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Cuidado, escola!

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Muita gente já sabe, por vias informais, da minha bronca em relação à instituicão denominada escola.

Nisto, fui bastante influenciado por um livro cujo título é (surpresa!) "Cuidado, Escola", da Editora Brasiliente. Encontra-se baratinho nos sebos. Eu li um exemplar emprestado do amigo Sidnei Brüske, que a exemplo dos amigos mais recentes de esquerda, me achava um pouco alienado e tentou ajudar com esse livro e uns CDs do Raul Seixas.

O livro tem umas tinturas esquerdóides típicas dos livros anos 80 pré-queda do Muro. A tese do livro de que mais discordo: o aluno ser 100% produto da escola. Tipo assim: o professor simpatiza ou antipatiza com certo aluno, tornando o desempenho do aluno uma profecia auto-realizada.

Outra do gênero: que crianças que falam "errado" são "oprimidas", a linguagem da "classe dominante" é imposta de cima para baixo etc. (Um eco desta discussão rolou recentemente na Internet, não foi?)

Mas são coisas pontuais. O livro tem mais a intenção de provocar, e mesmo assim aponta problemas com uma excelente taxa de acerto. Além do mais é escrito com muito bom humor e cheio de charges. Rinendo castigat mores. É muito divertido de ler.

Tese provocativa do livro que pega na veia: que escola é "estacionamento de criança". Não usa estas palavras (a expressão lapidar é do amigo gwm) mas a ideia é esta. Os pais têm de trabalhar, os dois, full-time para manter um padrão de vida de validade duvidosa, aí pagam uma instituição para cuidar da prole.

Sem mencionar o óbvio (que cuidar da prole é tarefa biologicamente atribuída à mãe, ou no mínimo aos pais), o livro menciona as sociedades ditas "primitivas", tribais, onde a tarefa de cuidar das crianças é coletiva, portanto já havia "ganho de escala" para pais e mães darem uma relaxada ou desenvolverem outras atividades. (Estima-se que o homem pré-histórico trabalhava apenas 20h por semana.)

Outra tese que zera no alvo é a questão da decoreba, do conteúdo desconectado da realidade. Um exemplo é a ênfase do ensino médio em passar no vestibular em vez de realmente ensinar alguma coisa. Nem ao Einstein aproveitaria saber o que são monocotiledôneas.

Enfim, quem tiver interesse leia o livro e tire suas conclusões. Eu não acho que escola seja dispensável ou desnecessária, mas tenho algumas "pegas" com aspectos específicos do sistema educacional.

Eu pessoalmente acredito piamente que "o aluno faz a escola" e a criança é produto da sua própria genética, do seu próprio temperamento e quando muito do exemplo que os pais dão em casa (o livro "Freakonomics" meio que provou que os pais influenciam os filhos mais pelo que são do que pelo que fazem).

Portanto neste ponto minha crença é diametralmente oposta à do livro "Cuidado, Escola". Não acredito que a escola seja um instrumento da classe dominante para perpetuar a estratificação social; mas é certo que a escola acaba absorvida por esse processo. Mesmo em países com educação 100% pública, acaba emergindo uma situação onde pais com a) dinheiro e principalmente b) preocupados com a formação dos filhos preferem determinada escola, o que leva os melhores alunos àquela escola, e assim acaba-se criando um ranking de escolas.

O aluno faz a escola, os bons alunos vão para escolas denominadas boas, e temos aí outra profecia auto-realizável.

É certo que no Brasil a escola particular típica é melhor que a escola pública típica, mas muitos pais fazem o esforço de pagar um colégio particular pelos motivos errados, na minha opinião. Já ouvi argumentos do tipo: "tem pobre em colégio público" (isto é pecado?); "pobre tem piolho"; "criança pobre fala palavrão" (coitado do meu filho então, o pai dele tem boca mais suja que um capitão-de-fragata).

Em resumo, aquela coisa de pagar colégio particular para impressionar parente, pressionar ex-cônjuge. Para o filho não ter de lidar com "gente diferenciada". Este último item eu acho uma tremenda desvantagem; foi muito útil para mim saber desde cedo que existe gente muito pobre, que comprava osso para fazer sopa (estudei em colégio municipal no primário e a história do osso é verdadeira).

Tem a questão das drogas, porque "escola pública tem droga"... aí contei um episódio da sétima série (já em escola particular) quando uma galera cheirou benzina em plena sala de aula.

Enfim, tudo isto são filigranas teóricas. As batalhas do mundo real eu venho perdendo todas. Meu filho freqüenta uma escolinha particular, e provavelmente vai para um colégio particular na 1a série.

Mas, inesperadamente, tive uns atritos com a escolinha que me proporcionaram uma pequena vitória moral.

Às vezes, em certos aspectos, notei que meu filho regrediu quando foi para a escolinha. Nada muito preocupante, mas notamos. E notamos de novo nas férias agora. Uma semana em casa e a evolução é visível.

A professora dele gosta de debater, o que é bom, já falei inclusive dessas minhas idéias heterodoxas para ela, mas ficou claro que a escolinha define de forma rígida o que a criança deve, ou não deve, saber em cada idade.

Meu filho é meio desatento (até nisto ele puxou ao pai) e sempre foi devagar na fala; isto é um "problema". Mas está muito perto de saber ler, sabe as letras, sabe contar e fazer somas elementares. Que é "problema" também, já que "criança de quatro anos não tem de ser estimulada a ler".

Dei uma de esperto e perguntei para a professora se não iam ensinar a ler, escrever e contar no próximo ano. De fato, vão ensinar. Quer dizer, é anormal e perigoso estimular a ler em dezembro de 2012, mas é perfeitamente aceitável fazer isso em fevereiro de 2013?

