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Resenha: MATA! o Major Curió e as guerrilhas no Araguaia

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2012.10.14

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Comprei dois livros grossos para suportar a travessia do Atlântico numa poltrona da classe turística (daquelas do "meião" ainda!). Um deles é da Companhia das Letras: MATA! o Major Curió e as guerrilhas no Araguaia.

O livro é focado em Sebastião Curió, um militar que participou da Guerrilha do Araguaia e depois foi ficando por lá, com missão ou pretexto de acabar com os vestígios de "subversão". Acabou tornando-se um manda-chuva local, até uma cidade (Curionópolis) foi batizada em sua homenagem.

Curió também foi o "ditador benevolente" do garimpo de Serra Pelada, e por muito tempo depois da exaustão do garimpo ele procurou defender os interesses dos garimpeiros, no que entrou em conflito inclusive com o governo que inicialmente representava.

Nisto reside a complexidade do personagem Curió, magistralmente explorada pelo autor do livro. Um caçador de terroristas, que destrói o sonho comunista de construir uma "zona liberada" no Brasil, e que se transmuta num líder de homens, quase um Stalin, temido e sobretudo amado, impondo leis e regras próprias numa enorme região do Brasil, tornando-a efetivamente uma zona liberada.

Como bem escreveu o autor, no Bico do Papagaio o regime militar só acabou em 2006, quando Curió foi removido do cargo de prefeito, no seu segundo mandato, pela Justiça do Pará.

Curió sempre fez uma enorme propaganda do seu arquivo pessoal, sugerindo ou ameaçando escrever um livro e contar tudo que sabia. Obviamente uma jogada de sobrevivência com o fim do regime militar. Mas o tal arquivo existia mesmo, e o autor do livro, depois de inúmeras visitas ao personagem, conseguiu conquistar sua confiança e acesso à papelada.

O major não é personagem de todo antipático. A capacidade de liderança, de organização, e sua coragem siciliana são suas marcas registradas. O autor alega ter assistido alguns filmes junto com Curió — como O Poderoso Chefão e Apocalypse Now, buscando juntos traçar comparações com os míticos personagens.

O autor também demonstra enorme habilidade em cotejar eventos de Canudos, do Contestado e de outros embates no Araguaia, mostrando de forma quase poética que a história é realmente cíclica. Chega ao ponto de achar personagens homônimos, que estranhamente se comportaram de forma idêntica. Coisas do tipo: "Tenente Fulano desertou no Araguaia. Em 1913, Segundo-Tenente Fulano desertava no Contestado".

Fica claro que a região do Sul do Pará tem sido um barril de pólvora desde o século XIX. Mas também fica patente a completa falta de habilidade (histórica) do governo em lidar com insurgências "rurais". Manda o Exército praticar genocídio, e depois põe a culpa no Exército, e o Exército fica tentando se justificar em vez de lavar as mãos.

Ainda assim não deixa de ser interessante como a região é palco freqüente de ações truculentas, até hoje. O autor menciona diversos episódios dos anos 80, 90 e 2000, quando o Brasil já era pretensamente democrático. FHC, Lula, Edison Lobão, Sarney, Daniel Dantas, Greenhalgh, todos estes simpáticos personagens dão as caras no Bico do Papagaio e saem com as biografias chamuscadas.

Por último, é digno de nota o episódio que deu origem ao Movimento dos Sem-Terra: a Encruzilhada Natalino no Rio Grande do Sul, para onde Curió também foi enviado pelo governo para dissolver o acampamento. Mas, longe do Araguaia, os superpoderes do major não funcionaram tão bem. Não sou simpático ao MST, mas devo admitir que os sem-terra foram "sujeito hômi" por lá, e espertos a ponto de escutar a comunicação de rádio dos militares.

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