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Carros e preconceitos

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2017.02.07

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

"Todo brasileiro é apaixonado por carro", já dizia a propaganda. E os motivos que levam a maioria das pessoas a optar por determinado modelo são totalmente irracionais, ou no mínimo desvinculados da utilidade primeira do veículo que é transportar do ponto A para o ponto B. Alguém poderia dizer que todas as nossas decisões de compra são irracionais... mas vamos restringir a discussão aos carros, e vamos fingir que nos espantamos com essa irracionalidade, ok? :)

Eu que me considero um sujeito racional, que não preciso brandir bens materiais para sentir-me "incluído", já comprei uma S10 simplesmente porque ouvi o motor V6 acelerando — o ruído me encantou irremediavelmente. Isso é que é uma compra irracional! Aliás, picape é o tipo de veículo que, racionalmente, não faz sentido algum. Tem gente que chega ao extremo de enxergar formas femininas em picapes.

Por isso é sempre temerário discutir gostos e preferências automotivas. Mas existem algumas manias, alguns preconceitos, que transcendem o tolerável.

A maioria dos itens com que vou implicar são cacoetes brasileiros, mas isso não quer dizer que o brasileiro seja o povo mais "supersticioso" a respeito de automóveis. Apenas foi mais fácil para mim coletar essas superstições porque, afinal de contas, vivo no Brasil. Por exemplo, as manias dos estadunidenses (picapes enormes, dragsters, motores V8, a predominância do câmbio automático) são conhecidas porque temos mais contato com a produção artística dos EUA. Mas cada país tem seu próprio folclore automotivo.

Então vamos lá:

"Valor de revenda". Parece que todo mundo no Brasil tem loja de carros, ou quer ter. Nem comprou o carro e já está pensando em vendê-lo!

Isso tem uma certa relação com o preço extorsivo de um automóvel 0km no Brasil, mas o contrário também é verdadeiro: os preços 0km teriam de baixar se as latas-velhas não fossem tão valorizadas.

Talvez seja um cacoete residual da época da hiperinflação, quando estacionar uns carros no quintal era uma forma de "estacionar dinheiro" a salvo da corrosão inflacionária. Tinha ainda aquelas aberrações de um carro pouco usado custar mais que um novo, pelo fato do 0km ser tabelado (e obviamente escasso). Mas isso é passado, há 27 anos! Possuir um automóvel hoje em dia achando que ele é uma reserva de valor, me lembra os haitianos que criavam porcos para usá-los como moeda de troca.

Temos também a realidade social: pessoas usando automóveis de 20, 30 anos de idade. Mas nos EUA uma pessoa pobre compra um automóvel assim por 100 dólares. No Brasil, onde pobre nasceu pra se lascar, o sujeito endivida-se por anos pra comprar a lata velha...

Em função desse mítico "valor de revenda", muita gente deixa de comprar o modelo que realmente deseja, na cor que realmente deseja. Compra um carro preto e sem graça, às vezes até mais caro, porque julga que num futuro distante vai ser mais fácil vendê-lo ou dar como entrada do próximo carro.

Marchas curtas. Até recentemente, o brasileiro era amante do câmbio manual, e ainda por cima fazia mau uso dele, usando marchas mais altas do que o ideal para determinada velocidade, e reclamando quando o carro não desenvolve.

Alguns modelos de carro já se estreparam no mercado local, pegando fama de "lerdos" ou "fracos", simplesmente porque tinham o esquema de marchas denominado "3+E" ou "4+E", onde a última marcha é extremamente longa para economizar combusível e fazer menos ruído em autoestrada — como o overdrive dos câmbios automáticos antigos. Mas é um conceito que brasileiro não entende, ele acha que carro bom tem de subir serra em quinta marcha.

Assim sendo, os fabricantes calibram as caixas de mudança dos automóveis do mercado interno para marchas mais curtas, e principalmente evitando que a última marcha seja longa demais. O cliente sempre tem razão, afinal de contas.

