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Resenha: At the Devil's table / En la boca del lobo

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2015.05.22

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Uma agradável surpresa do Netflix foi a novela colombiana "En la boca del lobo", que conta a história de Jorge Salcedo, ex-membro do Cartel de Cali cujas delações foram um duro golpe para a organização criminosa.

Confesso que fiquei vidrado na história. Fui dormir algumas vezes de madrugada no afã de assistir mais capítulos. A maratona durou uma semana, e logo em seguida comprei o livro no qual a novela se baseou. A curiosidade também me levou a fazer mais pesquisas sobre a Colômbia, um país vizinho do Brasil, mas sobre o qual o brasileiro médio não sabe quase nada.

Enredo

Jorge Salcedo era engenheiro, com uma breve passagem pelo Exército Colombiano, onde foi treinado como oficial de inteligência e participou de uma operação irregular contra a guerrilha de esquerda. Para esta operação foram contratados mercenários ingleses. Tendo estudado nos EUA, fluente em inglês, Jorge era o oficial de ligação com os mercenários.

Estas credenciais interessaram ao Cartel de Cali, que ofereceu um trabalho a Jorge: matar Pablo Escobar, chefe do Cartel de Medellín, num ataque paramilitar. Escobar tinha granjeado o ódio das classes média e alta da Colômbia por conta da violência explícita que praticava. Salcedo também tinha um amigo Ministro da Justiça que foi morto por Escobar num atentado. Por conta disso, aceitou a incumbência.

A operação original não foi bem-sucedida devido à queda de um helicóptero a caminho do objetivo. Salcedo tratou então de aprimorar o trabalho de inteligência do Cartel de Cali, tanto para planejar um novo ataque ao chefe do Cartel de Medellín, como para defender os chefes de Cali de atentados retaliatórios. Quem acabou pegando Escobar foi a própria polícia colombiana.

Com Escobar morto, Jorge Salcedo descobriu um axioma das organizações criminosas: só se pode sair delas "na horizontal". Jorge envolveu-se mais e mais nas operações ilegais do cartel, até que foi encarregado de matar o contador do cartel, Guillermo Palomari. O contador era chileno, portanto extraditável para os EUA, e poderia abrir a boca em troca de pena mais leve. Todos os membros não-colombianos do Cartel estavam marcados para eliminação. Suas famílias, idem.

Aborrecido por não poder sair do cartel, desiludido pelos atos violentíssimos perpetrados pela organização (a única diferença real em relação ao Cartel de Medellín era a discrição junto ao grande público) e agora coagido a matar, Jorge Salcedo concluiu que teria de destruir o cartel para livrar-se dele.

Segundo uma "estratégia do tripé", Salcedo delatou Miguel Rodriguez Orejuela, o "chefe dos chefes" do cartel; delatou a localização de documentos comprometedores do grupo criminoso; e viabilizou a fuga do contador Pallomari para os EUA. Salvar o contador era importante pois seu testemunho daria significado aos documentos, muitos dos quais escritos em código.

Além da "estratégia do tripé", Salcedo precisou manter até o fim uma fachada de fiel colaborador do cartel, em primeiro lugar para saber o paradeiro do chefão a fim de delatá-lo, e num segundo momento para ter tempo de planejar a fuga. Foi levado pela DEA para os EUA e entrou no programa de proteção a testemunhas. Seu nome atual, paradeiro e atividades são secretos.

Livro

Assisti à novela primeiro, porém o livro é mais fiel aos fatos reais, por isso vou falar dele primeiro. O título em inglês é "At the Devil's table", e foi escrito pelo jornalista William Rempel. A versão em espanhol brande o título "En la boca del lobo".

Jorge Salcedo presume até hoje ser um homem com a cabeça a prêmio, e não descuida da própria segurança. Os contatos com o jornalista são espaçados por meses a fio, e ocorrem sempre por telefone, ou pessoalmente numa corte federal. Obter informação suficiente para fechar o livro custou quase uma década.

O livro conta inúmeros episódios interessantíssimos, alguns muito violentos, outros cômicos. Só lendo pra saber!

Novela

A novela de 80 capítulos, baseada no livro, foi produzida pela TV colombiana. A produção foi muito bem-feita, a qualidade aproxima-se de um seriado americano. Chamo de "novela" simplesmente por ter muitos capítulos. Um documentário não teria mais do que quatro ou cinco episódios.

