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Resenha do livro 1889

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2013.12.05

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

"Por que história se tornou um tema popular nos últimos anos? Existem várias respostas possíveis, mas uma delas é seguramente que os brasileiros estão olhando o passado em busca de explicações para o país de hoje."

O escritor Laurentino Gomes deve estar feliz e com certeza surpreso pelo sucesso dos seus livros: "1808" e "1822". Tomara repita o sucesso com "1889" — um livro que, ainda mais que os outros dois, explica muito do Brasil atual. Mais que isso, mostra que os nossos entraves atuais são na verdade seculares.

O objetivo do livro é explicar porque a monarquia caiu tão facilmente em 1889. Mas, para construir o argumento, o autor passa em revista a todo o reinado de Dom Pedro II. O livro torna-se uma fonte boa e agradável de se ler, ainda que resumida pelo escopo, a respeito desse período da história brasileira.

No geral, fica claro que o Brasil esteve sob excelente direção durante a monarquia. A maior prova é a manutenção da unidade territorial, coisa que ninguém mundo afora acreditava ser possível. É notória a personalidade liberal do imperador, pouco dado a perseguições políticas. A liberdade de imprensa do período foi muito mais preservada que nos primeiros cem anos de República.

Como tudo na vida, a monarquia caiu por uma confluência de fatores. Para começo de conversa, apesar da Princesa Isabel ter assinado a Lei Áurea (certamente para livrar o pai do embaraço) ela provavelmente não tinha preparo para ser uma rainha. Era extremamente religiosa, isso num Brasil onde o positivismo ateísta era a filosofia da moda. Havia um medo (legítimo) que a rainha seria teleguiada pelo marido, o francês Conde d'Eu; e pelo Papa, a quem jurou lealdade.

O próprio dom Pedro II nunca reprimiu manifestações republicanas, chegou a freqüentar reuniões da Maçonaria na condição de ouvinte (os primeiros "n" presidentes da República foram maçons). Insinua-se que no fundo o imperador já previa a adoção do sistema republicano, e talvez até planejasse coordenar a transição, se não tivesse ficado cada vez mais doente de 1887 em diante.

Os dois aspectos mais interessantes do livro são a questão da sustentação política e a abolição da escravatura. Na verdade, são inseparáveis.

No livro '1822' fica claro que José Bonifácio, o "patrono da Independência", já era contra a escravidão, mas ela foi mantida por motivos pragmáticos. Leia-se: atender aos interesses dos grandes latifundiários, de cujo apoio o governo dependia para ficar de pé. O problema foi ficando para amanhã, para o ano que vem, para a próxima legislatura, e assim passaram-se 66 anos.

A abolição custou a sair, do mesmíssimo jeito que tanta coisa óbvia ululante continua custando a sair no Brasil de hoje. Apesar de tudo soprar a favor: enorme pressão internacional e doméstica, governantes claramente inclinados a fazer "a coisa certa", revoltas de rua. Mas por algum motivo misterioso a canetada não sai, senão quando já é tarde demais.

A grande nódoa do Império foi a escravidão. Como é de se esperar, a Lei Áurea custou o apoio político dos latifundiários; mas também foi "too little, too late" para granjear apoio de outras fontes, como os fazendeiros de café do oeste paulista ou da elite urbana. Todos já estavam enxergando República como solução inclusive para o problema da escravatura; a abolição só adiou um pouco o momento fatídico.

Outro ingrediente importantíssimo na queda do império foi a "Questão Militar": o conflito entre os militares, que julgavam-se os únicos patriotas "de verdade" por conta da Guerra do Paraguai; e o imperador que buscava diminuir sua importância política a ponto de cogitar dissolver o Exército em favor de uma Guarda Nacional.

Não devemos perder de vista que o 15 de novembro foi um golpe militar, e a República demorou exatos 101 anos para desvencilhar-se totalmente da caserna.

O livro também aborda os primeiros e conturbados anos da República, por si só uma leitura interessante, já que este período é pouco discutido nos livros convencionais de história.

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