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Quando o barril de ideias fica vazio

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2016.04.27

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Pois é, eu escrevi ideias, não idéias. Uma das coisas que a gente aprende com a idade, e em particular depois que se é casado, é selecionar os combates em que se engajar. Minha opinião sobre a mais recente reforma ortográfica continua sendo negativa, mas como diriam os Borgs, "resistir é fútil".

Antes de entrar no assunto principal, gostaria de reiterar um opinião que emiti em fevereiro de 2016, bem antes da votação do impeachment. O que vemos em Brasília é a guerra entre duas elites. Nenhum dos lados representa realmente o povo, apesar dos dois lados alegarem isso, e você sabe qual lado alega isso com mais veemência, portanto mente com mais veemência.

Ontem mesmo troquei um tweet com o Felipe Arruda, um cara que eu no geral admiro. "Conversamos" sobre a tal "ideologia de gênero" nas escolas. Esse é apenas mais um dos fronts em que essas duas elites citadas guerreiam. A esquerda cujo protótipo é Jean Willys trata disso como se fosse a salvação do mundo. E a direita cujo protótipo é Bolsonaro acha que o assunto resolve com surra... Nenhum dos dois parece estar preocupado que as pessoas saem do ensino médio sem saber fazer uma regra de 3 ou uma média ponderada. (Se alguém puder produzir citação em que um ou outro tenham manifestado tal preocupação, comente aqui que eu altero o artigo.)

Por ora, meu filho está bem a salvo numa escola particular, onde essa discussão não vai chegar tão cedo. Não que eu julgue a questão desimportante, mas eu não quero que meu filho seja massa de manobra de lado nenhum. Como nerd, minha fé eu deposito na tecnologia. Para mim, os verdadeiros feministas são os caras que inventaram a bicicleta e a máquina de lavar; as faces mais visíveis do movimento feminista são meras conseqüências dessas tecnologias novas que deram às mulheres mais mobilidade, mais oportunidade de conhecer pessoas diferentes, e mais tempo para pensar sobre sua própria condição. (Uma "singularidade" onde o feminismo foi ele mesmo motor de uma inovação tecnológica foi a pílula anticoncepcional, cuja pesquisa foi financiada por uma espécie de crowdfunding de feministas certeiramente preocupadas com a liberdade reprodutiva.) Dentro desse meu ponto de vista, se meu filho aprender matemática de forma suficiente, o resto se resolve sozinho.

Mas voltando, ou melhor, introduzindo pela primeira vez o assunto do título: o barril de ideias vazio. Não é segredo que votei no Lula em 2002. Não é algo que eu estampe na página principal do site nem tampouco reflete minha atual opinião sobre o Lula, mas se alguém procurar no Web Archive pelo d00dz.org pode encontrar alguma "prova" disso. Fizemos até uma "campanha" denominada "Serra, seja homem" onde pedíamos que ele renunciasse à candidatura. Ele mesmo não demonstrava muito entusiasmo, mas julgávamos que devia desistir de todo. Por quê?

Porque o governo da época tinha claramente esgotado o arsenal de ideias. O barril estava vazio. Era uma situação de crise internacional (crise de verdade, com o calote da Rússia em 1999, bolha ponto.com em 2000 e atentado das Torres Gêmeas em 2001), mas o governo não conseguia produzir fatos novos. A receita econômica tinha esgotado, e para qualquer pergunta a resposta era a mesma: ah, temos crise internacional, tem problema A, tem problema B... Até começaram com o "Bolsa Escola", embrião do Bolsa-Família, mas foi uma iniciativa "too little, too late". Estava claro para absolutamente todo mundo (exceto para o governo) que era preciso dar o próximo passo na política econômica: fortalecer o mercado interno.

