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Resenha: O que o dinheiro não compra

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2013.01.30

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Apenas duas coisas na vida são inevitáveis: a morte e os impostos. Isso inclui o tributo da resenha, devido àquele "Círculo do Livro" de que participo, recentemente inscrito no Guiness Book como o menor do mundo.

O livro mais recente: "O que o dinheiro não compra", de Michael J. Sandel, um conhecido filósofo político estadunidense. Este é um daqueles que merece o cobiçado rótulo do nosso Círculo: "livro pra fazer pensar". Faz sentido, já que o autor é filósofo, e a filosofia está aí pra isso, não é?

A idéia central do livro é que existe uma crescente mercantilização de tudo e todos, de órgãos humanos a lugares numa fila a banheiros escolares (onde os tradicionais grafites são substituídos por propaganda). Tudo tem seu preço e isto normalmente é considerado "bom" por conta da eficiência de mercado.

Porém, ao contrário do que a maioria dos economistas acredita, "o mercado deixa sua marca", ou seja, mercantilizar não é um processo neutro. A mercantilização muda aquilo que toca, muita vez para pior.

No bojo da mercantilização, está um neologismo: a crescente "incentivização". Incentivizar é lançar mão de incentivos pecuniários, induzindo assim as pessoas a agir assim ou assado. É o campo de pesquisa mais em voga na ciência econômica. O "Freakonomics", muito citado aliás neste livro em resenha, é um texto onde os incentivos são muito discutidos.

Por exemplo, a multa de trânsito é um instrumento de incentivização, embora negativo. Incentivos "positivos", como por exemplo atrelar Bolsa-Família a freqüência escolar, são bem mais modernos.

O perigo é o incentivo asfixiar a coerção moral subjacente. No caso da multa, em tese uma pessoa rica poderia encarar a multa como apenas mais uma taxa ou imposto, e tendo pago a taxa, que para ela é financeiramente insignificante, acha que tem licença para delinqüir. Naturalmente isto presume que a multa é tomada apenas pelo seu valor de face, quando na verdade ela tem uma mensagem adicional, de ordem moral: "você está se comportando de forma anti-social".

A maioria das pessoas (ainda) é sensível à coerção moral e fica embaraçada ao receber uma multa, mas muitas não são. Por isso, em alguns países como a Finlândia, a multa de trânsito é proporcional à renda.

Na mesma lógica, um ingresso caro para um jogo de futebol parece selecionar eficientemente os torcedores mais fanáticos, porém esta seleção ignora o nível de renda de cada torcedor.

O livro aponta corretamente que o mercado é uma ferramenta, que funciona bem para muitos bens, não para todos. É a velha história: não se faz operação de apendicite com um martelo. Assim como na informática existe gente apaixonada pela ferramenta a ponto de perder de vista o trabalho, muita gente tem fé religiosa no mercado (assim como outros têm no Estado).

Um exemplo particularmente bom é a questão dos presentes de Natal. Do ponto de vista econômico o mais eficiente seria dar dinheiro, porque presentes são muitas vezes mal escolhidos, inúteis, ou duplicados.

Acho que é óbvio para qualquer um que a análise puramente econômica da troca de presentes late para a árvore errada. O objetivo de presentear é demonstrar respeito e consideração, talvez até fazer uma crítica velada ou até influenciar o presentado de alguma forma.

O livro tem, na minha opinião, dois defeitos. O primeiro é que ele perde o fôlego rápido, e tenta compensar isso despejando mais e mais casos concretos no texto, inclusive repetindo-os. O caso das "multas por atrasos na creche", tirado do Freakonomics, foi citado umas cinco vezes.

A mensagem mais forte do livro é dada logo nas primeiras páginas e fica sempre aquela lacuna eternamente presente nos textos que contestam o capitalismo ou a economia de mercado: cadê a alternativa?

O segundo defeito, relacionado com o primeiro, é a falta de uma análise mais profunda do porquê o mercado é limitado enquanto ferramenta.

Um motivo quase óbvio, mas que o livro não parece abordar em nenhum momento, é que preço é uma métrica unidimensional de valor. Valor é algo inerentemente multifacetado. Na verdade, é notável que o mercado funcione tão bem para tanta coisa, uma vez que vislumbramos quão pobre é sua métrica.

É como classificar pessoas pelo QI; funciona para muita coisa, mas não para tudo. Não tente determinar o melhor poeta de um grupo de pessoas pelo maior QI.

Outra falha menor do livro é ser centrado nos EUA, usar EUA como exemplo para quase tudo, sendo que os EUA são ponto fora da curva e não a média do que se faz mundo afora. E o resto do mundo é contraparte da nação estadunidense ultra-liberal.

O livro não se aprofunda muito na nevrálgica questão da saúde nos EUA. Nele reside um problema interessante: o sistema de saúde tem valor indiscutivelmente elevado, porém o preço que corresponde a este valor fica tão caro que os serviços de saúde acabam quase inacessíveis.

Casos desse tipo são candidatos claros a subsídio ou conversão para serviço público. Na minha opinião, a mesma coisa acontece com transporte de passageiros: todo mundo precisa dele, mas embutir o custo de capital na tarifa torna a passagem proibitivamente cara. Por outro lado, um serviço rápido e barato, mesmo que deficitário, "dá lucro" enorme se considerarmos a economia como um todo.

Por último, faltou alguma comparação com o passado. Em algumas áreas a humanidade está no seu melhor momento. Por exemplo, venda de crianças e casamentos arranjados por dinheiro eram transações corriqueiras desde muito antes do capitalismo, mas são quase universalmente condenadas hoje em dia. Se o capitalismo fosse a Grande Besta, teria acontecido na ordem contrária, não?

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