Enfim, paciência. Algum benefício líquido decerto haverá. Pelo menos ele aprende capoeira na escolinha, isto realmente eu não poderia ensiná-lo em casa.

Outra rezinga que tenho com a escola, e esta é bem pessoal, é em relação à quantidade de mentiras e omissões que nos impõem. Reforçam bem a tese de que aquilo tudo era apenas um estacionamento de criança, e ficavam nos ensinando coisas para matar o tempo.

Eu já colecionei inúmeras, mas aqui vão algumas que me ocorrem agora, sem muito esforço.

Por exemplo, na Química de segundo grau. Ensinam ligações químicas covalentes e iônicas. Mas (pelo menos no meu tempo) omitiram completamente as ligações metálicas. Uma omissão imperdoável, porque são elas que dão aos metais as suas propriedades mais desejáveis.

Nunca vi ninguém fabricar sal de cozinha a partir de ácido clorídrico e soda cáustica, mas todo mundo lida com objetos metálicos o tempo todo. Na verdade, a própria distinção entre ligação iônica e covalente é apenas didática. Toda ligação tem um certo "caráter iônico", que, quando passa de um valor "x", a ligação é rotulada iônica.

Se bobear essas coisas caem no vestibular, e ai de você se responder do jeito que eu disse no parágrafo acima :) Ensinam adesismo e ventriloquismo desde cedo!

Biologia foi matéria que sempre detestei, e tratei de limpar da minha memória, mas deve ser o maior manancial de mentiras didáticas. "Bactérias são vegetais unicelulares" e coisas assim.

Sempre gostei de Matemática e Física, talvez porque a quantidade de mentiras era bem menor. Nestas duas disciplinas os problemas mais recorrentes eram: tópicos completamente "voando", sem qualquer ligação com outros, o que provoca desinteresse; e professores despreparados.

No segundo grau, aprendi dinâmica no primeiro ano, mas não encontrei nenhum professor que me tirasse de forma contundente a seguinte dúvida: qual a diferença entre força e potência? No fim o professor do 3º ano me acudiu, com uma observação bem simples: um objeto de 100kg exerce uma força de 1000N sobre a mesa, e só não cai porque a mesa exerce uma força de 1000N no sentido contrário. Mas como o objeto está parado, a potência é zero.

Em Matemática, aprendi algo importantíssimo: matrizes e determinantes. Mas até hoje não sei fazer contas "de cabeça" com elas, porque o ensino foi completamente desirmanado de utilidade prática, ou de tópicos posteriores que fizessem uso de matrizes. A representação polar de números complexos, mesma coisa. Números complexos em si eu acabei "pegando" porque estavam ligados a equações algébricas.

Quando me interessei por coisas do tipo aritmética de Peano, teoria dos conjuntos etc. finalmente entendi porque as professoras do ensino primário tratavam números decimais e números fracionários de forma "diferente". Lembro de ter perguntado qual era o ponto de usar 3/4 se usar 0,75 na calculadora dava na mesma, e era mais prático. Ninguém soube me dar uma resposta convincente, na época.

Está claro que a pessoa que originalmente bolou o currículo escolar sabia dos axiomas de Peano. Só faltou esclarecer aos principais interessados: professores e alunos. Se tivessem me esclarecido, talvez eu tivesse me interessado mais cedo pela academia.

Uma matéria que eu detestava era Educação Física. Evitava sempre que possível. Disto, me arrependo. Tive de ficar obeso e adoentado para descobrir que exercício é coisa boa, importante e prazerosa. Aí vem o problema da ministração: a matéria tinha conteúdo próprio, na época própria, mas a forma de ministração era via de regra militarizada. Via de regra o professor de educação física era um cabo do Exército que fazia um bico.

Matérias como História e Geografia eu também "estudava para passar" e esquecia prontamente em seguida, e também lamento porque no geral o conteúdo era muito bom, e com bons professores. Havia dois professores declaradamente comunistas, mas isto é praticamente uma doença ocupacional :)

Neste caso o problema era a idade da piazada. Não vejo crianças se interessando por Guerra do Contestado, nem adolescentes por história medieval. São coisas que aprendemos a apreciar depois de adultos, quando enxergamos algo do momento histórico corrente.

Até porque muito do que o professor fala é na verdade opinião, dele ou de um terceiro. Na sexta ou sétima série, uma professora de geografia chamada Beni (conhecida por distribuir zeros entre os mal-comportados) alegou que a colonização alemã no Brasil constituía num "quisto cultural". Getulismo nos anos 80, vejam vocês.

Na época, me senti diminuído e menos brasileiro por esta afirmação. O correto teria sido perguntar se as favelas seriam uma manifestação cultural genuinamente brasileira (a Beni era carioca). Mas eu não tinha consciência crítica naquela idade, e também tinha medo de nota baixa. É realmente o fim da picada, ensinar História e Geografia com argumentum ad baculum.

Na matemática, um exemplo de "mentira" que me lembro, é a questão da potenciação, porque a definição que aprendemos no ensino fundamental não vale para certos expoentes. Mas ninguém nos disse! Isto rendeu um artigo sobre o número "e", que desfaz a macumba. É uma mentira perdoável porque as potências tais quais definidas no primário ainda valem quando envolvem apenas números racionais.

Nesta linha, novidades educacionais aparentemente estapafúrdias, como ausência de reprovação, passam a fazer um certo sentido. Tem a questão das cotas, que bate de frente com a questão da meritocracia, mas como se viu, vestibular afere a decoreba de mentiras desconexas, não o mérito. Tudo isso dá uma discussão bem longa.

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