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Greta e eu

2019.12.19

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Esse auê em torno da Greta Thurnberg diz muito sobre o mundo pós-verdade em que vivemos. A imprensa enche artificialmente a bola dela, os esquerdinhas querem canonizá-la em vida, os bolsominions se borram de medo dela e ficam tentando demonizá-la. Lembrando que divinizar e demonizar é a mesma coisa, apenas troca o sinal.

Apesar disso, o Bolsonaro foi o que chegou mais perto de resumir o que ela é: uma pirralha.

Ela tem o coração no lugar certo, tem o direito de ser ativista de alguma coisa. Escolheu uma modalidade de ativismo que é tão correta, tão impossível de refutar, que chega a ser careta. Verbi gratia: aquecimento global é uma realidade, não precisa ser cientista pra constatar, basta olhar pro termômetro. No plano econômico, todas as armas convencionais de crescimento já estão sem bala, no mundo todo. No plano social, todo mundo está de saco cheio de morar numa cidade cheia de automóveis, sem espaço para pedestres e bicicletas.

Por outro lado, a Greta tem sua cota de contradições, como toda pessoa tem. Nasceu e vive num país desenvolvido. Qual é o PIB per capita da Suécia? Goste-se ou não, essa é a medida do impacto ecológico de cada pessoa sobre o planeta.

Acho engraçado o pessoal achar bonitinho quando ela fala que os jovens querem um mundo melhor e os "velhos" são responsáveis por todos os problemas. Isso não passa de uma tautologia. Mas isto eu nem boto na conta da Greta. Boto na conta dos fabricantes de factóides.

A Greta diz ter a hoje famosa Síndrome de Asperger, um tipo de autismo leve que costuma ser acompanhado de QI elevado. Provavelmente eu teria sido diagnosticado com esse negócio quando criança, se já houvesse o conceito de doença mental subclínica na época. Características dos "aspies": interesses extremamente focados em poucos assuntos. Pouco jeito no trato com outras pessoas, que passa a imagem de arrogância. E as vezes somos arrogantes mesmo, ponto.

Quando a ficha cai, sobrevém a sensação oposta, a síndrome do impostor. É preciso muita tarimba para achar o seu lugar no mundo, aprender a ser humilde segundo a definição de C.S. Lewis para humildade: ficar feliz que tem um talento, e também ficar feliz quando descobre o talento no seu próximo.

Fora isso, ser arrogante aos 16 não é prerrogativa de autistas. Todo filho acha que o pai é um idiota. Sendo o pai o representante mais próximo e visível da geração anterior, por extensão todo jovem acha que a geração anterior é idiota. Mas a gente muda de ideia rapidinho, quando chega a nossa vez de timonear.

Mas essa arrogância não é totalmente fora de propósito. Se a gente tivesse exata noção de quão pouco sabe aos 16, não teria coragem nem de sair da cama. Essa autoconfiança própria da idade, ainda que sem base, é útil para que a pessoa comece alguma coisa, corra riscos, aceite desafios.

O "velho sábio" não critica o pirralho por ser pirralho ou por ser arrogante. Ele sorri e acena. Entende que isto é um rito de passagem. Essa arrogância juvenil não é o combustível que faz o mundo girar, mas é a espoleta.