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Educação hétero

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2011.09.04

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Conforme prometi no artigo anterior, vou falar um pouco sobre a vida do homem (no sentido de ser humano do sexo masculino) dos 10 aos 20 anos.

Mas este assunto acabou tendo algumas ligações com outra polêmica recente: os protestos dos evangélicos contra a dita "mordaça gay" — aquele projeto de lei que tipifica o crime de homofobia.

Não que eu seja inerentemente contra religião. Pelo contrário. Meu status religioso é "evangélico sem denominação". Tem coisas que admiro muito nos meus amigos crentes (evangélicos "com denominação"). A principal é o senso de propósito. Para estes amigos, a religião parece eficaz em responder as três perguntas-chave da vida: de onde venho, para onde vou e por que estou aqui.

Admiro esta capacidade de manter-se no curso, no escuro, sem mapa, sem farol e sem sextante, enquanto o resto já fez meia-volta ou simplesmente se perdeu assim que o sol se pôs.

As religiões fariam muito bem se circunscrevessem seu raio de atuação a estas três perguntinhas. Instilar propósito na vida dos fiéis já dá trabalho que chega. Infelizmente, elas entornam o caldo quando tentam regular coisas como cor de roupa e vida conjugal, ou determinar de onde vem a orientação sexual.

A rixa evangélicos × gays é particularmente engraçada, porque os primeiros pegam uma condição inata (a tendência a homossexualidade), promovem-na à condição de pecado, e como pecado depende por definição de uma má escolha livre, tentam racionalizar a coisa em termos de educação errada mais opção consciente pelo homossexualismo.

Um dos meus amigos crentes (vamos chamá-lo de Gruber) afirmou categoriamente que um gay é "fabricado" da seguinte forma: pai ausente, mãe dominadora e educação "afeminada", oferecer bonecas em vez de carrinhos, etc. E este tipo de "educação gay" estaria sendo promovido pela TV, pelo governo etc.

Além de risível, esta tese cria outro problema: na conta de quem o pecado do homossexualismo seria debitado? Dos pais ou do filho gay? Enfim, o Gruber tem direito ter lá suas crenças risíveis sem ser (muito) molestado. Também tenho minhas crenças e até mesmo minhas superstições.

O ponto aqui é que a "educação gay" é colocada como um problema de segurança nacional. Será mesmo? Apenas 6% da população é homossexual (*). Aposto que bem mais de 6% das mães são dominadoras. Considerando o "hit rate", a "educação gay" é um fracasso. O pessoal do Illuminati anda meio enferrujado nos paranauês da dominação mundial.

Ademais, a sociedade como um todo, sob qualquer métrica ou ponto de vista está longe de ser ideal. O mundo está cheio de gente violenta, infeliz, neurótica etc. E no mínimo 94% da responsabilidade disto cabe aos 94% de pessoas que alegam ser heterossexuais.

Talvez o problema mais premente seja a "educação hétero". O proverbial elefante na cozinha que quebra tudo e ninguém vê.

Aqui entra o que afirmei no rodapé do artigo anterior: que a vida do "macho" dos 10 aos 20 anos é um inferno, e estou convencido que parte do combustível que aquece este inferno é a "educação hétero". Por quê?

Alguns diriam que as meninas sofrem tanta pressão quanto os meninos, embora de natureza diferente. Pode ser verdade, afinal de contas estou falando de experiência pessoal, eu sei onde meu calo apertou. Mas ainda acredito que a pressão absoluta sobre os meninos é maior.

E é claro, a outra fonte de calor do "inferno adolescente macho" é biológica, esta inevitável:

Esta combinação de pressões, naturais e artificiais, cozinha o cérebro da rapaziada. Meninos são muito mais suscetíveis a envolver-se com drogas, gangues, problemas com a lei, etc. A explicação socialmente aceita para isto é "boys are stupid, throw rocks at them". Culpar a vítima é sempre fácil.

No geral, meus pais foram bem mais democráticos, liberais e livres de preconceitos do que a maioria de sua época. Mas mesmo eles foram acometidos da "educação hétero" de vez em quando. Por exemplo, eu fui "forçado" a pagar por minha faculdade, minha irmã não. Ela teve carro à disposição, eu também tive... quando comprei um, com meu dinheiro.

Digo sem medo de errar que a maior "força" que empurrou meus pais para um tratamento mais igualitário foi a minha boca grande e suja. Mundo estranho este, onde a gente tem de gerenciar nosso gerente e educar nossos próprios pais.

Claro, existem alguns atenuantes que minha honestidade intelectual me obriga a mencionar. A situação financeira dos meus pais era consideravelmente melhor quando chegou a vez da minha irmã. Eu sempre tive uma tendência ao comodismo que precisava ser compensada.

Mas foi impossível não notar que o tratamento dispensado a mim por pais e parentes mudou da água para o vinho quando meu salário alcançou o do meu pai. Até eles admitem. O tratamento dispensado a minha irmã não sofreu nenhum "upgrade" do gênero.

E tenho ouvido coisas parecidas de muita gente, entre amigos e conhecidos. É um padrão muito bem estabelecido.

