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Os brutos também amam. Talvez amem mais.

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Quem assistiu a 'O Poderoso Chefão' com atenção, deve lembrar da cena abaixo.

Figura 1: Don Corleone estapeia um afilhado. Fonte: Tumblr

O cara de terno branco é Johnny Fontaine, um cantor falido que vai chorar as pitangas para o padrinho. Em vez de uma palavra de consolo, leva um tapa e uns berros: "VOCÊ PODIA AGIR COMO HOMEM!". Em que pese o filme estar ambientado em 1946, pra quê tanta grosseria?

Ou seria esta grosseria uma forma extrema de carinho?

Disclaimer: eu li o livro além de ver o filme, e no livro o chacoalhão que Fontaine leva é descrito como "de um carinho selvagem". Portanto meu viés pode estar contaminado. Também consta no texto de Mario Puzo que Don Corleone sabia ser esta a "linguagem" correta a ser usada com Fontaine; se fizesse o mesmo com seus filhos, as reações seriam adversas, a saber: Michael desapareceria por meses, Sonny gritaria ainda mais alto de volta, e Freddo ficaria com cara de velório por semanas.

Hoje em dia, esse tipo de grosseria, principalmente no ambiente de trabalho, é socialmente reprovada, e pode ter até conseqüências jurídicas. Superficialmente, parece ser uma evolução. Eu cá tenho minhas dúvidas, conforme vou tentar explicar.

O "ambiente de trabalho" grosso por excelência é o militar. O recruta começa pelo bootcamp, aqui chamado "quarentena", onde é confinado no quartel e submetido àquele treinamento básico recheado de grosseria e humor cáustico. Parece uma coisa completamente obsoleta. O que pouca gente enxerga, é que a) qualquer pessoa é aceita como recruta, tirante deficiências graves, e b) dificilmente a instituição militar "desiste" de um recruta por meio de expulsão. Então você tem uma massa de recrutas de todas as classes sociais, com os mais variados níveis de cultura e inteligência. Pessoas que talvez evitavam-se fora do quartel, morando em extremos opostos da cidade, usando gírias diferentes, usando meios de transporte diferentes — e que agora precisam aprender a trabalhar juntas.

No extremo oposto, temos as grandes empresas do Vale do Silício, tipo Google, Apple, Facebook e cia. Além do famigerado e longo processo de entrevista que cobra conhecimentos de duvidosa aplicabilidade no dia-a-dia (mas que pelo menos alguém ainda poderia estudar para passar), existe uma obsessão pelo "cultural fit" — conformidade cultural. Se você não encaixa perfeitamente, não é aceito. A noção de pegar uma pessoa e moldá-la e treiná-la passa longe. E se for aceito, pesa permanentemente uma Espada de Dâmocles sobre sua cabeça, como descobriu James Damore do jeito difícil.

Certamente o ambiente de trabalho do Google em nada lembra a caserna nos aspectos negativos. Os chefes não vão esculhambar os subordinados, etc. Mas eu acho que perdeu-se alguma coisa nesse new normal onde fingimos que todas as pessoas são razoáveis, educadas, refinadas, e saem prontinhas de uma universidade de ponta. Demitir James Damore apenas reforçou a opinião dele e da legião de alt-rights que estavam assistindo ao impasse. Foi um tratamento pretensamente civilizado mas que não acrescentou nada. O que ele realmente precisava era de um chefe durão que desse o proverbial tapão na mesa, que mandasse ele tomar no cu e se foder, fizesse-o lavar o banheiro feminino por uma semana, e depois ir trabalhar numa equipe só de mulheres como "castigo". Inaceitável pelos padrões sociais e pela legislação trabalhista; mas assim ele teria alguma chance de aprender alguma coisa.

Não estou discutindo o mérito das opiniões de Damore. A questão é que a opinião dele estava destoando da cultura interna; certa ou errada, ele teria de conformar-se, mas ele não teve a oportunidade. Foi simplesmente descartado. Certamente outras instâncias de desconformidade que nada têm a ver com machismo ou homofobia são e serão "remediadas" do mesmo jeito. Como por exemplo... alguém que note a futilidade de trabalhar 90h por semana?

Pausa para o churrasco de domingo. Bebi duas cervejas bock e agora as letras estão dançando no terminal... mas vou tentar completar o texto.

Muito se discute, aqui no Brasil e nos EUA, sobre a desindustrialização. Assim como na corporação militar, a indústria (e num segundo lugar o negócio familiar) é o lugar onde uma pessoa entra aos 16 como aprendiz e pode chegar a diretor aos 40. O Brasil ressente-se da desindustrialização, já que temos uma grande massa que não tem cultura suficiente para educar-se a si mesma e criar seus próprios empregos. Esses tempos ouvi uma história: doaram cestas básicas a uma família composta de mãe e 9 filhos, mas a matricarca não sabia cozinhar os alimentos e as crianças continuavam passando fome. O que esperar de um povo assim?! Mas os bons instintos, os rebentos dessa família retinham: alguém dava um pedaço de bolo para uma das crianças, ela fazia questão de dividir com os irmãos. Nunca seriam "cultural fit" de uma empresa dita moderna, mas teriam alguma chance se recebessem o carinho selvagem de chefes e patrões pessoalmente interessados.

E os EUA ressentem-se tanto quanto nós; há uma legião de (relativamente) depossuídos por lá, gente que ficou ao largo do sonho americano, porque o atual motor da economia é o Vale do Silício e a grande massa, conservadora e medíocre como por definição toda grande massa é, não é cultural fit para o Vale. Que morra de overdose por opioides. São todos racistas e eleitores do Trump, afinal de contas.

Novamente, sou suspeito. O caminho de entrar como soldado e subir nas fileiras foi o que me guindou à primeira divisão. Talvez pudesse ter sido bem-sucedido por outros caminhos. Talvez. Talvez não. No meu mundo, os chefes eram grossos, mas davam emprego ao primeiro que se apresentasse a uma vaga, e dificilmente mandavam alguém embora.

No meu emprego mais recente, a coisa era mais fácil. Eu era gerente de projeto, mas quase nunca precisava dizer a cada membro da equipe o que fazer. No dia-a-dia foi o trabalho mais fácil que já exerci, de longe. Até conseguíamos fazer piadas políticas considerando as preferências de cada um, sem brigar. Só que... éramos todos mestrandos, mestres, doutorandos. Eu era a excentricidade, o cara que não era formado em Engenharia mas tinha feito mestrado em informática. O título contava tanto quanto meus 1000 anos de experiência (sorte minha ter aceitado o conselho do Marco André). Tenho convicção que uma equipe assim é algo excepcional ao cubo.

Faltou uma conclusão retumbante. Mas não estou achando uma. Talvez porque eu não tenha uma resposta, uma solução para o dilema apresentado. Estou apenas externando meu mal-estar.

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