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Refletindo a quarentena

2020.04.21

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Em primeiro lugar, não espere que eu defenda esta ou aquela posição sobre a quarentena, se devemos adotar isolamento vertical, horizontal, diagonal, etc. Não entendo nada do assunto, nem mesmo gostava de biologia na escola.

A rigor, o texto que eu gostaria de escrever já foi escrito nesta reportagem da Folha de São Paulo. A Folha anda um porre ultimamente: é 99% lacração, na esteira da briga com o Bolsonaro, tanto que cancelei minha assinatura. Mas o texto linkado acima é bom demais!

A morbidade do COVID-19 é uma função que descreve uma curva em "J". Sem tomar qualquer providência, faltariam vagas na UTI e respiradores, e muita gente teria uma morte horrível. Este é o extremo esquerdo da curva. Por outro lado, um isolamento progressivamente mais perfeito levaria a um número crescente de vidas destruídas pelo colapso econômico. Este é o lado direito da curva, que não tem limite — por isso é uma curva em J, não em U.

O trabalho dos políticos é minimizar a função-morbidade, tentando aninhar a sociedade no ponto mais baixo da curva em J. Não é tarefa fácil, pessoalmente estou aliviado por não ser político neste momento.

O Bolsonaro, por extremista, só enxerga os dois extremos da curva. Dentro dessa visão binária, a única opção possível entre a tragédia e o cataclisma é deixar o vírus seguir seu curso. (E não duvido haja extremistas desejosos do outro lado da curva — usar o pretexto para fabricar um colapso econômico, abrindo espaço a alguma utopia.)

No futuro, a análise retrospectiva vai mostrar que muitas providências foram exageradas ou prematuras. Mas este é o preço. Todo aquele que é precavido ouve gracinhas durante a vida inteira sobre como a precaução é desperdício de tempo e recursos. Até o dia do julgamento, aí vem todo mundo de pires na mão.

Tivemos a ameaça de um cataclisma cibernético com o famoso "bug do milênio", apelidado Y2K, em que os computadores iam todos parar de funcionar na virada do ano 2000. No fim, não aconteceu nada de mais, mas apenas porque o assunto foi martelado à exaustão e cada um tratou de se precaver. Óbvio que houve muita autopromoção, muito arauto do apocalipse, muita venda de "consultoria especializada" a peso de ouro por conta do Y2K. Este é o outro preço que se paga nestas situações.

Falando em precaução, esta pandemia não é desculpa para agigantar o Estado. Pelo contrário, mostra que o Estado deve ser parcimonioso e fiscalmente responsável na época das vacas gordas, justamente para ter bala nesta hora. As armas neokeynesianas são para emergências, não para eleger ou reeleger poste — em que pese que o vício em remédios keynesianos acomete o mundo inteiro, com efeitos diversos em cada lugar, porém sempre deletérios.

Devido às restrições, o trânsito e a poluição diminuiram bastante, no mundo todo. Fica aquela estranha sensação que "é assim que as coisas deveriam ser". Claro, esta calmaria está custando o emprego de muita gente. Dá uma certa tristeza constatar que a sustentação do modelo econômico atual depende de muvuca, engarrafamento, lugares lotados, consumismo. Aceitamos morar em imóveis minúsculos porque podemos buscar (na verdade, comprar) diversão fora dele, o que inclusive engorda o PIB... até o dia em que você é proibido de sair de casa.

Aquele artigo da Folha cita a valorização das soluções locais, de pequena escala. Este vídeo do YouTube menciona que a China está evitando exportar respiradores, reservando toda a produção para si mesma, e talvez para afagar um e outro aliado.

O que você esperava? Que a China exportaria todos os respiradores em detrimento dos doentes locais? (Que com certeza são muito mais numerosos do que eles admitem oficialmente, mas isto é outra história.)

Correndo o risco de soar cirogomista, esta é uma conseqüência bem real de delegar toda a nossa produção industrial para a China. (E quando digo "nossa", refiro-me ao mundo ocidental inteiro.) Em tempos normais faz sentido econômico, mas na hora do aperto, sorte de quem mora mais perto da fábrica e azar dos demais.

Tivemos um exemplo menor deste efeito-localidade naquela greve dos caminhoneiros. Por conta do desabastecimento, os joinvillenses redescobriram que existe uma zona rural e muita gente foi adquirir gêneros alimentícios na "colônia". No início desta quarentena, o álcool-gel desapareceu, mas a esposa conseguiu dois dispensers a preço pré-crise porque ela conhecia alguém que conhecia alguém que trabalhava numa indústria deste produto. Papel higiênico nunca haveria de faltar, porque algumas das maiores fábricas de celulose do mundo, e os reflorestamentos que as alimentam, estão em nosso quintal.

Em resumo, espero que a sociedade acorde para o fato de que pagar um pouco mais caro por produtos locais é como pagar uma espécie de seguro. Isto não justifica aberrações tipo Zona Franca de Manaus nem protecionismo no estilo dos anos 1970. Justifica o uso moderado das diversas ferramentas à disposição para estimular uma indústria local, regionalmente pulverizada, competitiva, de qualidade, com capacidade suficiente para nos atender no pior cenário.

O mesmo para o sistema de saúde. A dureza das medidas de isolamento é diretamente proporcional à escassez de leitos de UTI e de respiradores. Só que UTIs lotadas e gente jogada em macas pelos corredores dos hospitais, nada disso é novidade por aqui. A excrescência que é o sistema de saúde dos EUA também é assunto velho, e de fato há muitíssimo mais mortos lá do que cá. A hora do julgamento chegou para todos. Que se aprenda a lição, que saúde pública, de boa qualidade, com capacidade "ociosa" para responder a eventos imponderáveis, é vital.