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Resenha: Sem lugar para se esconder

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2017.10.16

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Nessa altura do campeonato, quase ninguém mais lembra de Snowden, de Assange ou mesmo de Chelsea Manning. Ao menos Manning conseguiu sua liberdade; os demais estão no exílio, e devem continuar assim já que o cetro dos EUA passou do pusilânime para o palhaço.

A torrente atual de más notícias domésticas e mundiais acaba gerando uma nostalgia dos anos 2007-2012. É fácil esquecer quão tumultuada foi a política internacional dessa época, a começar da crise do subprime e terminando com as bombásticas revelações da espionagem da NSA. É sobre este último assunto que o livro versa.

Ler este livro do jornalista Glenn Greenwald refresca a memória, é uma obra que merece estar na sua estante de textos de história. Aliás, mais um bom livro de história (ainda que recente) escrito por um jornalista.

O livro pode ser dividido, grosso modo, em três partes.

A primeira parte narra a fase de contato de Snowden com o jornalista, a desconfiança mútua, os inúmeros estratagemas a fim de evitar a detecção e captura, as rusgas com "otoridades" que ameaçavam todo tipo de censura, até a publicação das reportagens. Podia ser um romance de espionagem no estilo Identidade Bourne, mas foi tudo real.

A segunda parte expõe o material vazado por Snowden. É a parte mais chata do livro, pelo menos para mim porque era a parte da história que eu conhecia melhor, e meio mundo também já conhece, pelo menos em linhas gerais. Mas foi curioso constatar que o NSA usa Powerpoint para tanta coisa... O autor também procura explicar aquelas noções básicas de privacidade, como por exemplo o que são metadados, e a falsidade de frases típicas de políticos: "Quem não deve não teme"; "Coletar apenas metadados não viola privacidade"; etc.

A terceira parte é a mais reveladora. Certamente é contaminada pela opinião do autor, mas é o direito dele. Descreve como grande parte da grande imprensa estadunidense é vaquinha-de-presépio do governo, e como tantos outros países ditos desenvolvidos apressam-se em fazer coro. Certamente porque também têm seus "NSA" que certamente trocam figurinhas com o NSA ianque.

Assim como Snowden e Greenwald previram, a vida de Snowden foi revirada e procurou-se a todo custo pintá-lo como uma pessoa desequilibrada e sequiosa de fama. Não funcionou tão bem, talvez porque o truque já tinha sido exaurido com Manning e Assange? Os jornalistas envolvidos com o vazamento Snowden também foram perseguidos de formas sutis, inclusive revistas e interrogatórios "por seleção aleatória" em seguidas imigrações de aeroportos, inclusive no Brasil.

O mais decepcionante é constatar que tudo isto aconteceu no reinado do Obama, um cara que ganhou um Nobel da Paz por antecipação. O governo Obama processou mais whistleblowers do que todos os governos anteriores somados. A velha desculpa de abuso isolado de autoridade não cola, porque o NSA precisou, pediu e recebeu de quantidades colossais de dinheiro para fazer o que fez.

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