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Desumbracionismo

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2013.04.24

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Semana passada houve o triste incidente de Boston, mas também uma agradável piada: um estudo que defendia austeridade governamental estava errado devido a um erro na planilha Excel dos pesquisadores. Ainda se discute a validade do estudo depois da planilha ser arrumada, mas foi engraçadíssimo assim mesmo.

Talvez seja o mais célebre caso de uso da alcunha "cabeça de planilha", inventada pelo Luís Nassif. Pessoalmente tenho uma rezinga com o uso generalizado de Excel e não é uma completa surpresa para mim que eminentes economistas se deixem enganar por uma planilha errada.

No Brasil, no momento estamos a salvo dos cabeças de planilha, já que o presente governo dá mais ouvidos aos cabeças de FACIT. Enquanto houver graxa a FACIT não pára e vamos bem.

Uma pena o tal erro do Excel não ter sido propositado, eu pessoalmente aprecio muito "hoaxes", trotes e piadas práticas em geral. Principalmente quando são os outros que caem, não eu :) Existe um componente de inteligência e arte muito forte nos grandes trotes.

Lendo sobre o tal erro do Excel, naveguei pelas descrições de outros embaraços acadêmicos. Passei pelo grande "Trote Sokal": um artigo acadêmico completamente doido que afirmava que as constantes da Física eram uma construção machista, ou algo assim. E foi publicado! A história está na Wikipedia.

Figura 1: Paul Jordan Smith

Mas acabei gostando mesmo foi do trote do "Desumbracionismo", perpetrado por Paul Jordan Smith, este simpático senhor da foto da Figura 1, que nesta pose lembra vagamente o profeta Bob da Igreja do SubGênio. Ele trollou o mundo da arte inteirinho.

Tudo começou porque a esposa dele pintava bonitos quadros, que eram rejeitados pelas galerias de arte por serem "velha escola". Convencido que os críticos de arte eram imbecis arrogantes, Paul arrumou uns materiais velhos de pintura, rabiscou um quadro, e submeteu a uma exposição, sob o potente pseudônimo de Pavel Jerdanowitch — achando que talvez um nome estrangeiro contaria pontos.

Para supresa dele, a pintura foi aceita e elogiada. Os expositores pediram mais informações biográficas. Paul prontamente inventou uma história bem hiperbólica, e incluiu uma foto de si mesmo, ainda que bastante trabalhada para parecer um artista louco.

A coisa foi rolando, houve pedidos de outras galerias de arte, e o grande Pavel pintou um total de sete ou oito quadros, todos com cara de jardim-de-infância, todos muito aclamados e comparados com outros grandes artistas. Pavel declarou ser fundador de uma nova escola de arte, o "Desumbracionismo", onde não se podia pintar nenhuma sombra ("umbra" em latim significa sombra).

Um dia Paul Jordan Smith cansou da piada, já tinha provado seu ponto, e declarou a um jornal que era tudo um trote. Ainda assim, as pinturas de Pavel ainda trocaram de mãos diversas vezes desde então, com etiquetas de preço bem razoáveis, e pelo menos três estão expostos em renomadas galerias.

E aí, o que dizer de tudo isto?

Eu pessoalmente acho que Paul era, sim, dotado de talento artístico. Não no sentido convencional, mas no sentido de sair-se com uma pintura minimamente reconhecível como tal, e engendrar uma boa história em volta dela. Não é para qualquer um; eu sei que não conseguiria sair com uma pintura melhor que as que meu filho faz no jardim de infância, e muito menos inventar um pseudônimo tão convincente. O próprio trote pode ser considerado em si uma forma de arte.

Também já ouvi falar de "artistas" que na verdade não passam de excelentes vendedores. Aceitam uma encomenda de centenas de quadros para a rede de hotéis XYZ, e rabiscam uma tela a cada 15 segundos para terminar logo com isso e ir para a balada. Não quer dizer que não mereçam ter público. São como mágicos, videntes, prestidigitadores ou teleevangelistas; de fato exercem uma arte, mas não exatamente a que alegam.

Você encontra a história completa do Disumbracionismo aqui e também há esta outra referência com detalhes diversos.

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