Naturalmente, para encher 80 horas de gravação, é preciso dar uma "novelizada" nas coisas. Existem alguns desvios da história, bem como dramatizações e romances que não são reais ou pelo menos não constam no livro original.

A preparação da fuga de Jorge Salcedo, certamente a parte mais angustiante da novela, foi dramatizada de forma muito mais espetacular do que a realidade. Mas a novela foi fiel ao "espírito original" da história: Jorge estava apenas alguns minutos à frente do assassino que estava a cargo de eliminá-lo.

Os poderosos chefões

O Cartel de Cali era tratado com certa leniência, tanto pelas autoridades como pela sociedade colombiana, pois quase nunca recorria à violência explícita. A primeira linha de ação do cartel era corrupção e propina, tendo no bolso inúmeros políticos, além de militares e policiais de alta patente. O cartel ajudou a polícia na perseguição a Escobar, tanto com dinheiro quanto na inteligência.

Os chefões se consideravam esteios da sociedade dentro de Cali, e agiam como tal. Os filhos eram mantidos longe do negócio da droga, estudavam em boas universidades e casavam na alta sociedade. Apesar de criminosos, os irmãos Rodriguez Orejuela eram extremamente "família".

O cartel de Cali oferecia "participação" em carregamentos de cocaína para pessoas comuns da sociedade, amigos, conhecidos, etc. O "investidor" pagava o equivalente aos custos de produção e transporte de alguns quilos de droga, obtendo assim uma "cota" dentro de um carregamento que podia pesar toneladas. Se lograsse chegar ao destino, rendia lucros de até mil vezes aos "cotistas".

Com este esquema, o cartel conseguia duas coisas: cooptar inúmeras pessoas de forma barata e efetiva, e diluir o próprio risco.

O cartel de Cali tinha obsessão pela lavagem de dinheiro, e investiu muito na cidade de Cali. Em determinado momento, 40% da construção civil de Cali era de alguma forma financiada por dinheiro do narcotráfico.

Organização criminosa

A operação do cartel de Cali enquanto organização criminosa não é muito diferente do que se lê sobre a Máfia italiana. Uma mistura de dinheiro fácil e background cultural.

A instituição da família é muito prezada neste tipo de organização. Os membros fazem questão de frequentar as casas uns dos outros, etc. Isto serve num primeiro momento para criar laços de amizade, afeto e lealdade. Num segundo momento, para fazer qualquer potencial traidor pensar duas vezes. Num terceiro momento, para "justificar" atos violentos contra pessoas inocentes, que por acaso tinham parentesco com algum traidor, ou era meramente suspeito de traição.

Apesar do crime organizado ser movido a dinheiro, claramente o dinheiro não é fator coesivo suficiente. Olhando de um ponto de vista bem restrito, deixando de lado as questões morais por um instante, a análise de como os chefões da droga aliciavam e conduziam seus subordinados é uma aula magna de psicologia.

As figuras mais carismáticas do livro "At the Devil's table" são os sicarios, assassinos a soldo contratados pelo cartel. Eram como samurais, absolutamente leais ao chefão de cartel ao qual estavam ligados, e apenas deste último recebia ordens (cada chefão tinha seu próprio bando de "soldados" e assassinos).

Sociedade colombiana

A Colômbia não tornou-se um país violento por causa das drogas. O problema é mais antigo. Entre 1948 e 1958, houve o período denominado "La Violencia", uma guerra civil travada entre os partidos Liberal e Conservador, por motivos futilíssimos, com saldo de 300 mil mortos. (Algo como se a briga PT x PSDB que a gente vê no Facebook se materializasse no mundo real.)

Um dos "benchmarks" de falta de respeito aos direitos humanos é o chamado deslocamento forçado de populações. A Colômbia é prata ou bronze mundial nesta métrica: 6 milhões de pessoas (8% da população) foram obrigadas a mudar-se, por diversos motivos: indígenas cujas terras foram subtraídas; gente fugindo da guerrilha; pequenos agricultores expulsos pelo agronegócio numa espécie de reforma agrária às avessas realizada nos anos 60; fuga da violência do tráfico; e por aí vai.

