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Os portugueses foram tão maus colonizadores?

Entre nós brasileiros é moeda corrente afirmar que todas as nossas mazelas são derivadas da colonização portuguesa.

Por si só esta é uma afirmação temerária. Ela pode ter um fundinho de verdade, mas é um argumento bem gasto para um país independente há quase dois séculos. Moçambique tem (ainda) algum direito de colocar a culpa em Portugal, por sua situação. Nós não.

Eu pessoalmente odeio esse argumento de colocar a culpa no passado, como se a História fosse uma sucessão de eventos mecânicos. Os cartórios, a burocracia e os privilégios inexplicáveis não estão aí hoje por culpa de Portugal. Estão aí porque há gente influente cujo modo de vida depende disso, gente que por sua vez bota a culpa nos portugueses para conseguir dormir à noite.

Mas o ponto que pretendo discutir, é se os portugueses foram tão maus colonizadores assim. Eu estou me convencendo que não.

O problema essencial é que nós comparamos nossa ex-metrópole Portugal com a Inglaterra. Talvez Portugal esteja num surpreendente segundo lugar como "melhor" metrópole. Mas a comparação com a Inglaterra empana todo o briho da medalha de prata. Tanto a grandeza do Império Britânico quanto o desenvolvimento das colônias que ele deixou para trás são fora-de-série.

Um outro problema, análogo, é que o Brasil vive se comparando com os EUA, e com os países europeus desenvolvidos. Saímos perdendo, é claro, e ficamos deprimidos. Mas, por maior que seja nosso complexo de inferioridade, não cogitamos compararmo-nos à Grécia, ou com países balcânicos. Bem ou mal nós somos um país grande e com recursos. A Grécia mal tem água potável.

Por favor, não estou querendo dizer que devamos adotar a "mentalidade de Poliana". Não acho que o Brasil deveria contentar-se antes de chegar a ser, no mínimo, a quarta economia do mundo. (EUA e China têm obrigação de ser maiores, porque têm populações maiores, e estou reservando o terceiro lugar para algum ponto fora da curva, tipo Alemanha.) Mas nós estamos no "lado certo" do mundo, nossa economia oscila entre a quinta e a oitava maior do mundo, estamos inseridos na economia mundial tanto economicamente quanto culturalmente.

Se compararmos Portugal à Espanha, a primeira metrópole foi bem mais competente que a segunda. A América espanhola explodiu em mil pedaços, enquanto o Brasil de alguma forma foi incutido por esta ânsia de unidade. Uma ânsia tão grande que chega a prejudicar o funcionamento da federação — os EUA não sentem desconforto em deixar Califórnia e Nova Iorque descolarem-se economicamente do Alabama, e colhem bons resultados.

Mas a própria Espanha, a quem poderíamos atribuir uma "medalha de bronze" enquanto metrópole, não foi tão mal assim. Muitos dos países hispânicos conseguem ser culturalmente relevantes apesar das dimensões minúsculas. Muitos receberam prêmios Nobel, por exemplo (o Brasil ainda não recebeu nenhum).

Por outro lado, muitos países ditos desenvolvidos, que inclusive são meio que modelos para o Brasil atual, têm uma ficha corrida mais suja que pau de galinheiro na posição de metrópoles. A França é o melhor exemplo. Berço da democracia moderna e tal, mas deixou para trás o quê? Haiti. Guiana Francesa. Vietnã. Argélia — onde o Exército francês aperfeiçoou as técnicas de tortura, e não tendo conseguido manter a Argélia como colônia, ensinou as ditaduras latino-americanas a torturar para amortizar o prejuízo.

Da mesma forma, Holanda, Bélgica, Itália, a própria Alemanha que a maioria supõe não tinha colônias, têm péssima ficha corrida, em particular no que se refere às colônias africanas. As coisas escandalosas que a Alemanha fez na II Guerra, e.g. experiências científicas com gente e matar por inanição, foram praticadas antes e em larga escala nas colônias.

Mas Itália e Alemanha têm "ex-colônias" muito bem-sucedidas. Sabe aonde? Nos países latino-americanos que aceitaram imigrantes destes países. A maioria imigrou porque morria de fome nos países de origem, e também veio uma minoria letrada que foi expulsa por ser anarquista, comunista, ou simplesmente liberal. Talvez foi por esse método, num processo de depuração às avessas, que esses países foram se radicalizando até chegar ao totalitarismo, e foram reaprender a ser gente debaixo da bota do norte-americano!

Nem mesmo os EUA têm uma boa reputação enquanto metrópole. Apesar do grande sucesso enquanto força de ocupação na Europa e no Japão, os EUA não legaram desenvolvimento às Filipinas, nem conseguiram "consertar" os países que invadiram mais recentemente, como o Iraque — onde estavam pedindo ajuda aos britânicos para saber como se portar como força de ocupação.