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Resenhas: 'O valor de nada' e 'Breve história da economia'

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2012.01.15

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Acabo de ler dois livros sobre economia: "O valor de nada" (Raj Patel) e "Uma breve história da economia" (Paul Strathern), gentilmente emprestados pelo amigo Luciano Veiga.

Provavelmente ele espera que eu comente os livros. No nosso "círculo do livro" de apenas três participantes, a retribuição tácita ao ato de emprestar um livro é a resenha. Bem, lá vai.

"O valor de nada" eu achei meio palha. Uma catilinária contra o capitalismo e livre mercado, evocando meio-ambiente e justiça social etc. Meio sem foco, começou com a quase óbvia conclusão que preço é diferente de valor, aí abordou o conceito de externalidade. Foi indo, foi indo e acabou tecendo loas ao budismo e ao zapatismo.

Recomendadíssimo pros meus amigos de esquerda, já que vão concordar com cada palavra dele.

Para mim teria sido um livro melhor se ele tivesse se concentrado na questão central: preço versus valor. É óbvio que o preço é uma medida unidimensional, enquanto o valor tem muitas dimensões. É como QI e inteligência: QI alto tende a correlacionar com grande inteligência, mas uma pessoa de QI alto não ser boa em tudo (e.g. o desempenho em escrever poemas, fazer sexo ou cavar uma valeta provavelmente não correlacionam com QI).

Em particular, o autor insistiu muito no conceito que "antigamente havia propriedade comum e os malvados burgueses acabaram com ela quando atribuiram preço à terra". É o velho defeito da visão romântica do mundo pré-capitalista. A terra não tinha preço porque pertencia à nobreza e à Igreja, e quem estivesse fora destas classes era automaticamente um servo, preso à terra sem nunca poder possuir nem um metro quadrado dela.

Outro ponto meio furado foi a insinuação que "se você compra um smartphone está contribuindo para a escravidão nas minas de tântalo e nióbio do Congo". Não sei se os militares do Congo tornar-se-iam bonzinhos instantaneamente se exportassem menos minerais. (A propósito, as maiores reservas destes metais nem estão no Congo.)

O autor tentou defender software livre, colocando-o em oposição a Microsoft etc. etc. Simpatizei com a tentativa porque é a minha praia, mas da missa ele não sabe um terço. Os problemas do software livre são mais intrínsecos (GNU × BSD, essas bossas) do que extrínsecos.

Mas, não foi ruim ler o livro. Ele é muitíssimo bem referenciado, no mínimo serve para expandir a cultura geral sobre o assunto economia. O estilo é leve, agradável, o texto em si é bem escrito.

Eu até concordo pontualmente com o autor. Por exemplo, quando ele afirma que muitos produtos são mantidos em preços artificialmente baixos, descarregando externalidades na forma de subemprego e poluição.

Um item particular, que eu não sei se dou risada ou me preocupo, é a citação de um estudo indiano, que diz que um Big Mac deveria custar 200 dólares, se incluísse todas as externalidades no preço. Eu estou achando que esta conta inclui 150 dólares de danos morais e emocionais, já que as vacas são sagradas na Índia.

Mas não deixa de ser algo a pensar. Se o estudo estimasse 20 dólares, já seria preocupante, afinal as externalidades terão de ser indenizadas, mais cedo ou mais tarde.

O livro abordou bens que custam menos do que valem, e ironicamente eu acho que o livro vale menos do que custa (os típicos 50 reais, no Brasil). Mas, se você conseguir um emprestado, leia.

O outro livro, "Uma breve história da economia", é bem melhor. E realmente "prende" o leitor pelo estilo. (Mas sejamos justos: escrever sobre o passado é mais fácil.)

No estilo, lembrou muito outro livro: "e: a história de um número", pois falou dos personagens tanto no nível pessoal quanto profissional/científico. É interessante ver como a origem e as atribulações pessoais influenciam cada cientista e pensador.

É curioso ver como a ciência econômica evoluiu na esteira dos acontecimentos. Aparece o problema, um pensador acha a solução. Aí as coisas vão bem por um tempo, até que aparece outro problema. O último ciclo destes descrito no livro foi a "estagflação", que Keynes considerava impossível e foi tratada por Milton Friedman. O sucesso dele abriu a era do neoliberalismo.

Infelizmente, o livro foi escrito já faz alguns anos, então ele não aborda o que pode ser o mais novo ciclo: a crise de 2008 e contestação forte do neoliberalismo, talvez o início de um "neo-Keynesianismo" (que inclui em seu bojo o tratamento para a estagflação).

O autor considera que os "três grandes" da economia são Adam Smith, Marx e Keynes. Curiosamente, o festejado Hayek é mencionado apenas uma vez en passant ao falar de Morgenstern, que trabalhou com Von Neumann em questões econômicas.

Eu não conhecia muito da carreira de Keynes, e tinha uma certa "alergia" a ele porque os esquerdistas brasileiros migraram todos da igreja marxista para a keynesiana. Mas foi interessante conhecer sua carreira, e que a ideia de gasto público para estimular a economia era completamente nova nos anos 1930. Uma interessante previsão de Keynes (enquanto observador em Versalhes) foi afirmar que as pesadas indenizações impostas à Alemanha na I Guerra teriam conseqüências ruins.

Finalmente, o livro abre e fecha falando do curiosíssimo Von Neumann, o "Dr. Fantástico" da vida real, para começar, desenvolver e terminar o texto com muito bom humor.

O Rudá mandou-me "A privataria tucana". Em breve, outra resenha :)

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