Em suma, era hora de trocar os bois no arado. Graças a Deus o próprio PSDB estava convencido disso. Se quisesse, poderia ter tentado tirar algum coelho da cartola para ganhar a eleição mais uma vez, mas a que preço? É fácil estimar esse preço. Basta ver a deterioração do Brasil a partir de 2010 e em particular a partir de 2012, e teremos uma boa estimativa.

Esse esgotamento me fascina e me preocupa, porque eu fico pensando se pode acontecer, por exemplo, comigo mesmo. Será que eu posso virar um "dinossauro" na minha profissão, cair em desgraça? Será que já queimei minha cota de boas ideias para esta vida e deveria poupar cada centavo daqui para frente, porque não criarei nada mais de novo e valioso, e em algum momento o mercado e/ou meu empregador descobrirão isto?

Seja como for, é fascinante como esse esgotamento pode atingir "superorganismos" como governos e empresas. Em tese, deveriam ser imunes, já que uma empresa ou governo vai tendo uma reposição periódica de cérebros. Porém é fato que, mesmo despejando miolos no barril, cedo ou tarde ele seca. A lógica capitalista, e a lógica lógica mesmo, prescrevem que as empresas deveriam crescer até tomar conta do sistema solar, porém na prática o oposto é que é verdadeiro: quantas empresas listadas na Bolsa em 1930 existem hoje? Esse processo de degradação tem seu lado bom, afinal de contas.

Voltando aos felizes tempos de 2003-2006, o Lula fez o óbvio. Ou talvez nem tão óbvio. O fato é que ele e o PT entraram com o barril de idéias bem cheio. Aí ele foi sendo drenado, drenado, processo acelerado pelo estresse do mensalão.

No mensalão eu posso detectar um ponto onde o PT poderia reclamar "legitimamente" da oposição que teve. Nos anos 90, o PT era uma oposição tão histérica quanto inofensiva. Já a oposição ao PT desferiu algumas joelhadas contundentes. Por exemplo, conseguiram derrubar reiteradamente o Palocci, que eu pessoalmente considero um cara moderado e capaz, sempre que ele era lotado em algum cargo. Um corpo sob estresse físico ou químico constante pega câncer. Não justifica, mas explica a involução do PT paz-e-amor para um PT com a mão profundamente enfiada nas estatais.

2008 criou uma situação ambivalente: crise internacional, porém deu ao PT a oportunidade de usar ideias do fundo sujo, lamacento e keynesiano do barril. Sucesso suficiente para levar a eleição de 2010.

A partir dali, nada de novo foi feito. As ideias inéditas que a Dilma poderia ter, já tinham sido queimadas enquanto ela foi a "mãe do PAC", construindo a falsa imagem de nerd tímida porém de pulso firme e cabeça boa que conquistou uma fatia importante da opinião pública que ansiava por um governo mais tecnocrático.

Em 2014, estava mais do que na hora de trocar novamente os bois no arado. Muitos alegaram que não poderiam votar no PSDB porque este já estava de barril vazio desde 2002. O que essas pessoas não enxergaram, e ainda não enxergam, é que o barril do PT está menos que vazio; está com volume negativo. A eleição de 2014 foi ganha com argumentos getulistas, nostálgicos e neofóbicos. Pintando o Brasil pré-FHC como uma terra de leite e mel, e jogando (espertamente) com uma faixa do eleitorado abaixo dos 30 que simplesmente não conheceu o caos que era o Brasil antes de 1994. Abusando da analogia do barril, se temos volume negativo, voltar ao volume zero é aritmeticamente uma boa alternativa.

Diferente do FHC e do PSDB, a Dilma e o PT não sabem que está na hora de largar o arado. Dizem que os cavalos não geram ácido láctico nos músculos, por isso não sentem dor quando fazem esforços muito extenuantes, e simplesmente caem mortos quando se esgotam. O cavaleiro é quem tem de dosar o esforço dos cavalos, por conta disso. Talvez os burros tenham a mesma característica, não sei ao certo, mas desconfio que...

