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Resenha: A espiral do morte, de Claudio Angelo

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2016.05.05

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

A narrativa da esquerda-Borg é que, antes de 2003, "a terra era vazia e sem forma" no Brasil. Com uma ponta de temor de dar munição a essa colméia, observo um salto qualitativo no Brasil desde os anos 1990: o número de livrarias, de gente interessada em leitura, e do surgimento de uma leva de bons escritores brasileiros.

Nessa onda, vem um excelente livro, "A espiral da morte", de Claudio Angelo (editora Companhia das Letras). O assunto do livro é a mudança do clima causada por fatores humanos. É um excelente texto introdutório sobre o assunto, escrito de forma muito agradável e divertida de se ler.

O autor não só entende muito do assunto como também viajou para alguns lugares dos quais fala, e que são os "canários" da mudança do clima, como Groenlândia e Antártica. Os aspectos humanos, negativos e também positivos que o clima provoca nesses lugares também são muito bem cobertos.

O autor dá atenção especial ao trabalho de alguns pesquisadores brasileiros e também à missão brasileira na Antártica. Isso não constitui defeito, afinal o autor é brasileiro e é importantíssimo que "o homem comum" tenha conhecimento do trabalho árduo, importante e pouco divulgado desenvolvido por brasileiros. Espertamente, o autor menciona que o custo de apenas um estádio da Copa (que ficou lá inútil depois do evento) foi maior do que todo o dinheiro já gasto na missão polar!

Além do mais, pode não haver geleiras derretendo em cada esquina no Brasil; mas as conseqüências das mudanças climáticas serão funestas por aqui. Antes do mar finalmente subir e destruir as cidades litorâneas (que concentram a maior parte da população brasileira), nossa agricultura será dizimada por secas e oscilações de temperatura. E, pra variar, o Nordeste ficará ainda mais seco.

De um ponto de vista didático, o texto demonstra cabalmente que a associação entre queima de combustíveis fósseis e mudança climática não é nova, nem é invenção de hippies maconheiros de esquerda. O matemático Fourier (aquele mesmo da Transformada de Fourier) descobriu já no século XVIII que a Terra seria 20 graus mais fria sem o efeito estufa. O químico Arrhenius (aquele do "ácido de Arrhenius" dos livros de química do colegial) estabeleceu já no fim do século XIX a relação entre concentração de CO2 e temperatura média do planeta.

O autor também explica como escavações no gelo ártico e o estudo de estalactites de cavernas permite saber como era o clima terrestre em outras eras. Em particular, esses "testemunhos" mostram que as variações climáticas podem ser bruscas, basta que um "gatilho" seja pressionado. Mesmo em épocas em que a humanidade nem existia, a Terra esquentou ou esfriou vários graus no espaço de uma década.

Então, considerando o número de gatilhos que a atividade humana tem pressionado, algo assim pode (ou vai) acontecer a qualquer momento, e seus efeitos serão sentidos mesmo depois da extinção da humanidade.

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