Site menu Resenha do livro 1824, de Rodrigo Trespach

Resenha do livro 1824, de Rodrigo Trespach

2020.06.26

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

O título do livro é uma óbvia barretada à série de livros de Laurentino Gomes ("1822" et al). A obra trata das primeiras correntes de imigração alemã ao Brasil.

Quando se fala de imigração alemã, ou centro-europeia em geral, o que vem à mente do imaginário nacional é Blumenau e as cidades do entorno. Porém estas são "colônias novas", criadas entre a segunda metade do século XIX e a proclamação da República. Por serem "novas" e coordenadas por gente mais capaz, a começar pelo imperador D. Pedro II, pôde-se evitar os muitos erros cometidos nas "colônias velhas".

O livro trata justamente das colônias velhas, espalhadas por todo o território brasileiro, e que no geral fracassaram; uma das poucas que prosperou é a atual cidade de São Leopoldo/RS. Um século depois, as "colônias velhas" remanescentes forneceram população para colonizar a região do Contestado.

O principal interesse de D. Pedro I em trazer alemães para o Brasil era militar: importar soldados mercenários para suplementar o débil exército local. O início do Império foi uma época tumultuada, com a guerra da independência seguida pela guerra da Cisplatina. Aquele conceito que os imigrantes centro-europeus foram trazidos para mudar a matriz econômica brasileira, "viciada em escravidão" como dizia um notável da época, já era vislumbrado em 1824, mas estava longe de ser um consenso.

Infelizmente, em 1824 tudo era feito à moda do Brasil-colônia: muitas promessas não cumpridas; soldados sem salário por meses a fio; morte por chibatadas a um soldado que tinha cometido o supremo crime de não ajoelhar-se para o bispo por ser protestante. Esses atritos chegaram a fermentar um plano para matar D. Pedro I, que acabou não prosperando.

Do lado das colônias a situação não era muito melhor: mais um tanto de promessas não cumpridas, divisão mal-feita de terras, ladroagem na alocação dos sítios, conflitos com indígenas — cujas terras foram dadas ou vendidas à revelia, ausência de estradas para escoar produção agrícola... Alguns colonos adotaram o modus operandi local e adquiriram escravos, indo de encontro a um objetivo da imigração, que era diluir a importância do latifúndio escravagista. Os relatos das provações dos colonos levaram muitos países germanófonos a proibir seus súditos de emigrar para o Brasil.

Sobre o livro em si: apesar da jogada com o título sugerir uma obra de leitura leve, no estilo do "1822", o texto é denso. Não é um texto divertido de se ler. É uma obra de historiador. De fato esta é a profissão do autor. O assunto também é de nicho, vai interessar a uma pequena parcela da população, seja porque é descendente de imigrantes, seja porque estuda a história brasileira do século XIX.