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Resenha do livro Escravidão, volume 1 de Laurentino Gomes

2019.11.01

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

A não ser que você esteja vivendo numa caverna, já deve ter ouvido falar do novo livro, ou melhor, da nova trilogia, de Laurentino "1808, 1822, 1889" Gomes. É um projeto de ordem de grandeza muito maior que os anteriores. Para começo de conversa, o autor visitou pessoalmente diversas cidades e ilhas africanas relacionadas ao assunto, o que envolve muito tempo e dinheiro.

Muita gente criticou o autor, dizendo que ele se rendeu ao politicamente correto. Discordo disso; pelo texto, vejo que ele andou perto desse abismo, mas como disse o velhote do filme Wall Street, teve caráter suficiente para não pular no abismo. Alguns revisionismos do politicamente correto são citados e até servem de alívio cômico — por exemplo, a alegação do ativista gay Luís Mott que Zumbi teria o apelido de "Sueca", por efeminado.

Os motivos pelos quais a escravidão lança sombra até hoje sobre os brasileiros, principalmente sobre os de pele escura, já tinham sido bem explorados por literatura mais antiga, como o clássico livro de Caio Prado Jr.

O Laurentino vai numa direção um pouco diferente: sua tese central é que a escravidão de africanos foi "o principal" fato histórico do Brasil; não apenas "um dos principais". Para corroborar a tese, Laurentino Gomes procura demonstrar que o processo de escravização foi trágico, mas grandioso.

As ilhas de São Tomé e Príncipe foram o laboratório onde os portugueses fizeram a inédita combinação de mão-de-obra escrava e agricultura em larga escala. Além de aperfeiçoar a cadeia da escravidão, as ilhas foram palco de um enorme experimento biológico, onde animais e vegetais de todos os continentes foram cultivados, selecionados e aclimatados aos trópicos.

Os resultados desse trabalho colocam, até hoje, muita comida na nossa mesa: banana, feijão, inhame, cana-de-açúcar e seus derivados, cacau, etc. Até para a mãe-África sobrou alguma coisa: a mandioca foi aclimatada daqui para lá, tornando-se importantíssima fonte de calorias.

Estas e outras observações encontráveis no livro permitem enxergar a questão da "dívida histórica" por um ângulo diferente.

Desde os abolicionistas, a questão é colocada como um copo meio-vazio: tem uns negros por aí, sem cultura, sem profissão, que alguém trouxe da África há séculos atrás para viabilizar um sistema econômico latifundiário e ineficiente. Ainda que não sejam culpados disso, sua presença nos lembra diuturnamente que o Brasil começou errado e continua dando errado. E agora eu, desta geração que não tem nada com isso, tenho de resgatar essa dívida?! Pagar dívidas é, por si só, psicologicamente estressante, não interessa quão valioso ou querido tenha sido o bem financiado.

Mas há subsídios para enxergar o copo meio-cheio: o negro trabalhou as culturas que hoje nos alimentam; viabilizou com seu trabalho o Brasil-colônia; junto com o índio, ajudou por vias transversas a manter a nossa integridade territorial. Do pouquíssimo que se permitiu ao negro trazer da sua cultura, é de onde sai o que temos de culturalmente original, como é fácil constatar na música.

Permanecemos devedores porque permanecem os credores e porque permanecemos usufruindo os benefícios da contração desta dívida; e deveríamos ter prazer em pagá-la, e mesmo alívio pela relativa facilidade de pagá-la nesta época de abundância, facilidade que não havia na época dos abolicionistas.

Acho que me empolguei um pouco, e falei relativamente pouco do livro. Apenas vá, compre o seu exemplar e leia.