Site menu Bitcoin e a reinvenção da roda
Site menu

Bitcoin e a reinvenção da roda

2019.09.05

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Para mim, pessoalmente, o Bitcoin teve uma grande serventia: me fez parar de reclamar das tarifas bancárias. Antes, me sentia literalmente roubado quando cobravam aquela taxinha de manutenção de conta ou a anuidade do cartão de crédito. Hoje acho até barato.

Mas como isso, se o Bitcoin veio justamente nos libertar das garras do sistema bancário anglo-sionista (*) que domina a galáxia?

Explico: quem acompanha de perto as criptomoedas já viu os efeitos colaterais de um sistema monetário descentralizado, deflacionário, sem possibilidade de estorno e sem ter a quem recorrer em caso de erro ou fraude. Os exchanges que fecham de um dia pro outro e somem com os depósitos, os roubos de wallets, o fracasso da promessa de anonimato, a volatilidade, a resistência extrema dos mineradores em adotar mudanças que viabilizariam o Bitcoin no varejo.

Não me levem a mal, eu continuo achando o Bitcoin tecnicamente incrível, na minha opinião foi o último grande triunfo da ciência da computação. Mas eu ainda prefiro deixar meu dinheiro sob a guarda de uma entidade que é auditada por terceiros, em que eu ainda possa sacar meu dinheiro caso esqueça a senha do cartão, em que há inúmeras instâncias recursais para o caso de eu ser vítima de fraude.

Todas estas salvaguardas também podem ser, e provavelmente serão, implementadas num sistema bancário baseado em Bitcoin, mas hipotetizo que o custo de sustentar essas camadas de segurança será comparável ao cobrado hoje pelos bancos convencionais.

Na verdade, todo esse processo evolutivo, repleto de dores de crescimento, já foi percorrido pelo sistema bancário convencional, que também começou com duas ideias muito simples: a) usar um metal precioso como reserva de valor, e b) confiar a guarda desse metal justamente aos ourives.

Não ousaria dizer que o Bitcoin é inútil, ou que não tem futuro. Não tenho a menor ideia de como o Bitcoin vai se tornar. E sim, eu prefiro viver num mundo onde existam bancos convencionais **e** criptomoedas para usar uns ou outros conforme a conveniência. Certamente o Bitcoin é a salvação da lavoura para muitos venezuelanos e argentinos... Assim como existe o espaço para os paraísos fiscais. Se não existisse, já teriam sido extintos há muito.

Mas não deixa de ser curioso como as coisas no mundo virtual seguem um fluxo de criação e evolução dolorosa semelhante às coisas do mundo real, exceto talvez por uma velocidade maior. Também é notável a arrogância com que os "Jovens Turcos" encaram o "velho sistema", levando fatalmente ao aprendizado do jeito difícil.

Algo semelhante acontece com os "mercados virtuais", onde um certo número de avaliações negativas (não raro fraudulentas) ou o bip de um algoritmo obscuro pode decretar a morte do seu negócio de um dia para o outro. Isso tem acontecido aos montes todo dia. É o humilde vendedor online de bugigangas que de repente é suspenso do marketplace sem explicação e sem recurso. É o vlogger profissional cujos videos misteriosamente deixam de ser recomendados, zerando sua audiência. E por aí vai.

O status quo atual, onde você pode ser suspenso de um marketplace talvez sem nunca descobrir qual política violou, é totalmente inaceitável. Mas um dia isso vai se consertar. Não antes de desgraçar a vida de muita gente, mas vai. No fim das contas, terá de haver um conjunto de regras claras, transparência, e instâncias de recurso para tratar os inevitáveis erros. Numa escala global, o mundo virtual vai ter de reinventar o Estado de Direito, com separação de poderes, Judiciário independente e todos essas órgãos sociais que hoje a gente considera ineficientes, desnecessários e caros.

Talvez você já tenha ouvido falar de experiências malsucedidas de inteligência artificial e machine learning (ML). Tipo o computador que rejeita um empréstimo por causa do CEP do solicitante, ou porque o primeiro nome do sujeito é relacionado a determinada etnia que por sua vez é mais inadimplente. Ou o robô que "aprende" a twitar frases racistas depois de "ler" o Twitter por alguns minutos. São conseqüências naturais do excesso de fé em técnicas de ML, que em última instância é mera detecção de padronagens. ML não pode criar padronagens novas, nem perturbar as padronagens existentes de forma inteligente. Só pode reforçar as padronagens que já existem.

Não rejeito de plano as técnicas de inteligência artificial. São ferramentas, multiplicadoras do esforço humano. Assim como no caso do Bitcoin, me preocupa a "travessia do deserto", o excesso de fé no automatismo que vai levar, ou já está levando, um monte de gente a viver "abaixo do radar", sem chamar a atenção, para não se destacar da padronagem e tomar strike. A China, com seu sistema de "Crédito Social", equiparando a cidadania à quantidade de estrelinhas num marketplace, é o grande campo de provas. Quem viver verá.

(*) Termo usado por um dos meus amigos esquerdistas por estes dias. Como nossa "esquerda" é na verdade getulista, portanto fascista, o componente antissemita é de rigueur.