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FEBEAPÁ e o humorista Sérgio Porto

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2012.08.30

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

"Nossa, o epx leu o febeapá" — gwm

"O epx presume que todo mundo conhece o febeapá" — ruda

FEBEAPÁ, sigla que lembra vagamente a de uma estatal (*) quer dizer "Festival da Besteira que Assola o País". O humorista Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte-Preta, lançou três "edições", conhecidas como Febeapá I, II e III, nos anos de 1966, 1967 e 1968, respectivamente.

É basicamente sátira política em cima do regime militar. O autor foi colecionando notícias, temperou com comentários sarcásticos e entremeou com algumas crônicas.

Exemplo de notícia que Porto explorou: um vereador destruiu a gráfica do jornal XYZ por conta de uma propaganda, onde figurava um burro e a frase "Ele não lê. Não seja como ele. Leia jornal XYZ". O nobre vereador (que realmente não lia o jornal) entendeu que era o alvo da charge.

Outra: o INPS (INSS da época) teria baixado uma norma exigindo que as grávidas agendassem partos com 300 dias de antecedência. (A gestação média é de 270 dias.)

Ainda na área da saúde, teria dito o ministro da pasta que o cigarro é tão perigoso, que todo fumante morre de câncer de pulmão se não morrer antes de outra coisa. (Realmente!)

Mesmo nas crônicas, a priori fictícias, o autor não cochilava na crítica à "'redentora' que salvou o Brasil do comunismo".

Por exemplo, se um personagem entra num elevador, ai dele, porque a luz fatalmente vai acabar, e a culpa é do "Almirante da Light" — imagino que botaram um almirante para tomar conta da companhia de eletricidade. Se outro vai à feira, tome inflação e escassez. E por aí vai.

Mesmo que a maioria de nós não tenha lido o Febeapá, muito do conteúdo acabou entrando para a cultura popular, e soa muito familiar. Muitas das piadas que contamos hoje em dia (como esta) têm origem nas crônicas do Febeapá.

E sim, foi em homenagem ao Sérgio Porto que eu batizei de Febeapá o meu gerador de nomes de repartições públicas. As eleições estão aí, o número de acessos desta página subiu bastante. Os candidatos a prefeito devem estar fazendo bom uso, afinal as coligações estão ficando compridíssimas a reboque da polarização PSDB–PT.

Saiu esses tempos uma reedição dos Febeapás, todos os três encadernados num mesmo livro, mais alguns extras como "A máquina de fazer doido" — uma catilinária contra a televisão, que na época era novidade. Compre o livro, você não vai se arrepender. Vai se divertir e ainda vai aprender um bocado sobre a pequena história da época.

Um outro motivo pelo qual o Febeapá vai soar familiar, é que o governo continua a ser rico manancial de piadas. Basta ser um leitor assíduo da Folha para notar. A relação do governo com esta mídia crítica também não mudou muito. Mas isto é uma constante no tempo e no espaço — a piada do mês de Agosto de 2012 é o senador estadunidense que afirmou que mulher estuprada não engravida!

É claro, tem uma coisinhazinha diferente: Sérgio Porto corria risco de ser preso ou morto pelo que fazia. No Brasil de hoje em dia, não tem ocorrido nem mesmo perseguições de cunho legalista (como hay na Argentina). Devemos valorizar a democracia que temos; é privilégio de poucos povos.

Ainda outra coisa que vai soar incrivelmente atual: a crítica de Porto à televisão. Continua a mesmíssima "meleca".

A produção de Sérgio Porto não se limita a este compêndio. Era basicamente um faz-tudo do mundo artístico, escrevia de roteiro de TV a música de carnaval.

Famosíssimo é o Samba do Crioulo Doido, composto em resposta (ou represália) a um regulamento exigindo que as marchinhas de Carnaval tratassem apenas de fatos históricos. A música é toda nonsense, lá pelas tantas afirma que Dom Pedro II proclamou a escravidão. E pespega na Central do Brasil o famoso mote "o trem tá atrasado ou já passou"... que pelo que ouço falar da SuperVia, ainda é verdadeiro. Por esta, nem Sérgio Porto esperava!

(*) sim, isto foi uma ferroada em você esquerdista :)

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