Para se ter uma noção de quanto está vazio ou negativo o barril da esquerda, pegue qualquer conhecido de esquerda que você tenha, e pergunte a ele quais as causas da atual crise. Ele vai dar a mesmíssima resposta: que a crise é internacional (curiosa essa crise internacional em que brasileiros, inclusive uns amigos meus de esquerda, só encontram emprego no... exterior). Que a Rede Globo está tramando tudo. Que a Editora Abril está tramando tudo. Que a oposição "não colabora". Que a culpa é a queda das commodities (ué, pra quê governo se a dependência de commodities é um problema secular do Brasil? Qualquer criança de primário sabe!) Que a culpa é do Congresso e do Cunha — sendo que o governo trabalha ativamente desde o mensalão para cevar o Congresso que aí está, fomentando a criação de uma miuçalhada de partidecos, puxando o saco de igrejas e líderes evangélicos, e até anteontem o Cunha era aliado. O Renan ainda é meio-aliado e da mesma massa é feito, mas ninguém reclama...

Em resumo, todos são culpados, menos o governo executivo federal. Quando você vê o líder do MTST, a líder da UNE, o líder do MST, o cara do PT, o amigo de esquerda, todos cantando em uníssono essa mesma cantiga — é porque tem alguma coisa muito errada. É mentalidade de colméia, como os Borgs do Star Trek. A pobreza intelectual é muito grande! Pior que o YouTube vai registrando tudo isso. Que eles rezem pro Google falir, porque no futuro vão rir muito dessa gente, falando as mesmas bobagens em uníssono.

Você é de esquerda e tem uma tese que realmente se destaque dessa manada? Peço encarecidamente que deixe um comentário.

O esgotamento acaba ficando tão grande que se reflete nas próprias pessoas que compõem o governo. Por mais que muita gente jovem tenha aderido ao ideário, você vê que as caras no topo da pirâmide vão se repetindo como um carrossel. Até o cara do "dólar na cueca" já foi reciclado.

Já na "direita", você encontra uma variância mais interessante de opiniões. Tem Bolsonaro, é bem verdade. Mas também tem Constantino (ok, ainda é duro de engolir). Tem Alckmin. Tem José Serra. Tem Demétrio Magnoli. Tem este seu criado que escreve este artigo (ok, duro de engolir também :D) Cada um destes vai emitir opinião bastante diferente a respeito do que fazer com a economia, com a educação... Não vão oferecer receitas em uníssono, muito menos desculpas em uníssono. Alguns deles têm opiniões não muito saudáveis, mas a variância é em si saudável.

Alguns dos personagens acima consideram-se inclusive de esquerda. Eis a chave do porquê a esquerda "oficial" está tão vazia de ideias. Ela alijou metodicamente os esquerdistas que desviavam do cânone. Para os rebeldes, duas opções: calar-se para sempre como o Eduardo Suplicy, ou ser demonizado à exaustão como o José Serra.

O pessoal da esquerda também tem um discurso bem uníssono quando diz temer a radicalização de direita. Eu também temo isso. Imagine um Bolsonaro presidente. O Bolsonaro é um cara com opiniões surpreendentemente estatistas. Por exemplo, ele reclama até hoje que tiraram a pensão para filhas solteiras de militares. Ele votou contra a previdência complementar para servidores públicos. A posição da direita liberal, a respeito destas questões, e (se interessa saber) a minha própria posição, é inversa à dele. O Bolsonaro quer um Estado grande igual todo esquerdista, porém um Estado policial.

Agora, usar esse temor (pequeno, porém real) da ascensão da "direita Império Galáctico" como ferramenta para bater no resto da oposição, como o PT e os seus teleguiados têm feito na falta de ideia melhor, é intelectualmente desonesto e acima de tudo perigoso. Porque, se isso continuar pra sempre, em algum momento todo mundo vai ter de escolher um lado. Entre os Borgs e o Darth Vader, eu fico com o Darth Vader.

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