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Resenha: Os porões da contravenção

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2016.06.01

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

No meu post anterior, que era na verdade uma resenha disfarçada do livro "Olho por Olho", mencionei um estereótipo da produção artística dos anos 1980: do torturador migrado para a criminalidade ou para o braço armado de algum empresário inescrupuloso. Outro "prato de resistência" da cinematografia brasileira é a mistura de sexo, violência e carnaval.

Como brasileiros, ficamos um pouco anestesiados e associamos essas coisas mais a uma producão artística pobre e repetitiva, bem como adepta de "pobrologia", do que a uma tentativa de furar a censura e escancarar uma realidade subjacente. Temos nossas razões: o "Festival Nacional" sempre repete os mesmos filmes; sobra crítica à ditadura (que já foi pro saco há 30 anos, diga-se de passagem) e falta entretenimento. Eppur si muove, os filmes da série "Tropa de Elite" mostram um equilíbrio perfeito: divertem sem deixar de informar. O protagonista é um torturador sem tirar nem pôr, porém o lado A do Capitão Nascimento é cativante o suficiente para colocá-lo no panteão dos anti-heróis, ao lado de Sargento Getúlio. Até o cinema estadunidense vai indo na mesma direção, onde os super-heróis de histórias em quadrinhos deixaram de ser simplesmente "bonzinhos", adquiriram profundidade; explora-se o conflito entre boas intenções e hábitos de justiceiro.

Mas é fato que "a arte é a crítica da vida", e essa associação entre DOI-CODI, contravenção e carnaval realmente existe. Ela é particularmente encarnada por uma pessoa: o bicheiro "Capitão Guimarães", principal personagem do livro "Os porões da contravenção" (Editora Record).

Já conhecia parte da história pois é contada no livro "A Ditadura Escancarada" de Elio Gaspari. (Aliás, em agosto próximo sai o quinto e último tomo da série desse jornalista, que cobre o governo Figueiredo.) Mas o novo livro aprofunda a história e estende-a até os dias de hoje, já que Capitão Guimarães continua vivo, bem, e atuante no bicho e no carnaval do Rio de Janeiro.

Para resumir a história: Capitão Guimarães era agente do DOI-CODI fluminense, e fazia um "extra" com contrabando, acompanhado de alguns colegas. Apanhados e seviciados pela própria máquina repressiva de que faziam parte, os agentes migraram para o jogo do bicho, com seu "know-how" de violência e alguns dotes organizacionais.

O livro não descuida de mencionar lances bem-humorados e pitorescos, pois assim como um bom filme, um livro também deve proporcionar diversão além de informação. Muitas informações pessoais, que dão uma dimensão humana ao protagonista, são incluídas aqui e ali. Talvez a passagem mais pitoresca seja o relacionamento com uma carnavalesca, comunista de carteirinha, que fazia questão de chamar Capitão Guimarães pelo apelido do porão (Pablo) a cada encontro nos ensaios da escola de samba — e graças a ela, a escola patrocinada pelo Capitão finalmente sagrou-se campeã.

De resto, o livro traça a triste promiscuidade entre polícia, agentes da repressão, jogo do bicho, contrabando, quiçá tráfico de drogas (a ligação entre bicheiros e tráfico ainda carece de provas cabais, embora haja muitas provas circunstanciais, e obviamente os bicheiros negam veementemente), milícias, segurança privada, enfim, aquela sopa suja que é a segurança pública no Brasil, e a sopa é bem mais grossa no Rio de Janeiro.

O livro também fala muito a respeito dos barões do jogo do bicho, e desmonta parcialmente aquela aura de "bom malandro", demonstrando que isso é uma fachada cuidadosamente fabricada e polida a fim de angariar proteção popular e política. O verdadeiro bom malandro, o bicheiro "Natal da Portela", que por sinal era ex-ferroviário (portanto está provado que era boa gente :) era o estereótipo a ser copiado. Seguindo essa linha, Capitão Guimarães "adotou" a escola de samba Beija-Flor, levando-a para o grupo especial e finalmente para o 1º lugar (com a ajuda daquela ousada carnavalesca comunista).

Mas a coisa não parou por aí. Se num primeiro momento os bicheiros procuraram reconhecimento público seguindo os passos do legendário Natal, num segundo momento enxergaram no carnaval um bom negócio. O livro demonstra que o carnaval, mais que patrocinado, é hoje totalmente dominado pelos bicheiros através da LIESA - Liga Independente das Escolas de Samba, site http://liesa.globo.com.

Copiado ipsis literis do site: De uma conversa entre o então presidente da Unidos de Vila Isabel, Ailton Guimarães Jorge, com o amigo Castor de Andrade, presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel, surgiu a luz que tiraria da escuridão as maiores Escolas de Samba da Cidade.

Um site que é subdomínio da mais poderosa empresa de comunicação do país, listando um ex-torturador e um bicheiro como heróis do samba... O livro não nega que o carnaval realmente abunda em recursos desde a criação da LIESA, porém as receitas proporcionadas pelo carnaval também são astronômicas... não é difícil ligar os pontos.

No próximo carnaval, vou pensar muito bem antes de dar audiência aos desfiles das escolas de samba. Pessoalmente, desconfio de quase tudo que vejo na TV. Para mim, esses campeonatos de futebol são todos comprados, os jogos são para inglês ver; o único campeonato que entrevejo competição real é a Copa do Mundo, porque o nacionalismo ainda é, bem ou mal, uma mola propulsora mais forte que a corrupção. Agora, a "instrumentação" do carnaval foi realmente uma surpresa desagradável, num Brasil já tão combalido de más notícias nos últimos tempos.

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