É claro, "tudo que sobe, desce". O tratamento benevolente com as meninas permanece enquanto elas forem lindas, novas, magras, castas ou casadas com um bom marido e produzindo filhos lindos. Qualquer pequeno desvio, ou o simples e inexorável passar dos anos, e sobrevém os adjetivos: feiosa, velha, gorda, vagabunda, desquitada ou mãe desnaturada.

Aliás, isto tem um nome: marianismo. Santificar e glorificar a mulher... enquanto ela faz exatamente o que se espera dela.

Como é natural do ser humano, a mulherada reclama muito mais do tratamento desfavorável na idade madura do que do tratamento favorável na idade tenra. Mas são duas faces da mesma moeda, o machismo.

Aqui a religião cruza de novo o caminho. Não raro você vê um pastor falando na TV que "a mulher tem de ser submissa ao homem", que "a mulher tem de cuidar da casa", que o sustento da casa cabe ao homem, que se uma mulher estoura a grana do marido no shopping isto é normal e até bonito, e assim por diante.

Enfim, é quase uma equação matemática: se eles acreditam numa suposta "educação gay", têm de acreditar no seu antídoto, a "educação hétero", que exacerba as diferenças naturais entre os sexos, só pra garantir que ninguém vire gay ou lésbica, né?

Taí algo que a gente realmente não precisa: a religião adicionando peso do mesmo lado da balança onde já estão biologia e sociedade.

Mas... não podemos ignorar que a moral social às vezes está lá porque existem boas razões subjacentes para tal. O discurso feminista de que toda a estrutura social existe para oprimir as mulheres também não me convence. A "educação hétero" é, na minha visão, mais um caso de remédio que vira veneno pelo excesso na dose. Ou talvez um "fóssil educacional".

Voltando à educação que meus pais me dispensaram. A verdade é que é fácil criticá-los em retrospecto. Será que meus pais realmente erraram? Se eu tivesse sido criado de forma mais "folgada", será que teria me tornado um adulto relativamente bem-sucedido? Ou fizeram certo em me "enquadrar"?

Boas perguntas :) Minha capacidade de introspecção não é páreo para perguntas tão difíceis.

A "educação hétero" também falha em compensar diversas diferenças entre os gêneros. Pelo contrário, exacerba-as.

Por exemplo, existem aqueles estereótipos envolvendo mulher e direção: mulher não sabe dirigir direito, não sabe ler mapa, não sabe se orientar. Infelizmente, eles são em grande medida verdadeiros. Existe uma porcentagem considerável de mulheres que sequer têm coragem de dirigir. (Também são tristemente confirmáveis os estereótipos masculinos: violentos, incapazes de manter um relacionamento, voluntariosos etc.)

De fato, até onde a ciência sabe, o homem leva uma pequena (pequena!) vantagem biológica sobre a mulher em raciocínio espacial. Mas não o suficiente para justificar a diferença que observamos em espécimes adultos. Como isto se explica?

Bem, você não vê meninas ganhando carrinhos no Natal. Talvez ganhem um velocípede, mas ninguém fica estimulando muito a usá-lo. Já um menino ganha um velocípede com 2 anos de idade, os pais insistem até que ele aprenda a pedalar.

Depois o pai ensina a fazer curvas, fazer "drifting" e "burnout" no piso (é, eu ensino estas coisas pro Felix. Dá-lhe educação hétero!). E filho homem tem de saber regular o freio da bicicleta pra dar borrachão no asfalto.

Deve ser óbvio que, quando adulta, uma pessoa (seja macho ou fêmea) vai ser muito mais hábil motorista se tiver praticado "stunts" desde os 2 anos, do que aquela outra pessoa que nunca pilotou nem bicicleta, nunca precisou orientar-se sozinha além do quarteirão onde mora, e agora precisa dirigir um automóvel pela cidade toda.

Mesma coisa a questão de ler mapas. Sei por experiência própria que esta é uma arte que se aprende praticando. Nem macho nem fêmea nascem sabendo. Eu falo com autoridade: consegui me perder dentro de Joinville numa atividade escoteira! Isso com mapa, bússola e rádio comunicador. Foi humilhante, mas a humilhação ensina melhor. Andar 15km a mais por não ler direito o mapa é um erro que você não vai querer cometer duas vezes.

Quantas meninas fazem isso, ou pegam o carro e saem andando sem rumo para treinar suas habilidades de orientação? Bem poucas. Depois não sabem ler um mapa. Por quê será?

No fim das contas, adotar a "educação bi-curious" seria o ideal (desculpem pelo abuso da metáfora; não pude resistir). De vez em quando, dar uma boneca para o menino (um ursinho de pelúcia seria um compromisso aceitável para os conservadores) e um carrinho para a menina. Assim teremos homens minimamente hábeis com bebês, e mulheres que apreciem dirigir.

Isto não vai produzir uma legião de bissexuais? Não, não vai. Porque a motivação, o temperamento de cada sexo vai permanecer o mesmo. Nem o tratamento médico mais invasivo, nem uma educação feminina desde bebê, desfaz um macho. Um menino vai fazer "drift" com o velocípede mais cedo ou mais tarde, com ou sem boneca ou ursinho no banco do carona.

(*) Esta estatística não é muito confiável, os estudos cospem proporções de 1,8% até 34%. Depende o critério. Mas essa faixa de 6% a 8% me parece a mais provável.

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