Toda boa lenda tem um pé na realidade. É verdade que um motor ciclo Otto (à gasolina) beneficia-se de trabalhar com mais carga e menos RPM, porque a borboleta do acelerador fica mais aberta, o que diminui perdas por sucção e melhora o consumo. Mas isso tem um ponto ótimo para cada RPM e % de carga, é algo que, talvez, um câmbio automático CVT consiga tirar proveito.

Quinta marcha. Paradoxalmente, o brasileiro associava a presença da quinta marcha à modernidade, rejeitando automóveis de quatro marchas por antiquados. Mais recentemente, alguns modelos usavam uma caixa de seis marchas como argumento de vendas, até que o povo descobriu que isso era para disfarçar mal e porcamente um motor fraquíssimo.

No momento, o fetiche por um grande número de marchas paira (e isso no mundo todo) em cima dos câmbios automáticos. Para uso normal, quatro ou cinco marchas são perfeitamente suficientes, mas agora está na boca do povo que qualquer coisa abaixo de seis marchas é antiquado, beberrão, "lerdo", etc.

Torque do motor. Como brasileiro gosta de subir serra em quinta marcha, o motor tem de ser "torcudo". Existe uma fascinação em torno do número do torque, que é mais ou menos uma função da cilindrada. Por exemplo, o torque máximo de um motor 2.0 típico fica em torno de 20kgm ou 200Nm, um motor de 4 litros tem torque na casa dos 40kgm, etc. O opalão 6 cilindros é o Santo Graal, com seu torque monumental (e potência medíocre).

Só que o torque máximo do motor não quer dizer absolutamente nada, pois o torque pode ser multiplicado à vontade pela transmissão. Por exemplo, os motores de motocicleta têm torque muito baixo porque são projetados para atingir RPMs (e potências) muito altas. O mesmo acontecia com os finados motores Wankel, que tinham torque minúsculo.

O que realmente importa é a potência do motor. Essa sim é absoluta, não tem câmbio de 6 marchas que resolva falta de potência. Mas, se há potência, o resto se resolve. Veja este Fiat Uno andando muito, com motor de motocicleta, apesar de ter menos torque que o motor original.

Essa lenda também tem um pé na realidade. O torque do motor que consta no manual do proprietário tem seus significados. Tipicamente, a RPM de máximo torque também é a RPM de máxima eficiência do motor — quando está trabalhando com 100% de carga. Se o torque máximo ocorre em 3500RPM, então provavelmente 3500RPM é a rotação mais econômica para subir a serra. Mas, para cargas menores que 100%, RPMs menores seriam mais eficientes.

O torque também permite calcular a potência em rotação média. Por exemplo, 20kgm a 3500RPM correspondem a 99CV (20x10x3500x6.28/60/736, eis um bom exercício para relembrar Física de segundo grau). Se a potência máxima desse motor fosse 120CV a 5000RPM (improvável, mas é só um exemplo), significa que o motor atinge 83% da potência máxima numa RPM relativamente baixa.

O motor "torcudo" é gostoso de dirigir, não porque ele é torcudo, mas porque ele tende à potência constante. Por exemplo, o Opalão tem apenas 121CV, mas 70% dessa potência está disponível a 2000 RPM, uma rotação em que o motor mal faz barulho. Motores elétricos têm potência constante; motores térmicos (a vapor ou combustão) têm força constante que é função da cilindrada. O Opalão consegue escapar parcialmente desta regra "estrangulando" o motor em RPMs mais altas.

O motor diesel também tem essa fama de "torcudo", e também tem uma região de potência constante, que é sua real vantagem.

Motor 1.0. Esta jabuticaba criada pelo Collor infelizmente ainda não desapareceu. A ideia não era de todo má. Mas teria de ser nos moldes dos kei car japoneses, onde não só o motor mas também tamanho e peso são mantidos pequenos.

O que define o consumo urbano de um automóvel é o seu peso. Se um motor de Opalão for adaptado num carro 1.0 leve, será econômico. Não tanto quanto o motor original, mas será. Por outro lado, um motor 1.0 num SUV não tornará o SUV econômico, e o motor será utilizado num regime muito mais severo, fazendo muito mais barulho e diminuindo a vida útil.

