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O bom fascista

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2013.10.22

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Desta vez eu criei vergonha na cara e comprei dois livros: os dois primeiros tomos de "Getúlio", biografia escrita por Lira Neto. O terceiro tomo deve ser lançado ano que vem.

O Brasil é um lugar cheio de idiossincrasias. Foi o único país governado por um regime fascista que saiu, no cômputo geral, melhor do que entrou.

É claro, isto deve-se ao caráter do nosso ditador "benevolente", Getúlio Vargas.

O monumental trabalho de Lira Neto é a rigor uma biografia, mas também é um excelente livro de História cobrindo desde o final da República Velha até os anos 1950. É um período da História que a maioria de nós só conheceu nas enfadonhas aulas do primário, e quem tem aproximadamente a minha idade certamente sofreu com livros "dopados" pela censura.

Na verdade, devido à influência de Getúlio Vargas e dos acontecimentos da época sobre o Brasil atual, é realmente difícil a qualquer historiador permanecer neutro. Até mesmo nossa política é basicamente dividida entre os herdeiros do getulismo e os respectivos detratores.

Getúlio inventou o Brasil atual: governo federal centralizador, indústria local relativamente forte, protecionista, trabalhista, uma cultura incomodada com a própria pluralidade.

Mas ninguém pode dizer que ele teve medo de tentar novas abordagens. Uma das primeiras — e chocantes — providências dele como governador do Rio Grande do Sul foi homologar elementos do partido de oposição que tinham ganhado a eleição. Por incrível que pareça, isto era anátema na República Velha — as eleições eram sistematicamente fraudadas.

É claro que isto não foi só por honestidade. Com esta jogada, Getúlio granjeou o respeito e, a seu tempo, o apoio dos políticos de oposição dos pampas.

Como pessoa, Getúlio Vargas era um luminar, além de político exímio e precoce. Uma pessoa extremamente inteligente que teve a sorte de nascer em berço de ouro e família politicamente influente, o que abriu-lhe os caminhos.

Assim como o positivismo deu gênese ao fascismo, o fascismo de Getúlio tinha raízes profundas no positivismo gaúcho de Júlio de Castilhos. Além do mais, "fascismo" e "ditadura" não eram palavrões no início dos anos 1930. Existia uma crença generalizada que governos fortes, centralizadores e a supressão da política tradicional e da própria democracia seriam a cura para todos os males.

De certa forma a Era Vargas é uma boa definição de fascismo, já que a palavra hoje em dia é usada de forma bastante indiscriminada, servindo para rotular desde policial truculento até político da oposição. Na teoria, o fascismo é consistente, os problemas aparecem na implementação. (Já o nazismo é natimorto mesmo enquanto teoria política, porque adota o axioma da eliminação dos "inferiores".)

As arbitrariedades e violações de direitos humanos, cometidas desde o início de 1930 (não apenas durante o Estado Novo) não ficam devendo em nada ao regime militar, de modo que continua causando-me estranheza a veleidade com que os getulistas atuais abordam esta questão.

Por outro lado, ficou claro que uma das principais sustentações de Getúlio no poder era justamente o poder militar. No geral os militares sempre estavam a pedir pelo endurecimento do regime, além de serem em sua maioria germanófilos e anti-americanos. O general Góes Monteiro (que comandou a marcha revolucionária até a Batalha de Itararé, a "batalha que não houve") foi quase uma eminência parda durante os 15 anos da Era Vargas e foi quem afinal tratou de derrubá-lo.

Getúlio foi um bom fascista porque, em seu íntimo, não tinha muitas certezas absolutas, exceto talvez sua fé num Executivo forte central. Por exemplo, ele adiou ao máximo comprometer-se com Aliados ou Eixo, procurando jogar um contra o outro e "levar a taça" da indústria siderúrgica. Adiando ao máximo qualquer decisão, normalmente ele conseguia enxergar com mais clareza. No caso do Eixo, já tinha ficado bem patente que o nazi-fascismo queria é tocar fogo no mundo.

Houve considerável resistência dos Estados, e de suas populações, contra o centralismo de Vargas. Esta eu considero a herança mais polêmica da Era Vargas.

Pessoalmente, considero que ela "anestesiou" o Brasil, levando à passividade do nosso povo e em particular da dita elite — apenas os recentes protestos foram ponto fora da curva. Até os anos 1930, cada ingerência do governo federal custava uma guerra civil.

A própria revolução de 30 começou no Rio Grande do Sul porque um governador do Nordeste foi assassinado. Se fosse hoje, o acontecimento seria motivo de piada entre os sulistas.

A maior herança da Era Vargas foi, sem dúvida, a industrialização, que incrivelmente foi mantida pela ditadura militar (como bem apontou Alon Feuerwerker, nossos generais foram sui generis neste ponto, comparados aos demais golpistas da América Latina). É indiscutível que Getúlio teve visão além do alcance e é de certa forma é uma ironia que o processo beneficiou São Paulo acima dos demais Estados, sendo que SP era justamente onde Getúlio mais encontrava resistência política.

É claro que Lira Neto tem de dar um toque romântico e trágico aqui e ali para dar graça ao texto. Um padrão que se repete algumas vezes nos dois tomos é uma suposta tendência suicida de Getúlio. Não apenas ou estritamente suicida, mas sim de jogar tudo numa mão de cartas. Em diversos momentos decisivos da política, Vargas teria escrito bilhetes de suicídio e embolsado um ou até dois revólveres, just in case. Muitos episódios de vida ou morte envolvendo a família Vargas são mencionados provavelmente com o mesmo intuito de emoldurar o derradeiro ato político do presidente.

Então é isto, os livros de Lira Neto estão recomendadíssimos. (Os amigos da Guilda sintam-se à vontade para requisitar os volumes emprestados.) Estou ansioso pelo terceiro tomo.

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