Site menu Resenha de livro: Sobre a arte de viver, de Roman Krznaric
e-mail icon
Site menu

Resenha de livro: Sobre a arte de viver, de Roman Krznaric

e-mail icon

2018.01.12

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Estou devendo há meses algumas resenhas para o LVR. Tenho até evitado comprar livros novos para não prevaricar (cedi apenas uma vez, e o Caio Prado Jr. furou a fila). As micro-férias da virada do ano permitiram terminar mais um livro: Sobre a arte de viver.

Mas antes, vou falar de outro tópico que era para ser um post separado mas acabou tendo relação com o conteúdo do livro.

Conforme este artigo, a força aérea estadunidense estava com um problema no início dos anos 1950. A aviação evoluiu muito rápido durante e depois da II Guerra Mundial; o emblemático primeiro voo supersônico ocorreu em 1947. Mas enquanto os aviões e a tecnologia evoluíam rapidamente, o desempenho dos pilotos não estava acompanhando. O número de acidentes e incidentes era cada vez maior.

Procura daqui, procura dali, e no final descobriu-se que o problema era o cockpit. Tudo nele tinha sido desenhado, décadas antes, para o "homem médio": altura do assento, cinto, posição dos instrumentos, distância dos pedais e do manche, etc. Já o "homem médio" foi calculado com base na média das medidas de inúmeros aviadores: altura média, pernas médias, braço médio, mão média, bunda média... acho que deu pra entender.

O que se descobriu então, e que hoje parece o óbvio ululante, é que essa abordagem resultava num cockpit extremamente desconfortável e pouco ergonômico para os aviadores. Assentos automotivos com regulagem de distância e altura, que nos parecem que existem "desde sempre", são resultado desse tipo de pesquisa.

Surpreendente foi a constatação de que o "homem médio", que um dia se supôs que aproximava as medidas de todos, não existia. Nenhum dos milhares de aviadores tinha todas as medidas simultaneamente próximas à média. O cockpit levava em conta dez métricas, mas não foi possível encontrar um "homem médio" nem mesmo escolhendo dentre três métricas quaisquer. Ou seja, ao calcular um cockpit com base no "homem médio", o resultado era um cockpit garantidamente desconfortável para todo mundo.

Ainda mais surpreendente foi a aceitação dessas conclusões por parte da força aérea, e a rápida implementação das melhorias. Instituições militares são conhecidas pela obsessão com homogeneidade, conformidade e uniformidade, onde a "linha média delimita a virtude" (Elio Gaspari). O antídoto para isso é ir à guerra, e nesse aspecto os EUA têm vantagem: sempre estão ou em guerra ou se preparando para a próxima.

Assim como medidas físicas, as "medidas da personalidade" também costumam ser reduzidas a médias, apesar de nem serem facilmente mensuráveis já que não dispomos da mítica Régua de Lesbos. Sabe como é: "homem é assim", "mulher é assado", "peixe só combina com vinho branco".

O livro de Roman Krznaric é, essencialmente, um grand tour de revisão de costumes humanos presentes e passados de diferentes povos. A mensagem geral é: quase tudo aquilo que consideramos normal, e até mesmo o que consideramos antiquado, é na verdade criação surpreendentemente recente. E se achar pouco, costuma ser criação de uma pessoa ou de um pequeno grupo.

O texto vai da divisão de trabalhos domésticos à percepção do tempo à culinária, passando pela forma que o homem vê a natureza (montanhas já foram consideradas feias, comparadas a verrugas, provavelmente por serem empecilhos à agricultura), as diferentes formas de viajar (o "normal" é viajar como turista, mas este é o método mais recente e o mais artificial de se conhecer o mundo), e a importância relativa dos sentidos (desde a invenção da imprensa, a visão ganhou importância em detrimento dos demais, o que deságua em verduras geneticamente modificadas para serem bonitas, embora insossas).

No mínimo absoluto, o livro proporciona uma dose cavalar de cultura geral. O autor tem muita cultura e é muito viajado.

Fora isso, um ponto alto do livro é a ênfase direta e indireta na empatia. No front direto, o texto cita casos de diversas pessoas notórias que se disfarçaram de trabalhadores braçais ou mesmo mendigos para descobrir in loco como era a vida no andar de baixo. No front indireto, sugere-se ao leitor fazer algum tipo de trabalho "de verdade", artesanal, como fabricar cerâmicas ou cadeiras, ou mesmo cozinhar. Pode não dar dinheiro (às vezes, até pode) mas dá a noção do grande empenho necessário em criar alguma coisa — algo fácil de esquecer para quem é da classe média e ganha a vida basicamente movendo papéis.

O texto tem alguns flashes SJW, white guilt e anti-capitalistas de homem-beta-de-país-desenvolvido. Nada que desqualifique o livro, são doses suportáveis. Também há sobretons de Olavo de Carvalho e Alain de Botton quando romantiza a vida medieval.

Veredito: leitura altamente recomendada, e faz um bom presente.

e-mail icon