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Resenha de livro: Geração do Deserto, de Guido Wilmar Sassi

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2016.05.14

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Este é um livro bastante antigo; a primeira edição é de 1964. Até o autor já faleceu, em 2003. Com a ressurgência do interesse na Guerra do Contestado, o livro tem obtido mais atenção, a ponto de ser um dos textos cobrados no vestibular UDESC/UFSC de 2012.

É uma obra de ficção, porém com um pano de fundo histórico real, e situações bastante verossímeis, certamente baseadas em fragmentos de "causos" reais. O processo que destilou o caboclo do Contestado, convertendo-o pouco a pouco numa malta de jagunços, é mostrado em toda a sua progressão.

Também é possível ver a transição de um lugar inexplorado — onde os desmandos infinitos dos coronéis locais eram amortecidos pelo tamanho aparentemente infinito da terra, onde os caboclos fugidos podiam adentrar um pouco mais, sempre que sentiam-se ameaçados ou descontentes. Até o dia em que o progresso e a evolução tecnológica encarnada no trem de ferro traçaram linhas nessa terra, fazendo todo mundo ver que ela tinha tamanho finito, e donos demais para terra de menos.

O ponto de vista do texto é quase sempre o dos caboclos, com um e outro corte para discussões entre a elite sobre a questão de limites entre PR e SC.

O caboclo não é idealizado; o texto tem bom equilíbrio entre demonstrar as injustiças cometidas contra eles e também suas limitações e inevitáveis fraquezas humanas. Em determinada altura da guerra, praticamente todas as mulheres já eram viúvas, e recusavam investidas sexuais pois o monge tinha prometido que seus maridos ressuscitariam. O líder dos caboclos avisou às viúvas que almas dos maridos mortos viriam à noite para satisfazer-se sexualmente; para isso, deveriam manter-se na mais completa escuridão. Às que reclamaram que o visitante noturno tinha sido na verdade um homem vivo, era aplicado o chicote, até que se "desmentisse".

O nome do livro deriva da comparação que os caboclos (dentro do romance) faziam entre si mesmos e a travessia do povo judeu pelo deserto do Sinai em busca da terra prometida.

Por uma coincidência cronológica, os caboclos associavam todas as mazelas à República. Somando-se isso à profunda religiosidade dos caboclos, da Monarquia cuja religião oficial era a católica contra uma República de inspiração positivista, os revoltosos do Contestado chegaram à mesma conclusão que os "fanáticos" de Canudos: a restauração da Monarquia era a solução a ser perseguida. Isso os colocou na alça de mira, pois as memórias da Revolução Federalista ainda eram muito recentes.

Filme: "A guerra dos pelados", de Sylvio Back

Apesar da pouca atenção dada ao livro até há pouco tempo, ele conseguiu virar filme já em 1970. O nome do filme, "Guerra dos Pelados", vem do apelido que os caboclos deram a si mesmos, "pelados" por rasparem toda a cara, em contraposição aos soldados "peludos" que tendiam a usar bigodes e barbas.

O filme pode ser encontrado facilmente no YouTube. Isso é pirataria, mas acho que ninguém está se incomodando... Os filmes brasileiros até os anos 1990 são muito mambembes. Dentro desse contexto, "A guerra dos pelados" está bem acima da média.

A película trabalha uma parte limitada do livro — mais ou menos a parte do meio, se dividíssemos o texto em três partes. Como um filme tem de entreter, muita atenção é dada a aspectos românticos e romancescos do livro, como o doido Nenê (interpretado por Stênio Garcia, o ator mais prontamente reconhecível) que vai enfrentar o "dragão de ferro" que anda sobre trilhos, munido apenas de uma espada de madeira, sonhando com isso conquistar o direito de casar com a "virgem" e "médium" Maria Rosa.

Como é de se esperar de um filme brasileiro, tem muitas "comunistadas" inexistentes no livro. A suposta aliança entre coronéis locais e "gringos da Lumber" é muito sublinhada (na realidade eles conflitavam porque supunham-se donos da mesma terra, cedida em duplicidade pelos governos estadual e federal a uns e outros). O caráter supostamente coletivo e fraternal dos caboclos tem foco contínuo. Dado que o terço final do livro fica de fora da tela grande, evitou-se automaticamente os lamentáveis excessos decorrentes da "guerra total", como a reciclagem sexual das viúvas, que citei antes. A cena em que um coronel açoita empregados e passa sal grosso para curar as feridas (e, de quebra, torturar mais) tem origem no livro, mas no livro era castigo aplicado entre os próprios caboclos por crimes como roubo ou adultério. A forte cena onde o Exército manda mulheres e velhos rendidos cavar sua própria cova, não existe no livro.

Por outro lado, é surpreendente que tenha sido possível produzir e lançar esse filme em plena ditadura militar — não sem muitas peripécias, como conta Sylvio Back em entrevistas. Uma possível razão é que o Exército é retratado com relativa bonomia no filme; o único oficial com falas é baseado no capitão Mattos Costa, que considerava que os caboclos estavam apenas reagindo à espoliação e tentou uma solução negociada até morrer em combate.

De maneira geral, e diferentemente de Canudos e mesmo do Araguaia em 1971, os oficiais que combateram no Contestado declaravam abertamente que os caboclos tinham sua dose de razão. Porém predominaram os "ventos do progresso": interesses econômicos da elite e do governo, desejo de ocupação formal em função do olho-gordo da Argentina (que, entre outras pretensões territoriais estapafúrdias, alega até hoje ser dona do Pólo Sul), e um medo difuso da "restauração da monarquia" que Floriano Peixoto incutiu profundamente, mencionando-o inclusive na sua carta-testamento.

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