Site menu A renda discricionária dos nossos pais
e-mail icon
Site menu

A renda discricionária dos nossos pais

e-mail icon

Um pensamento me ocorreu hoje. A geração "baby boomer", os pais de quem tem hoje em torno de 40 anos, como eu tenho, conheceu prosperidade sem precedentes, e aparentemente esta prosperidade não está se repetindo nas gerações posteriores (X, Y, "milennials").

Óbvio que muita gente está indo bem, tem os Mark Zuckerberg da vida. Estou falando daquela prosperidade uniforme, que aproveita a todo mundo. Ainda que eivado de defeitos (excludente em relação a certas minorias, etc.), foi um fenômeno lindo, entre os anos 1950 e 1970. Muita gente de meia-idade credita esta época de bonança ao regime militar, mas a Era de Ouro foi um fenômeno mundial.

Junto com a bonança, vieram muitas outras coisas boas que o regime militar lhes impediu de aproveitar completamente: ampla liberalização dos costumes e relaxamento dos conflitos internacionais. Nos anos 70, Steve Jobs peregrinava no Afeganistão e ganhava uns trocados dando aulas de inglês para financiar o próximo trecho da viagem. Ninguém, nem o Pelé, conseguiria fazer isto hoje.

Bem, eu tenho um pensamento, uma hipótese: nossos pais ganhavam mais do que conseguiam gastar. Houve um incremento de renda, que na época não foi acompanhado de um incremento no consumo. As famílias de classe média acabavam, compulsoriamente, poupando muito e tendo condições de investir, seja numa casa, seja numa empresa, seja na própria formação.

É claro, um tolo e seu dinheiro são rapidamente separados em qualquer época e local, mas no geral a pressão pelo consumo era menor. A diferença entre "carro de rico" e "carro de pobre" era relativamente pequena. No Brasil a diferença era ainda menor — único efeito colateral discutivelmente positivo do mercado fechado aos importados. Classe média tinha Chevette e rico tinha Opala. (A caixa de mudanças do Chevette é igual à do Opala; apenas as engrenagens do Opala são um pouco mais fortes.) A geladeira do rico era parecida com a geladeira do remediado.

Gente rica ou de classe média-alta, nos anos 70 e 80, tinha casa de praia e/ou barco. Como disse um ex-patrão meu, barco é uma diversão surpreendentemente barata depois do desembolso inicial. Você viaja o mundo todo com um barco sem pagar hotel. Quem optou pela casa de praia também acabou constituindo um patrimônio palpável. Por mais que tentassem viver a vida, nossos pais só faziam guardar dinheiro.

Toda situação de desequilíbrio, mesmo que vantajosa, não perdura. O capitalismo "resolveu" este desequilíbrio, criando coisas como "produtos de alto valor agregado" e a "venda de experiências".

Exemplos: um celular básico custa praticamente zero e é uma maravilha da microeletrônica, mas todo mundo quer um iPhone que custa 3 mil reais. Uma geladeira simples é mais acessível do que nunca, mas até a classe C sonha com aquelas geladeironas sofisticadas.

E adquirir esses bens extremamente caros tornou-se quase uma obrigação. É preciso ser incrivelmente "descolado" para contentar-se com um celular de 100 reais. Sem falar que tanto o celular fashion quanto a geladeira fashion saem de moda muito mais rapidamente que as respectivas versões simplórias. Esse é o grande problema: não basta pagar uma vez para estar na moda. Você se obriga a gastar R$ 3 mil a cada dois anos com celular, se quiser manter o status quo.

Viajar era coisa de rico, e mesmo os ricos faziam isso poucas vezes. Agora até a classe C entrou na onda de "comprar experiências" — geralmente aqueles pasteurizados pacotes de viagens. O protótipo da pseudo-experiência é o resort paradisíaco no Nordeste, uma ilha em terra firme que não tem nada a ver com seu entorno, nem respeita a cultura e a arquitetura do lugar. Mas isto daria outro artigo. Há quem pratique turismo a fim de realmente conhecer um lugar e cultura diferentes, mas é o cúmulo do hipsterismo, e 90% dos que dizem fazê-lo estão mentindo.

O mesmo vale para outras atividades, como happy hour, jantar fora, etc. Tudo isso era considerado excepcional há 40 anos atrás. Hoje o bar e o restaurante da moda estão cheios de terça a domingo, haja crise ou não. Lugares onde o ticket médio por cabeça custa uma fração razoável de salário mínimo. Lá estão as mesmas pessoas que só conseguem comprar um lugar para morar se financiarem em 35 anos, e vão à falência se por acaso engravidarem de gêmeos.

Quem fazia mais certo? Nossos pais, ou nós mesmos? É difícil julgar. O mundo atual tem muita coisa boa, e ser pobre definitivamente era pior há 40 anos atrás. Mas eu acho que perdemos alguma coisa no caminho; e o próximo desequilíbrio global mostrará isto de forma clara.

e-mail icon