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Resenha: A ditadura acabada (e outros) de Elio Gaspari

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2016.06.15

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Yes! O último tomo da série do Elio Gaspari sobre a ditadura finalmente chegou nas livrarias. Sou grande fã desse trabalho do jornalista, já reli inúmeras vezes os primeiros 4 livros, é como rever um grande filme, não enjoa fácil e sempre emerge algum detalhe que não tínhamos prestado atenção antes.

É interessante notar que outros grandes livros sobre a história do Brasil — me vem à cabeça a trilogia "Getúlio" de Lira Neto — tenham sido escritas por jornalistas, o que se traduz num texto agradável, ritmado, que diverte além de informar, e alicerçado num vernáculo da melhor qualidade. Elio Gaspari teve duas vantagens adicionais: viveu mais ou menos intensamente o período sobre o qual escreveu, tanto pela idade quanto pela profissão.

A série completa é composta pelos seguintes livros: "A ditadura envergonhada" (1964 até o AI-5), "A ditadura escancarada" (AI-5 até a aniquilação da guerrilha do Araguaia), "A ditadura derrotada" (primeira parte do mandato de Geisel, além de uma breve biografia de Geisel e Golbery), "A ditadura encurralada" (segunda parte do mandato de Geisel), e finalmente "A ditadura acabada" cobre a transição para o governo Figueiredo e dali para a redemocratização.

Dos 5 volumes, considero o primeiro o melhor, porque mostra o cenário caótico da véspera do golpe militar, e também explica aquilo que Brizola chamava de "golpe dentro do golpe", onde o regime militar saiu das mãos do "grupo da Sorbonne" — generais relativamente instruídos e moderados — para as mãos atrapalhadas de Costa e Silva. A radicalização do regime foi então praticamente inevitável, mais como doença autoimune do que uma resposta à guerrilha de esquerda.

Os volumes 3 e 4 constituem o núcleo do trabalho de Elio Gaspari, que fez longas entrevistas com Geisel, e pretendia escrever apenas sobre ele, mais especificamente como os generais Geisel e Golbery participaram do golpe de 64 para, em 75, começarem a trabalhar no desmonte do regime que ajudaram a criar. Para quem se interessa especificamente pela biografia do primeiro presidente não-católico do Brasil (ok, o primeiro mesmo foi Café Filho, de escassa relevância histórica, enquanto Geisel aprovou a Lei do Divórcio, o que só foi possível porque o presidente não estava nem aí para a Igreja Católica), ou do general Golbery (outra figura interessantíssima, um intelecto privilegiado que se daria bem no mundo em qualquer lugar ou época) o volume 3 é a pedida.

Para ser honesto, este último volume (A ditadura acabada) eu não achei tão bom quanto os outros. Na introdução de um dos volumes anteriores (preciso procurar em qual) Gaspari diz claramente que não escreveria sobre o período pós-1977 porque não o achava interessante. Mas, num volume posterior, aparece a promessa de um quinto livro, certamente motivada pelo sucesso comercial da série e também porque ela virou uma espécie de "fonte primária" de informação sobre o regime militar, estravasando muito a intenção original de narrar a saga Geisel-Golbery. Seja como for, o menor interesse de Gaspari em Figueiredo transparece no texto. Se não contarmos o epílogo ("500 vidas") que ocupa quase um terço do livro, o período 1978-1985 é coberto por apenas 300 páginas.

Ou talvez a comparação seja injusta, porque a comparação parte de um patamar altíssimo, estabelecido pelos quatro primeiros tomos.

Ainda assim, o texto é muito bom e conta de forma muito documentada um período muito difícil para a economia brasileira: o início dos anos 1980. Nesse tempo eu já tinha 7 anos, então os fatos narrados já fazem soar os sinos da memória. Como ouvi esses dias, "a história não se repete, mas ela faz rimas". Verbi gratia a economia contraiu 4% dois anos seguidos, depois de vários anos de crescimento robusto e mais dois anos de marcha forçada que tentaram mascarar os problemas, dobrando a aposta numa melhora do cenário internacional que acabou não acontecendo. Soa familiar com 2014-2016?

Digno de nota também é a narrativa do processo que produziu o presidente Tancredo Neves. Ele foi escolhido mais ou menos dentro do costume do regime, onde cada general-presidente determinava monocraticamente o seu sucessor. Maluf nunca teve chance real de ser presidente. Os manda-chuvas militares e civis, de Figueiredo a Geisel ao malvado ACM, trabalharam para que Maluf vencesse as prévias do PDS/Arena, justamente porque sabiam que ele não teria chance na eleição indireta. Um candidato como Andreazza poderia dar trabalho, pois era conhecido por tirar leite de pedra, tocava obras apesar da crise. Delfim Netto teria sido um candidato ainda mais forte, não fosse a lambança na economia.

E, para quem gosta, também está narrado o processo que projetou Lula na política nacional. Já naquela época era um negociador habilidoso, com argumentos perfeitos, que evitavam espertamente atiçar as alergias do regime militar (como faziam o movimento estudantil e os comunistas).

Mais livros

Ler esta série, que comecei a comprar livro por livro em 2005, estimulou-me a adquirir diversos outros materiais sobre o regime militar, e considero que tenho uma coleção razoável. Alguns livros eu inclusive já resenhei, como este, este e este.

Dois livros muito bons, em primeira pessoa: "O que é isso, companheiro?" do Fernando Gabeira, e "Os Carbonários" de Alfredo Sirkis. Curiosamente, estes dois protagonistas das ações terroristas mais bem-sucedidas da guerrilha têm opiniões muito equilibradas e temperadas com autocrítica a respeito dessa época. Também muito bom é o "Roleta Chilena" do Sirkis, que fala sobre o golpe militar do Chile em 1973, mas dá uma boa ideia do clima nervoso da época, no subcontinente inteiro. Como o "Roleta Chilena" não teve edições recentes, ele conserva as gírias e o sentimento original do escritor, coisas que foram "retificadas" n'Os Carbonários, segundo informa o próprio autor no prefácio da edição mais atual.

O livro "Operação Araguaia" de Eumano Silva é bem grosso e só trata da guerrilha do Araguaia, então é uma boa pedida para quem se interessa por esse episódio. Não é tão agradável de se ler, e o volume de informações (nomes, mapas, datas) faz perder o ritmo. Mas faz as vezes de "material definitivo" sobre o assunto.

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