própria viabilidade, além de enfrentar duas décadas de economia ruim, devido aos problemas da Primeira República e em seguida com a I Guerra.

A Ferrovia do Contestado, trecho catarinense da Itararé-Uruguai, também foi construída com padrões sofríveis, porém bastante melhores que no trecho paranaense. Nessa época, o dono da concessão já era Percival Farquhar. Além de interpretar a subvenção quilométrica pela média em vez de contabilizar separadamente cada km, Farquhar fez negociações pontuais, aumentando a subvenção em certos trechos para 40 contos de réis, em troca abrindo mão de outros pontos.

Este artigo conta a história de como a concessão trocou de mãos sucessivamente, com direito a rolos e contratos "achados" em arquivos criando obrigações retroativas.

Controle do capital investido

Alguém poderia perguntar a) como o governo controlava se realmente um km de ferrovia teria custado isto ou aquilo, e b) por que o governo aceitou os trechos ferroviários mal construídos, como o de Jaguariaíva, se o decreto de concessão facultava ao governo glosá-los? E como bônus, c) como o governo fiscalizaria que a empresa lucrou menos de 6% ao ano, ou 8%, ou 12%?

O controle do capital investido na ferrovia era complicado. Até o limite de 30 contos de réis por km, os investidores tinham de depositar o dinheiro numa conta vinculada, e o governo liberava o dinheiro aos poucos, conforme orçamentos fossem apresentados e trechos anteriores fossem completados, com comprovantes das despesas feitas.

Mas, como deve ser óbvio, esses orçamentos e despesas foram objetos de fraude. Despesas foram forjadas, inclusive na forma de penduricalhos^Wsalários regiamente pagos aos administradores (Roxo Roiz e o próprio Teixeira Soares foram acusados de se beneficiar desses expedientes).

Na mesma toada, o item (c) parece, em retrospecto, uma previsão romântica do decreto. Se hoje, com o enorme controle que o governo tem sobre a economia, beira o impossível impedir que empresas forjem prejuízos e desviem dinheiro, imagine na época. Ainda mais com todos os incentivos perversos do decreto (e.g. reduzir tarifas se o lucro fosse maior que 12%).

Quanto ao item (b), a história é obscura, mas provavelmente usou-se uma mistura de corrupção de agentes públicos e estratégias de engabelação, como percorrer certos trechos à noite, fazer missas em estações perdidas no meio do mato, a fim de tirar o foco das curvas e da distância excessiva entre lugarejos próximos. Diz-se que o próprio Afonso Pena foi enrolado desse jeito, e mesmo assim ele teria reclamado de quanto foi jogado para lá e para cá pelas curvas durante o sono...

Ademais, o governo tinha pressa, precisava ter um caminho "rápido" para os interiores do sul do Brasil, no contexto da disputa territorial com a Argentina (Questão de Palmas), o que era mais um incentivo perverso para fechar os olhos ao débito técnico.

Concessão de terras devolutas

Outro ponto nevrálgico da concessão foi a doação de terras devolutas ao longo da ferrovia. O decreto de 1889 previa até 30km para cada lado (portanto, 60km de largura). Isto foi reduzido para até 15km logo em seguida à proclamação da República, o que reflete no decreto consolidado de 1901.

Nem toda essa terra era devoluta, havia já propriedades e posses. O decreto estabelecia que o concessionário receberia, na média, 9km para cada lado, ou seja, 18km. Numa ferrovia de 1000km, isso dá 18 mil km quadrados! A terra em si valia muito pouco na época. Seu valor surgiu justamente da passagem da ferrovia, que permitiu a extração de madeira (principal negócio de Farquhar por aqui, até os anos 1940) seguida da venda de lotes limpos a colonos.

A cessão de terras devolutas poderia ter sido um fator de alongamento desnecessário da ferrovia, uma vez que neste caso o benefício parece ser diretamente proporcional à quilometragem. Tenho duas contraditas a isto, embora não ponha a mão no fogo por elas:

a) o comprimento total da Itararé-Uruguai, incluindo o trecho até Passo fundo, não ficou muito diferente do projeto original de Teixeira Soares apresentado em 1887: 1403km.

b) se você considerar que as terras cedidas são as adjacentes à ferrovia, não adianta criar um trajeto sinuoso para pegar mais terras, pois haverá muita sobreposição. Imagine que a ferrovia faça um loop de 360º para aumentar artificialmente seu comprimento. Isto quase não aumenta a terra concedida, pois as terras adjacentes a cada semicírculo se sobrepõem, ou sobrepõem as terras para trás ou para diante.

Seja qual for o critério da concessão, ela foi parar nos tribunais porque depois de descontar todas as posses preexistentes, não sobrou terra suficiente para cumprir a média de 9km de cada lado originalmente prometida.

A concessão de terras não era simplesmente passar a escritura para a ferrovia. Era direito de exploração de recursos naturais como madeira e minas, para posterior distribuição à colonização. Os decretos incentivavam a venda para colonos europeus, novamente motivado pela Questão de Palmas. Terras não provoadas no prazo de 50 anos voltavam ao governo.

Também é líquido e certo que a cessão de terras foi um dos estopins da Guerra do Contestado. A Constituição de 1891 transferiu as terras devolutas aos Estados, que prontamente as distribuíram aos coronéis locais. Porém a ferrovia alegava que a concessão era anterior a 1891, quando a União ainda era dona e tinha o poder de concedê-la.

Os posseiros, a população que de fato e de direito ocupava essas terras, tinham agora duas nêmesis a escorraçá-los para lá e para cá. Essa malta foi engrossada pelos trabalhadores da ferrovia que foram dispensados ao final da obra.

A duplicidade ou triplicidade de títulos de posse foi um fator de atraso no desenvolvimento do meio-oeste catarinense, situação finalmente resolvida pelo INCRA apenas nos anos 1970.

A Ferrovia São Francisco, que corta Santa Catarina no sentido leste-oeste, foi construída por Farquhar mas neste caso a República retirou a concessão de terras devolutas, até porque essa ferrovia obrigava-se a passar por muitas cidades preexistentes. Em troca, Farquhar recebeu subvenção de (6% de) 40 contos de réis por km, em vez de 30.

Notas

(*) Um conto de réis é igual a um milhão de réis, ou mil "mil-réis". Assim como o yen japonês, não possuía centavos ou subdivisões. 1$000 ou "mil-réis", a unidade mais ergonômica para expressar salários e valores de bens, valia aproximadamente US$ 25 de 2025. Portanto a unidade da moeda valia US$ 0,025 ou 12 centavos de real atual.

(**) A notação dos réis é: "Rs." como prefixo, ":" como separador de milhão ou de contos, "$" como separador de milhar ou mil-réis. Não há notação de centavos. Quando elevado, o número de contos usa o separador de milhar usual e.g. 37 mil contos escreve-se como Rs. 37.000:000$000.

(***) Parece estranho usar a palavra "juros" para descrever uma garantia de dividendos sobre o capital, mas mesmo hoje em dia usa-se a expressão "juros sobre capital próprio" (JCP) para pagar aos acionistas um dividendo desirmanado do lucro do exercício.