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2015.11.30

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

A ninguém devais coisa alguma (Romanos 13:8, caput)

No final do ano passado, mudei de uma casa para um apartamento. Nesta operação, fiz algo pouco usual: dei um passo um pouco maior que a perna. O novo muquifo custou mais do que eu podia pagar, principalmente levando em conta as despesas acessórias de instalação. Para viabilizar a empreitada, tomei dinheiro emprestado do meu pai e parcelei no cartão tudo que foi possível.

Foi um ato de fé, porque se acontecesse algo de ruim durante este ano, eu teria uma dívida para "ajudar" a administrar o problema, em vez de uma poupança. A crise ficou escancarada justo nesta época, felizmente ela não me afetou particularmente, exceto talvez pela conta de luz e pelo preço dos Macs.

Entrei nessa embrulhada com uma ponta de otimismo embasada num precedente histórico: meu pai, que na crise de 1982 estava trabalhando apenas 4 dias por semana (com a respectiva redução de salário) aproveitou o tempo livre para construir uma piscina...

No momento ainda estou devedor, mas já num patamar tranqüilo de manejar. Para mim, tudo isto é uma experiência completamente nova, com efeitos emocionais também novos.

Um aspecto notável de ser devedor é a sensação de pagar, pagar, pagar, e a dívida nunca baixa! No plano racional, o extrato explica perfeitamente o saldo devedor; a fatura do cartão e a planilha do meu pai concordam com minhas próprias anotações. Mas emocionalmente, eu sinto como se tivesse pago em triplo!

Não sei qual é a base psicológica para este sentimento. Mas ele existe, conforme eu descobri empiricamente. Eu me considero um cara racional, sempre tive facilidade em lidar com números, conheço matemática financeira razoavelmente bem, e mesmo assim sou afetado. Fico imaginando as pessoas "normais", que controlam seu orçamento doméstico de forma totalmente reativa, que só tomam conhecimento das contas quando aparece o boleto.

Quando ouvimos alguém dizer que "estou sempre pagando mas a dívida nunca acaba!", ou então "já paguei duas vezes o que devia, agora vou dar o calote mesmo!", logo pensamos "ih, olha o velhaco". (Pelo menos eu penso isso. Talvez alguns amigos de esquerda pensem logo no capitalismo selvagem, nos juros abusivos, etc.) A outra coisa que todo mundo já ouviu falar, e a maioria já sentiu na pele inclusive, é a perda de um amigo ou o afastamento de um parente por motivos de dinheiro emprestado. Um fica chateado porque não recebeu, o outro se chateia porque foi cobrado e não se considera mais devedor, e dificilmente o relacionamento se recupera deste impasse.

Talvez haja uma razão psicológica inerente, que faz as pessoas lidarem muito mal com seus débitos. Ou pior ainda: induz as pessoas a contrair dívidas que a) não poderão pagar, e/ou b) causarão stress desproporcional à satisfação antecipada de adquirir o que desejavam.

Ou talvez a explicação não precise ser tão freudiana. O homo economicus pode ser um modelo suficiente para esclarecer este fenômeno. Minhas hipóteses:

a) As pessoas tendem a viver um nível de vida que "come" todo o salário, com uma sobra minúscula de renda discricionária. (Quem economiza 10% do salário não pode considerar-se isento desta tendência. Se você economiza 20% ou mais, aí sim.) A amortização de uma dívida rouba, no mínimo, toda a renda discricionária; e geralmente força uma redução no nível de vida. O pouco dinheiro que sobrava para pequenos prazeres pessoais, desaparece.

É um efeito colateral difícil de prever, afinal de contas a maioria das dívidas pessoais são contraídas para comprar bens pessoais que não produzem renda — bens que servem justamente para reafirmar um nível social. A pessoa se endivida pra "melhorar de vida" mas a vida piora.

b) Sob a ótica da teoria marginalista, o valor marginal do bem adquirido, que motivou a dívida, é necessariamente menor que a soma dos valores marginais dos pagamentos dessa dívida. A teoria marginalista postula que o valor marginal é proporcional ao logaritmo do preço. É meio difícil entender isso num primeiro momento, mas talvez alguns exemplos ajudem.

Um automóvel básico (custo: 20 mil) é muito mais útil que uma bicicleta (custo: 1 mil). Um automóvel de luxo (120 mil) deve ser mais confortável, mas não é realmente mais útil. Para escapar dos congestionamentos, é preciso comprar um helicóptero (500 mil). Para viajar mais longe, é melhor um jato executivo (5 milhões). O "salto de valor" só acontece quando o preço ganha mais um dígito.

E mesmo quem anda de jato continua desejando prazeres básicos que o avião não proporciona — como por exemplo tomar um sorvete do McDonalds. Em termos de satisfação pessoal, de valor subjetivo, é muito melhor comprar um milhão de sorvetes do que um avião.

Agora suponha que Zé dos Anzóis comprou um automóvel de 100 mil. O logaritmo de 100 mil é igual a 5. A compra foi financiada em 100 prestações de 1000 reais cada. O logaritmo de 1000 é igual a 3, e 100 x 3 = 300. Num primeiro momento, Zé dos Anzóis obtém um bem de valor 5, e pelos cem meses seguintes ele perde, todo mês, a possibilidade de adquirir algo de valor 3. A partir da quarta ou quinta parcela, Zé dos Anzóis terá a sensação que está pagando uma dívida já quitada. Nesse ponto, se for uma pessoa impulsiva ou com propensão à desonestidade, Zé dos Anzóis dá o calote.

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