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Resenha: Religião para Ateus, de Alain de Botton

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2014.07.25

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Tirei uns dias de férias sem um computador a tiracolo. A última vez que fiz isto deve ter sido há uma década. Foi uma experiência interessante, estar relativamente desplugado e ter de procurar distração de gente normal. É bem verdade que o celular substitui o computador em alguns aspectos de urgência, como e-mails ou consultas eventuais à Web.

Não senti falta do computador, mas a crise de abstinência da leitura foi terrível. O lugar em que estava é muito legal mas carece de uma livraria. Assim, cacei livros nos bazares e revistarias. Quase comprei "50 tons de cinza", no fim comprei "Religão para Ateus", do autor Alain de Botton.

O livro foi um achado. Já conhecia o autor de outro livro, "Ansiedade de Status", outro excelente livro que me foi presenteado pelo Rudá Moura. O autor tem um levíssimo viés de francofilia e anti-protestantismo, mas nada que comprometa.

A tese do livro é que as religiões efetivamente dominam uma "tecnologia": confortar a miséria humana e proporcionar sentido à vida. O avanço do ateísmo vem subtraindo à sociedade estes importantes bálsamos, sem colocar nada equivalente no lugar. O esfarelamento do senso de comunidade já seria uma das conseqüências.

Na opinião do autor, o ateísmo concentra-se excessivamente na questão científica (se Deus existe, se criou o mundo em 7 dias, etc.) e descuida completamente da filosofia subjacente. Ainda que o autor deixe claro ser ateu logo no início do texto, ele considera que o fim das religiões deixa um vácuo.

Alain de Botton também cita a tentativa do Positivismo de criar uma "religião científica" que preencheria este vácuo. Nota interessante: a única igreja positivista que chegou a ser realmente construída, em Paris, foi iniciativa de brasileiros! No final do livro, o autor explora algumas possibilidades interessantes de como uma nova religião poderia ser, etc.

Ainda outro aspecto importante abordado no texto é a intersecção entre religião e arte, sobre como a arte é componente importante para "criar o clima" dentro de um templo.

Sobrou aí uma crítica ao protestantismo, que enxerga idolatria na arte sacra. (A crítica talvez seja meio tendenciosa, porque há sim igrejas protestantes bonitas e a produção musical protestante, a começar por Bach, é bem superior àquela associada ao catolicismo.)

Tirante isto, concordo plenamente com o autor sobre a importância da arte. Você visita um lugarejo e encontra lá uma bela igreja, cujo estilo reflete a origem étnica do povo; que serve como ponto de referência e "colírio". É um objeto que acrescenta muito, é um totem que mostra que a comunidade está viva e bem.

Basta visitar outro lugarejo sem igreja, ou com uma igreja pentecostal metida num galpão alugado ou num prédio de estilo exótico, desirmanado da etnia local, para perceber a diferença.

Também tenho o hábito de reparar em cemitérios nos meus passeios pelo interior, e sempre reparo que em lugarejos melhorzinhos sempre há flores e as lápides estão mantidas. É a prática de uma variante insuspeitada do xintoísmo.

O livro também vem ao encontro de uma outra opinião minha: que religião é "filosofia de almanaque". As pessoas simplesmente precisam de um almanaque filosófico e moral para tocar a vida. Retirar isto das pessoas e dizer "Faça o que quiser!" soa assim para elas: "Vire-se!".

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