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Resenha: Formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado Jr.

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2017.12.27

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

É como sempre se diz a quem pergunta como obter cultura e conhecimento de verdade: leia os clássicos, leia os clássicos, leia os clássicos... Em se tratando de história do Brasil, há alguns trabalhos reconhecidamente seminais, como "Os Sertões" de Euclides da Cunha, "Trem de Ferro" de Nilson Thomé. E também o "Formação do Brasil Contemporâneo" de Caio Prado Jr.

Se você tem alguma lembrança das aulas de história do seu tempo de escola, este livro vai fazer soar sininhos dentro da sua cabeça o tempo todo. Tudo aquilo que você aprendeu em doses espaçadas e diluídas (e a professora cobrou na prova na base da decoreba) você encontra na forma pura e concentrada neste livro.

Não é um livro muito agradável de ler, tanto pelo estilo pesado, "socado de letrinhas" (embora muito bem escrito) como principalmente pela desgraça generalizada que foi o período colonial deste nosso país. Não só foi extrativismo predatório para atender unicamente aos interesses da metrópole portuguesa; foi extrativismo levado a cabo da forma mais obtusa e preguiçosa possível. Explica muito da nossa situação atual.

Mas acho que essa inevitabilidade da nossa desgraça em função do periodo colonial deve ser encarada com uma pitada de precaução. Primeiro, porque não faz bem para nossa auto-estima enquanto brasileiros. Segundo, porque não acredito em inevitabilidades, nessa cadeia inexorável de causas e conseqüências que os historiadores gostam de acreditar. (Interpretações mais modernas da história mundial cuidam de levar em conta evolução tecnológica e problemas ambientais.) Terceiro, porque a maioria, senão a totalidade, dos países tem sua cota de desgraças passadas.

Mas não deixa de ser interessante constatar como limões podem virar limonadas e vice-versa. Por exemplo, poucos portugueses vieram para cá a princípio, porque a vida era razoavelmente boa na metrópole; os que vieram, vieram na intenção de obter um lucro fácil e rápido, e nenhuma vontade de pegar no pesado. (Uma exceção foi a colonização açoriana, composta de famílias inteiras porque faltava espaço e sobrava gente nas ilhas dos Açores.) Já nos EUA e Canadá, a colonização foi majoritariamente de povoamento por uma causa prosaica: nas respectivas metrópoles, havia superpopulação e sangue nas ruas por conta de rixas religiosas.

Foi um "abrolhos" a constatação de que a população açoriana aqui de Santa Catarina, que nós descendentes de alemães tendemos a olhar "de cima para baixo", foi o alicerce de uma diferenciação positiva.

Escravidão

A preleção sobre a escravidão foi, para mim, a melhor parte do livro. Descrita como um raio em dia claro em termos históricos, pois era uma prática extinta no Ocidente desde o fim da Antiguidade.

A escravidão produziu tamanha chaga no Brasil por dois motivos básicos.

Primeiro, porque foi prática de interesse estritamente comercial, no contexto da mentalidade de imigrar-lucrar rápido-emigrar que moveu os poucos colonizadores brancos. Para viabilizar este modus operandi, a humanidade do escravo foi pura e simplesmente negada, e qualquer cultura que o escravo poderia ter (e de que o mestre poderia até ter tirado proveito) foi desprezada e aniquilada. Já a escravidão do mundo antigo era de natureza diferente: era fácil virar escravo, seja por dívida ou por fazer parte de um povo conquistado. Mas, sendo um mecanismo aceito como "válido" por todos, não havia necessidade de desumanizar o escravizado para submetê-lo, e a acreação simbiótica da cultura e dos costumes fazia parte do pacote. Também costumava haver provisões legais para sair da condição de escravo, como por exemplo em Deuteronômio 15:12: Quando teu irmão hebreu ou irmã hebréia se vender a ti, seis anos te servirá, mas no sétimo ano o deixarás ir livre. E, quando o deixares ir livre, não o despedirás vazio. Liberalmente o fornecerás do teu rebanho. Roma elevou esses mecanismos à perfeição, absorvendo a cultura dos gregos e concedendo cidadania romana a povos que conquistavam. Citando novamente a Bíblia, a condição de cidadão romano deu muita liberdade de movimento a São Paulo (Atos 22:28-29).

Segundo, devido à diferença de cor. Por uma infeliz coincidência, a etnia de escravos e senhores tornava-os facilmente distinguíveis, facilitando assim sua perseguição e atribuição de condição não-humana; e num segundo momento a sua discriminação e a perpetuação de estereótipos. É óbvio que isso também podia acontecer no mundo antigo, mas não era um critério tão "seguro". Imagine a multiplicidade de povos conquistados por Roma, de bárbaros do norte da Europa até povos do norte da África e do Oriente Médio.

Também foi surpreendente descobrir que o tratamento dispensado aos indígenas sempre foi ambíguo, como aliás permanece até os dias de hoje. Havia diversas correntes de pensamento entre os portugueses; alguns defendiam que os índios fossem simplesmente escravizados, outros defendiam sua aniquilação. Porém muitos defendiam que fossem integrados à população devido à falta generalizada de gente. Nesta corrente, havia subdivisões entre os que pregavam a migração forçada para as "cidades", e outros que achavam melhor deixar os índios com seu próprio modo de vida. No meio dessa sopa, havia os jesuítas e suas missões.

Em alguns casos, a metrópole ordenou que certas tribos indígenas, principalmente nas regiões norte e oeste, fossem deixadas em paz, pois contavam como "população portuguesa" para fins de delimitação de território. Se fossem exterminados ou deslocados, deixariam a pista livre para os espanhóis. Deixadas por sua conta, tinham inclusive valor militar, fazendo frente a qualquer invasão vinda do oeste. Disto concluímos que, além dos índios serem os donos originais de grande parte do Brasil, ainda por cima ajudaram a manter sua integridade territorial!

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