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Canetinhas

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2016.06.04

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Dilbert entrevistando engenheiro candidato a emprego. Créditos: DILBERT.COM

Um aspecto da subcultura nerd é o gosto por canetas, talvez por instrumentos de escrita em geral. Do Dilbert até o Hacker's Dictionary, o estereótipo do nerd ou do engenheiro inclui um bolso de colete cheio de canetas coloridas.

Esse gosto contrasta com a também tradicional "guerra" dos nerds com a caligrafia. Eu sou de um tempo que se ficava de recuperação na escola por letra feia; sempre ganhava um caderno de caligrafia para preencher depois das provas finais, e é claro que não adiantou nada. De certa forma ansiei pelos tempos atuais, onde escrita cursiva é tratada como algo "nice to have" porém obsoleta até na escola primária do meu filho.

Exatamente como o Hacker's Dictionary prescreve ao descrever o estereótipo do hacker, uso uma mistura de letras de forma e cursivas ao escrever, para que o resultado seja minimamente legível. Da última vez que tentei preencher um cheque com letra 100% cursiva, inutilizei 3 folhas.

Talvez por causa da falta de técnica, por pegar errado na caneta, etc. ou mesmo pela tendinite que sempre está rondando quem usa o teclado como ferramenta de trabalho, sinto dor na mão depois de escrever poucas palavras com caneta esferográfica normal, daquelas que escrevem "pesado". Na época do primário, a professora prescreveu aquela caneta Bic escrita fina para melhorar a caligrafia — e a tarefa tornou-se ainda mais desagradável. Aprendi a gostar de canetas que deslizam no papel, sem resistência. Com elas, a letra ainda sai feia, porém têm um mínimo de "estilo".

A fonte `epx-sans`

Caneta 100% normal, aqui, só aquelas de brinde, que a gente conserva por pena de jogar fora, e vez por outra são úteis por conta da tinta muito seca e resistente à água. As poucas esferográficas compradas são gel, que uso quase exclusivamente para assinar documentos. Aliás, eu nem preciso comprá-las: meu pai me dá uma agenda e uma caneta gel a cada Natal. Como eu as uso pouco, o estoque está sempre fornido, mesmo com a eventual perda quando alguém pega uma caneta pra fazer a lista do supermercado e ela acaba na gaveta de talheres, para ser só encontrada na próxima mudança.

Falando em pai, uma das minhas diversões era fuçar o material de escritório do velho. Ele nasceu para ser burocrata, sempre fez questão de possuir um escritório bem equipado em casa, bem como arquivar todo tipo de papel, inclusive recortes de jornal e edições particularmente importantes, que aliás eu deveria garimpar. Logo descobri que gostava das canetas hidrocor, ou de ponta de feltro. Na época só havia a "Bic Ponta Porosa", que acabava muuuuuito rápido e era certamente muito cara. Essas canetas branquinhas e hexagonais, com tampa na cor da tinta, em estojos de 5 ou 10 cores, não existem mais nesse formato.

As canetinhas Bic Ponta Porosa, objeto de desejo na adolescência. A caneta azul-clara, cuja cor não está 100% fiel na foto, é minha predileta desde que me lembro por gente. Fonte da foto: https://plus.google.com/116257116971704634823/posts/JgMjagRhJNN e possivelmente Pinterest.

Também descobri minha cor predileta entre elas: o azul-esverdeado, que aliás é uma cor muito popular entre nerds, e muitos aplicativos e sistemas de fato adotam o azul-céu ou azul-esverdeado como cor principal. Vide a cor-tema do Skype (na real eu gosto de um tom ainda mais esverdeado e menos saturado — vide a cor da barra de título do meu site).

Em duas empresas em que trabalhei nos anos 1990, a caneta padrão era a Paper-Mate Futura, hoje chamada Flair. O pessoal de chão-de-fábrica usava para anotações e qualquer um podia pegar no almoxarifado, apesar de não serem muito baratas. As Paper-Mate escrita fina também eram (são) muito boas e duram muito tempo. Seja uma ou outra, você compra uma dúzia e está servido por vários anos. O mesmo vale para hidrocores de outras marcas boas como Stabilo, que são mega-caras mas tenho algumas aqui há mais de uma década (certamente esperando "morrer" na mão do meu filho pequeno, que também já descobriu que as canetinhas do pai são "melhores" que as dele, por proibidas).

Apesar da minha caligrafia ruim e da profissão, gosto de tomar notas e até esses dias usava uma agenda de papel. Estou usando agenda no computador por um único motivo: tenho inúmeros compromissos recorrentes, como pagar uma certa conta todo mês ou verificar atualizações do servidor toda semana, que naturalmente não recorrem automaticamente numa agenda de papel.

