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Chernobyl

2019.07.21

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Há muitos anos atrás, tinha escrito um artigo sobre o acidente de Chernobyl. Era um bom texto para a Web 1.0, mas ficou abaixo do par do campo e foi removido. Tinha diversas informações imprecisas e muitos puxadinhos, tentava cobrir muitas bases periféricas do assunto energia nuclear. A riqueza atual de informações on-line dispensa esse tipo de textão lacrador.

A ideia deste texto aqui é fazer uma propaganda da série da HBO homônima, que inclusive causou uma ressurgência mundial no interesse sobre o tema, e até emplacou um memezinho "3.6 roentgen, tá ruim mas tá bão". O assunto é ao mesmo tempo antigo e atual; em 1986 a preocupação maior era a escassez de petróleo, hoje o aquecimento global é uma realidade palpável. Depois de longa hibernação, energia nuclear volta a ser discutida.

O seriado da HBO é uma dramatização, tem obrigação de divertir e de pagar uma libra de carne aos preconceitos de quem assiste, então há de se perdoar as licenças poéticas.

Por exemplo, cria-se toda aquela atmosfera da onipresença da KGB, que pode ser correta no cômputo geral, mas neste caso é imprópria. A KGB investigou os problemas do reator RBMK e tentou por várias vezes persuadir outros a consertá-los. Porém a nuclearização acelerada era a joia da coroa, era uma das poucas coisas em que a URSS estava à frente, vislumbrava-se inclusive um enorme potencial exportador para o mundo todo. Nada podia ficar no caminho.

O RBMK não era uma porcaria, como se parece sugerir o tempo todo. Era um projeto simples e barato, de fato; feito para ser construído aos milhares. Seus problemas eram remediáveis e de fato foram remediados depois do acidente. Funcionava com urânio não-enriquecido. Isso é importante: enriquecer urânio gasta tanta energia que é encarado como um método de "congelar" energia hidroelétrica excedente.

Um personagem pouco conhecido da história soviética, que ganha justa atenção no seriado, é o Boris Shcherbina: uma daquelas pessoas raras, "bons malandros", que sabem navegar o sistema político, falar grosso e/ou serem razoáveis conforme pede o momento. Foi cotado para sucessor de Gorbachev, e certamente a Rússia estaria muito melhor hoje se tivesse ido com este Boris em vez daquele outro que gostava de vodka.

Os grandes desastres de engenharia são compridas cadeias de pequenos erros de projeto e de operação. Chernobyl foi um exemplo extremo. Three Mile Island é muito citado por ser outro acidente nuclear. Pessoalmente acho Chernobyl mais parecida com o recente problema do MCAS dos Boeing 737 Max 8, por ter envolvido reiterada ocultação de informação.