Deste processo emergiram as guerrilhas de esquerda, como M-19 e FARC, e também os paramilitares de direita, que apesar da pouca cobertura jornalística e da leniência do Exército colombiano, são um problema tão grande ou maior que as FARC. Em determinados momentos, 40% do território do país estavam fora do controle do governo central!

A geografia colombiana dá sua colaboração para o estado de coisas. A Colômbia é cortada por nada menos que três cordilheiras de montanhas, pertencentes aos Andes. (Cali está no vale do Rio Cauca, entre as cordilheiras oriental e central.) O país é banhado tanto pelo Atlântico quanto pelo Pacífico; a Colômbia é a fronteira entre América do Sul e América Central.

Você tem climas caribenho, tropical, de selva amazônica, montanhês... é uma diversidade enorme que imprime um caráter muito particular a cada departamento da Colômbia, e diminui o sentimento de unidade nacional. A presença do Estado também varia enormemente conforme o local, e é compreensivelmente mais fraca nas áreas montanhosas, e nula na selva amazônica, onde as FARC grassam.

As drogas proporcionam um dinheiro fácil que interessa a muita gente, em particular a grupos conflagrados como FARC e paramilitares. A Colômbia parece ser um país com clima particularmente adequado para cultivo de drogas, legais ou ilegais. O país é fornecedor de maconha, opióides, cocaína; o café colombiano é considerado o melhor do mundo.

A atitude local em relação à cocaína é muito ambígua, não só porque rende muito dinheiro, mas porque a coca é uma planta nativa da região. Os nativos fazem uso benigno da mesma, e parte do cultivo comercial tem usos "sérios" — extração de aromatizantes e da própria cocaína para uso médico, como anestésico de escolha para cirurgia do canal lacrimal.

A solução mais provável para o problema do tráfico de drogas é simplesmente a liberação das drogas. Pablo Escobar só tornou-se o sétimo homem mais rico do mundo porque os viciados aceitavam pagar 100 dólares por grama de cocaína, e aceitavam pagar porque era escassa.

William Rodriguez Abadía

Um personagem intrigante desta história toda é William, filho mais velho de Miguel Rodriguez, o "capo dos capos". Diferente de Salcedo, William Rodriguez tem paradeiro conhecido. Deu várias entrevistas (encontráveis no YouTube) depois que saiu da cadeia e retomou sua vida em Miami como empresário de construção. Isto permite cotejar as versões e visões que cada participante tem da história. Ele também escreveu um livro sobre o cartel de Cali em 2014, que pretendo comprar em breve.

No livro "At the Devil's table", William não é tratado de forma particularmente simpática, afinal de contas ordenou a execução de Jorge Salcedo depois da prisão do pai. Na novela, o rapaz é pintado de forma extremamente desfavorável, como um playboyzinho microcéfalo e sedento de sangue.

Nos vídeos das entrevistas, o William do mundo real causa uma impressão infinitamente melhor. Fala muito bem e não foge de nenhuma pergunta. A maior parte das entrevistas gira em torno da corrupção política, em particular sobre como o presidente Samper foi eleito com ajuda do dinheiro do cartel, um episódio ainda entalado na garganta dos colombianos.

William confirma que assumiu o comando do cartel de Cali depois da prisão do pai, mas alega ter controlado apenas a parte "política" — leia-se propinas. Gostando de sangue ou não, ele provou do próprio quando sofreu um atentado e quase morreu, meses depois da fuga de Salcedo. Foi extraditado em 2006, colaborou com as investigações, entregou ativos da família e foi solto em 2010.

A respeito do livro "At the Devil's table", William alega que o conteúdo não é 100% correto. Ele considera que Salcedo fez simplesmente um bom negócio, evitando uma futura extradição e ainda recebendo uma polpuda recompensa. William não chega a usar a palavra "traidor", decerto porque, ironicamente, ele mesmo teve de usar o expediente de denunciar o pai e o tio nos EUA para colocar a vida nos eixos. Também não considera que Salcedo foi o homem que derrubou sozinho o cartel; sua visão é que o cartel caiu por uma seqüência inexorável de eventos.

Outra discordância é a respeito da ordem de matar o contador Pallomari. William sustenta que esta ordem não foi dada; que o contador escondia-se apenas das autoridades, e estava em local conhecido do cartel, trabalhando para o cartel. (O livro diz que Pallomari escondia-se de todos pois sabia que estava com a cabeça a prêmio, e trocava de esconderijo freqüentemente.)

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