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2019.04.29

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Esta é a resenha de dois livros, um presenteado no Natal pelos pais, outro pelo amigo LVR. O primeiro é "Wiston Churchill: Uma Vida, Vol. I" de Martin Gilbert. Não é difícil adivinhar que se trata de uma biografia do famoso político inglês. O segundo é "O Clique de 1 Bilhão de Dólares" de Filipe Vilicic, que é uma semi-biografia do brasileiro Mike Krieger, fundador do Instagram e atual bilionário do Vale do Silício.

Os dois biografados têm alguma coisa em comum, então vão de embrulho. São exemplos de quão longe uma pessoa pode ir quando quatro fatores confluem: berço de ouro, formação sólida, QI e uma personalidade "redonda", que alguns chamariam de inteligência emocional, outros de ecletismo.

Churchill é contemporâneo de Getúlio Vargas, que aliás foi outro exemplo desta confluência. Era uma época quem que os "grandes homens" eram, assim como os príncipes da época imediatamente anterior, impelidos ao serviço público, à caserna e à política. Óbvio que nisto estava embutida uma manutenção de privilégios da sua classe pela captura do Estado, mas também era esperado que fizessem muito pelo país como um todo. Como se sabe, Churchill e Getúlio corresponderam a esta expectativa.

Churchill é conhecido como um político conservador, fama reforçada por produções culturais como Peaky Blinders. A biografia esclarece que não era beeeem assim. Certamente não era um revolucionário, mas desde cedo foi defensor de direitos trabalhistas, seguridade social e saúde pública, numa época em que nada disso existia na Inglaterra. Era um conservador que não era cego ao óbvio, e estava atento a bons exemplos como a Alemanha de Bismarck, que construiu um inédito welfare state entre 1883 e 1903.

Pode ser um artifício da biografia, mas diversos episódios constroem uma imagem de "corpo fechado" para Churchill. Tendo escapado da morte diversas vezes em guerras e em outros episódios, até mesmo brincando com uma colmeia sem ser picado pelas abelhas enquanto todo mundo em volta era atacado pelos insetos, dão aquela sensação de que o cara era predestinado.

Por outro lado, a história de Mike Krieger é um típico conto-de-fadas do Vale do Silício. Frequentador de escola bilíngue desde a infância, com professores estadunidenses, sendo portanto preparado desde o início para ser um cidadão do mundo e transitar com naturalidade na maior economia do planeta. Bom aluno sem ser o típico nerd, tocava violão, redigia o jornalzinho da escola, fazia vídeos de paródia. Era um cara "multimídia", uma qualidade essencial para engendrar e lançar um app no estilo Instagram.

Fica claro que, apesar da maioria de nós ver o mundo startup como uma espécie de loteria, em que as chances são pequenas mas "qualquer um" pode se dar bem, na prática a teoria é outra. O talento dos envolvidos em unicórnios é monstruoso; são pessoas que poderiam se dar bem fazendo qualquer coisa na vida. Muitos diriam que, socialmente falando, seriam mesmo mais produtivos em outros ramos. (A última parte do livro fala um pouco dos riscos e mazelas das redes sociais.)

Também há o fator "lugar certo na hora certa": via de regra os fundadores de unicórnios se conhecem todos, e desde muito antes de virarem bilionários. (O outro fundador do Instagram foi cortejado pelo Zuckerberg em pessoa para ir trabalhar no Facebook — o que acabou mesmo acontecendo, quando o Instagram foi comprado. Só custou um pouquinho mais caro.) Dentro da mesma bolha também residem os imprescindíveis investidores de seed capital, que não raro são domadores de unicórnios de eras passadas e entendem bem as apostas que estão fazendo.

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