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O ocaso do bom fascista

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2014.08.19

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Finalmente saiu o terceiro tomo da biografia "Getúlio", de Lira Neto. Comprei um dos primeiros exemplares disponíveis, depois de procurar em algumas livrarias de Campinas.

Como se o autor tivesse lido minha resenha dos tomos 1 e 2, desta vez ele esclareceu logo no começo do texto que vislumbra a tendência suicida (ou mais precisamente de auto-sacrifício) em diversos eventos ao longo da vida do presidente.

Ficou realmente patente o quanto Getúlio Vargas decaiu depois de ser deposto em 1945. O livro pega carona nesta linha; a própria foto escolhida para a capa do livro, de um Getúlio envelhecido e não-sorridente, induz a esta sensação.

Foi eleito senador em 1946, mas ficou quase continuamente de licença, pois era alvo diuturno de discursos inflamados. Não renunciava de vez pois o mandato parlamentar era um "seguro" contra eventuais perseguições. O que não faltava era gente disposta a perseguí-lo e criticá-lo. Havia muitas contas da época do Estado Novo por ajustar, e outros motivos menos louváveis.

Getúlio viveu uma situação análoga ao lulopetismo atual: tinha (ou pensava ter) o apoio da classe trabalhadora enquanto era continuamente malhado pela imprensa e pela dita "elite". Assim como hoje, os antigetulistas (com telhado de vidro bem fininho) adotaram a moralidade administrativa como bandeira, fazendo seguidas denúncias de corrupção.

Alguns (principalmente os petralhas) enxergam aí uma justificação: os inimigos de Getúlio eram tão corruptos quanto ele, mas Getúlio "roubava pro batalhão", usava a corrupção para manter colado um sistema que, no cômputo geral, era bom para o povo. E quem criticava, era anti-povo. Simples assim.

Nem preciso dizer o quanto eu desprezo esta tese. Aplicar esse rótulo "anti-povo" à qualquer crítica é fascismo, #prontofalei. E fazer política desse jeito dá gênese aos "salvadores da pátria" como Carlos Lacerda, Collor, etc. Os santos-do-pau-oco da moralidade não teriam platéia se o país fosse menos burocrático, menos corrupto e menos povoado de marajás. (Marajás, privilégios ao funcionalismo público, etc. para mim não passam de "corrupção honesta", corrupção com chancela da lei.)

Mas pelo menos Getúlio tentou inovar, tentou governar sem apelar novamente à ditadura. Entre Getúlio e Carlos Lacerda, não apareceu muita novidade na política brasileira desde então.

Há de se ressaltar que Getúlio, ele mesmo, era totalmente honesto e tão pouco preocupado com dinheiro que chegou a passar dificuldades financeiras. Talvez ele (e outros) acreditassem que isto validava o modelo.

A fé de Gegê no desenvolvimentismo e descrença no liberalismo fizeram-no adotar posições políticas pra lá de pragmáticas, como apoiar o General Dutra (que lho tinha apeado do poder) na eleição de 1946, e deixar-se lançar candidato a presidente em 1950 por ninguém menos que Ademar de Barros (o primeiro governador "rouba mas faz" de São Paulo). Tudo isto para bloquear o caminho de Eduardo Gomes, o Brigadeiro, sempre bonito e solteiro (e nominada besta-fera do liberalismo).

No fim as manobras não deram o resultado esperado, já que Dutra adotou uma política de "abertura descontrolada" do mercado (palavras do autor) que consumiram rapidamente as reservas cambiais brasileiras. Esperava-se que o Brasil fosse contemplado com algo semelhante ao Plano Marshall, o que afinal nunca aconteceu. A rápida piora do cenário fez o povo, e a própria elite, desejarem a volta rápida do ex-ditador do Estado Novo.

O suicídio de Getúlio Vargas costuma ser debitado na conta do jornalista Carlos Lacerda, mas o fato é que inúmeras outras revelações erodiram sua posição e forçariam uma licença ou renúncia. O próprio Getúlio, confrontado com os fatos, teria mencionado que corria um "mar de lama" sob o Catete, vergando-se afinal à célebre metáfora cunhada por Lacerda.

Pairam muitas dúvidas sobre a gravidade e mesmo sobre a veracidade do atentado da Rua Tonelero, mas o "Anjo Negro" tinha uma longa lista de pecados. Coisas do tipo intermediar guias de importação mediante propina. Como uma pessoa tão próxima do presidente tinha liberdade para fazer essas coisas? A pergunta está no ar desde então.

Aliás, é interessante como esse modelo de intervenção na economia sempre vai à breca do mesmo jeito. Explicando melhor com um exemplo: a fim de controlar importações, priorizar itens mais importantes e poupar divisas, foi criado um setor no Banco do Brasil, chamado CEXIM. O efeito prático foi exatamente o oposto: o volume das importações dobrou e as guias só eram emitidas mediante propina.

Como os militares estavam se preparando para depor Getúlio — não sendo esta a forma mais escorreita de lidar com problemas políticos — e Getúlio lançando mão do suicídio para remexer a política por mais uma década no mínimo, o ex-ditador conseguiu transportar a sua notável dubiedade — herói ou vilão? — para o além-vida.

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