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Valorização e valoração

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"Que o colono se orgulhe da enxada
e o campeiro se orgulhe do laço
Cada um valorize o que é seu
É assim que se busca espaço"

— Os 3 Xirus

Lembro de uma conversa, há muito tempo atrás, numa mesinha do Delta Café, lá no Shopping Recife, em que discutíamos o livro "Hackers and Painters" do Paul Graham.

Como o Osvaldo (dono da cópia do livro em que a galera tinha dado uma olhada) não estava presente, o consenso da mesa era que o Paul Graham supervalorizava a si mesmo e aos desenvolvedores.

Um dos presentes em particular, com pretensões a chefia e gerência na carreira, deixou bem claro que, para ele, programador era equivalente a peão de fábrica. Fazendo justiça a ele, friso que ninguém tratou de discordar.

Todo mundo sabe que desenvolvedor é um animal esquisito, e muitos de nós tiram proveito das especificidades do trabalho para dar vazão aos defeitos de personalidade (como falta de senso de prioridade e excesso de senso crítico) em vez de tratá-los ou mantê-los sob controle.

Mas, qual é a profissão em que isto não acontece? De que vale esse "realismo científico" ao falar-se da própria profissão?

Hoje, zapeando os canais da antena parabólica, que é pródiga em canais esquisitos como Canal do Boi, Futura, TV Senado e outras aberrações, caí num programa sobre o Poder Judiciário. Uma mulher reclamava prolixamente a respeito de algo que, no meu ponto de vista, era uma bobagem infinitesimal. Definitivamente, o realismo científico tinha passado bem longe dali...

Me ocorreu então que, enquanto nós nos auto-imolamos, o resto das pessoas, de garis a políticos, está valorizando seu trabalho, fazendo valer (até demasiadamente) a importância da sua atividade no mundo.

Muita gente da nossa área vê a profissão de desenvolvedor como um purgatório cujo objetivo final é chegar a um cargo de chefia. Um sujeito como eu, com 34 anos recém-completos e ainda trabalhando como reles programador "é esquisito". Mas, aproveitando a deixa judiciária, muitos advogados não querem ser juízes. Até oficiais de justiça ganham MUITO bem. Por que não se pode ser feliz e bem-sucedido como desenvolvedor?

Se você não se valoriza, ninguém vai fazê-lo por você. O mesmo vale para a profissão que você exerce.

As conseqüências práticas estão aí para todo mundo ver. O teto de salário de um desenvolvedor é muito mais baixo do que advogados, médicos ou pilotos de avião, sem nenhum motivo intrínseco para que isto aconteça. Na verdade, a desvalorização começa já dentro de casa: você participa de uma lista de discussão e a esposa já fica achando que você está paquerando on-line.

É como eu costumava dizer a um colega de trabalho: "se você está feliz, é porque não está trabalhando o suficiente". Naturalmente eu falava isso brincando, mas é a atitude de muitas chefias na nossa área. Eu sempre fui esperto o suficiente para evitar trabalhar em "fábricas de software", mas eu ouço diversas histórias desses ambientes. Naturalmente, tais chefias só se criam onde a "peãozada" tem baixa auto-estima. Se ele tentasse aplicar a mesma tática algures, seriam linchados.

Em resumo, convoco os colegas de profissão a refletir a respeito disso, para que tenhamos nosso lugar ao sol.

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