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Resenha: A Doutrina de Buda, de Bukkyo Dendo Kyokai

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2017.09.11

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Banzan caminhava por um mercado quando ouviu uma conversa entre o açougueiro e seu cliente.
"Dê-me o melhor pedaço de carne que tiver", disse o cliente.
"Tudo na minha loja é o melhor", replicou o açougueiro. "Você não vai encontrar aqui nenhum pedaço de carne que não seja o melhor."
Com estas palavras, Banzan tornou-se iluminado.

Já conhecia pequenos pedaços da doutrina budista, principalmente as "parábolas" ou koans como o supracitado, que não fazem parte do livro (encontrei-os aqui) mas remetem muito ao método do livro: usar parábolas o tempo todo, historietas não raro bobas e inverossímeis, mas que ajudam a digerir o texto e fixar a mensagem.

O budismo não é um só, ele tem sabores conforme o lugar em que é praticado (indiano, chinês, japonês, e até mesmo uma versão ocidentalizada). Por outro lado, o budismo tem um alicerce claro naquilo que nós ocidentais chamamos de "religiões orientais" ou "cultura oriental", com ênfase em iluminação progressiva em vez de salvação instantânea; e a crença generalizada em reencarnação.

O budista busca a iluminação. Para o budista, o "mal", que é aquilo que se interpõe no caminho da iluminação, é a escravidão do desejo. A alma reencarna enquanto permanecer escrava do desejo. Uma vez atingida a Iluminação, o ciclo cessa. Assim como Marx dizia que o comunismo pararia o motor da História, a iluminação para o "motor" da existência individual. O budismo faz uma distinção clara entre "alma" e mente, deixando claro que nós pensamos mecanicamente, pois o cérebro é material. A alma existe num estado atemporal, num outro plano. (Isto contradiz Descartes?)

Apesar disso, o budista não deve encarar a existência como penitência ou provação (que é a forma mais comum do ocidental traduzir karma). É uma oportunidade de chegar mais perto da Iluminação. Mas o budista deve mirar longe; assim como as circunstâncias da existência atual devem-se ao que se fez nas anteriores, os atos de hoje podem ter efeitos apenas nas próximas reencarnações.

O budismo não dá ênfase a um Deus, nem a um profeta em particular. Buda é apenas o nome de uma pessoa que chegou à Iluminação, de cujos ensinamentos foram documentados. "Tornar-se um Buda" é apenas figura de linguagem.

Da bondade do Iluminado, de vez em quando pessoas mais iluminadas aparecem por aí, para tentar guiar os homens, e o budista deve sempre procurar aprender, onde quer que vá, com quem quer que esteja, nunca julgando seu próximo com muita pressa, pois Buda nem sempre se manifesta como um Buda. Às vezes (...) aparece, também, em um bordel ou numa casa de jogo. (pg. 37)

O budismo dá grande ênfase ao equilíbrio, ao "caminho do meio". O budista não deve ser um asceta nem um hedonista. Nem ser um fatalista, pois nem Deus nem o acaso decidem todas as coisas. Nem achar que o mundo, por ser material e impuro, pode ser completamente desconsiderado. Neste ponto o budismo traça uma linha semelhante à que o cristianismo primitivo traçou para distinguir-se do gnosticismo.

Tendo lido este texto introdutório sobre o budismo, fica claro que o kardecismo emprestou muitos conceitos das religiões orientais. É considerada uma excentricidade local por sincretizar com o catolicismo, algo de que muita gente se maravilha ou se ressente, mas no panorama mundial é uma religião "bem-comportada" até.

Do ponto de vista de um cristão, muito do que li no livro remeteu-me aos Provérbios de Salomão, e é claro ao evangelho. Pessoalmente, compartilho da crença budista que Jesus Cristo não foi o único salvador que baixou por aqui; acredito que vários deles apareceram, em épocas e civilizações diferentes, sempre que a humanidade precisou de um empurrãozinho. Para mim e para o budismo é uma conseqüência natural da transpiração do amor infinito de Deus.

(Estou há dez anos pensando em escrever um texto sobre minhas crenças particulares, mas sempre tenho postergado isso por diversos pretextos. Prometo que a espera acabará logo.)

Por outro lado, pouquíssima "bobagem" pode ser encontrada n'A Doutrina de Buda. Há uma única menção besta sobre a dificuldade relativa maior para as mulheres atingirem a Iluminação, embora em outra parte o texto deixe claro que mulheres são igualmente capazes de buscá-la, e obviamente qualquer mulher com que você cruze na rua pode ser Iluminada.

O cristianismo faria bem em dar uma "limpada" na Bíblia, editando uma versão reduzida, tipo aquela que os Gideões distribuem em hoteis e escolas, removendo por exemplo as bobagens que São Paulo escreveu em I Coríntios, que não refletem em nada a bondade de Cristo. E já que falamos de cristianismo, lá vai mais um koan:

Um estudante universitário, numa visita a Gasan, perguntou-lhe: "Você já leu a Bíblia cristã?"
"Não, leia-a para mim", disse Gasan.

O estudante abriu a Bíblia e leu em Mateus: "Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles... Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo.

Gasan disse: "Quem quer que tenha pronunciado estas palavras, eu considero um homem iluminado."

O estudante continuou lendo: "Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e àquele que bate, a porta será aberta."

Gasan comentou: Isto foi excelente. Quem disse isso não está longe de ser um Buda.

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