Gosto de canetas hidrocor porque obviamente não exigem pressão sobre o papel para funcionar, e a variedade de cores sempre é divertida. Mas boa mesmo é a caneta-tinteiro. Por quê? Porque o atrito sobre o papel é bem menor, afinal é uma ponta de metal polido, lubrificada continuamente por um filme de tinta, em vez de uma ponta de feltro que esfrega no papel. A suavidade de uma caneta bem regulada, cheia de tinta de boa qualidade, é insuperável. Também é uma ferramenta ecologicamente correta, porque um vidro de tinta atende uma década e uma caneta pode durar uma vida inteira.

Meu problema com canetas-tinteiro é o lado desastrado: já ganhei ou comprei uma meia dúzia delas, e todas acabaram destruídas. O espectro de um derramamento de tinta é sempre assustador. Como canetas e tintas não são baratas, cada acidente desencoraja novas compras por um tempo, e nega o argumento ecológico.

Mas isso vem mudando. Existem canetas-tinteiro de massa por US$ 3, e comprei recentemente algumas Pilot Varsity, que são realmente canetas-tinteiro descartáveis. Não são baratas, se comparadas a uma caneta Bic, porém "mais vale um gosto que quatro vinténs", e existem receitinhas na Internet para enchê-las com mais tinta.

A metalurgia evoluiu a tal ponto que as penas de aço inoxidável descartáveis são muito boas, e mesmo canetas-tinteiro caríssimas têm vindo com penas de aço em vez do tradicional ouro, com todas as características desejáveis que normalmente se atribuem ao ouro, como a flexibilidade que permite alterar a largura do traço sem estragar a pena e a resistência à corrosão.

Assim como tinha aquele cara que apontava lápis por US$ 40 (agora ele parou, mas só porque está se mudando para um lugar ermo), as canetas-tinteiro também passaram por essa curva em U, do uso ubíquo nos anos 1950 até a quase extinção (se bem que meu pai nunca deixou de usar as Parker dele, e como não é desastrado, provavelmente vai me deixar as canetas como herança) e uma ressurgência na forma de gourmetização.

Os nerds em geral curtem tudo que vem do Japão, do anime ao hentai, e uma boa parte das canetas e tintas também vêm de lá (a Pilot é japonesa e fabrica a Hi-Tec-C Gel Pen, que dizem ser a única caneta que Steve Jobs gostava). Alemanha também tem uma tradição secular nessa indústria. Mas as canetas-tinteiro são muito democráticas; tem gente fazendo canetas artesanalmente no mundo inteiro, e inúmeros videos no YouTube ensinando a fazer caneta a partir de um pedaço de lenha, etc.

No Brasil, sempre sofremos com o fato de ser um mercado marginal, não pela falta de gente com dinheiro, mas (creio eu) porque as pessoas ainda não têm refinamento suficiente para buscar a gourmetização nessas coisas pequenas. O resultado é a dificuldade de encontrar canetas-tinteiro e tintas fora do tradicional Parker-Shaeffer. Onde se encontra alguma coisa diferente é no Mercado Livre. Outra opção bastante recente, é comprar na Amazon mesmo, que remete a maior parte do catálogo para o Brasil. O único problema é a cobrança adiantada dos impostos de importação (ao comprar objetos pequenos no AliExpress, há sempre uma boa chance de não pagar imposto).

A suavidade da caneta-tinteiro deve-se ao fato da ponta metálica ser continuamente lubrificada pela tinta, e portanto a tinta influi muito na experiência de escrita. Comprei aquele kit de canetas Pilot Varsity descartáveis, com 7 cores, e positivamente cada cor escreve de forma diferente! Mesmo no limitado mercado oficial do Brasil, é sabido que a Parker azul-lavável escreve mais suave que as demais tintas.

É um aspecto que pode tornar o hobby caro, comprar tantos vidros de tinta que não se consumiriam numa vida inteira. Também há incompatibilidade entre certas canetas e certas tintas — provavelmente a penúltima caneta-tinteiro eu estraguei por esse método: ela secava rápido, mesmo tampada, e o êmbolo do depósito de tinta emperrou numa tentativa de limpar a caneta com acetona. NUNCA use algo diferente de água para desentupir uma caneta-tinteiro! Outra pegadinha é comprar tinta de caligrafia, para canetas de mergulhar, que presumem que a caneta será lavada imediatamente após o uso.

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