Como a RPM de um motor para uso "civil" não passa de 6000RPM, a cilindrada do motor teria de acompanhar o peso do carro. Infelizmente, na esteira da jabuticaba 1.0 e de uma estrutura tributária criada no contexto do choque do petróleo de 1973, os fabricantes brasileiros nos mantém numa dieta de motores com baixa cilindrada.

A coroação do ridículo é o "1.0 de luxo", relativamente grande, pesado e cheio de recursos que sobrecarregam o pobre motor. O Siena 1.0 de 6 marchas é o zênite dessa proposta furada. Uma onda que já passou, felizmente.

Manutenção. Brasileiro não é conhecido por ser precavido, e dessa forma não costuma fazer manutenção preventiva. Lava o carro três vezes por dia, mas manutenção, não. Talvez por isso já fique pensando em como vender o carro, antes mesmo de comprar ("passar a bomba pra frente"). Junte isso com o fato dos automóveis rodarem muito além da vida útil de 10 anos, e temos uma situação bem interessante.

Desse segredo de polichinelo brotam outras lendas, como "câmbios automáticos são problemáticos". Câmbio automático realmente dá problema se não tiver manutenção preventiva, e não tem jeitinho pra consertar. Quando quebra, vai para a fábrica e instala-se outro na base de troca. Forçar um câmbio automático também causará quebra prematura, e isso também é bem fácil de acontecer no Brasil, porque todo mundo se acha um Ayrton Senna...

Novamente, o protótipo do carro ideal é o Opalão: qualquer mecânico de fundo de quintal conserta, as peças são vendidas a quilo e aguenta abuso infinito. Os carros modernos estão indo na direção oposta: são cada vez mais caixas-pretas repletos de eletrônica, com todas as peças programadas para uma durabilidade mais ou menos equivalente. Se trocar a rebimboca da parafuseta do motor, estraga o motor porque a rebimboca não vai estar com a mesma tolerância das demais peças. (Ok, isto foi só uma figura de linguagem, mas é mais ou menos por aí.)

Picapes diesel. Aqui temos outro veículo que atende a todos os preconceitos do brasileiro: motor "torcudo", alto valor de revenda, barulhento, "econômico" e tolera abuso. Por ser grande, barulhenta e fumacenta, ela finge que anda muito, e o dono finge que acredita.

Pra botar a cereja no bolo, o gosto por picapes é um "contrabando" da cultura estadunidense, junto com as roupas de cowboy e o uísque. Mas a sonzeira é daqui mesmo, é o "sertanejo universitário". Julgue por você mesmo a digestibilidade dessa mistura.

Dê uma olhada nos preços das Silverado, D-20, F-250, etc. Todos veículos que já saíram de linha. Exemplares de quase 20 anos de idade custando 90 mil reais! O preço das peças também é assustador; e alguém se ilude que um veículo de 20 anos não vai quebrar peças caras o tempo todo?

Não sou contra o cara comprar um veículo velho. Se era seu sonho de criança ter uma Silverado, ótimo. O que me irrita é um carro velho custar uma fortuna e ainda ter todo esse folclore que "antigamente é que faziam carro bom". Aliás, este é outro preconceito recorrente no mundo 4x4.

A lenda do motor diesel indestrutível, que não é verdadeira (basta ler fóruns 4x4 para descobrir) tem um pezinho na realidade. Os motores diesel da época da Silverado eram mais parecidos com os de caminhão: extremamente simples e sem pretensões de fazer 0 a 100 em 10 segundos. Em compensação, duravam 1 milhão de quilômetros. Qualquer mecânico de beira de estrada mexe neles, o cúmulo da complicação é o bombista recalibrar a bomba injetora.

Com o tempo, os fabricantes foram introduzindo os motores HSD (diesel de alta velocidade) nas picapes, cuja durabilidade ainda está sub judice. Diz-se também que o diesel S-10, menos poluente, tem menor poder lubrificante que o diesel "antigo", e os efeitos na durabilidade dos motores far-se-ão sentir nos próximos anos.

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