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2014.08.19

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Não me entenda mal. O livro "Holocausto Brasileiro", escrito por Daniela Arbex, da editora Geração Editorial, a mesma editora d'A Privataria Tucana, é bem escrito e relevante. Mas não é para corações fracos. O conteúdo é forte. Na dúvida, não leia.

O livro versa sobre o "Colônia", que já foi o maior hospício brasileiro, localizado em Barbacena/MG. Ele ainda existe, felizmente repaginado. Porém entre as décadas 1930 e 1980 foi essencialmente um sumidouro de gente indesejável, mandada de todas as partes do Brasil.

Tinha todo tipo de gente ali: deprimidos, alcoólatras, epilépticos, homossexuais, tímidos, prostitutas. Moças que engravidaram do patrão. Gente que ousou exigir sua parte legítima numa herança. Crianças com defeitos. E até um e outro realmente insano. As pessoas normais acabavam enlouquecendo lá dentro devido às condições precárias, aos maus-tratos e ao abandono dos parentes, "confirmando" assim a necessidade de internação sem prazo.

As coisas iam particularmente mal para os indigentes — a definição local de "indigente" era "paciente não particular". Esses passavam fome, sede e frio, literalmente. Todo dia morriam alguns. Em certas épocas, até 16 pessoas por dia, construindo assim a notável estimativa de 60 mil mortos ao longo da existência do Colônia enquanto depósito de gente.

Era vantagem que os indigentes morressem, pois os cadáveres eram vendidos para faculdades de medicina. Quando essa fonte de lucro secou, os corpos eram dissolvidos em ácido para venda dos esqueletos. Os pacientes mais saudáveis e robustos davam lucro de outras formas: mantendo lavouras pertencentes ao manicômio e abrindo diversas estradas da região na base de enxada e picareta. "Terapia ocupacional".

A comparação com o Holocausto da II Guerra é inevitável; até o meio de transporte das vítimas era semelhante. Os novos internos costumavam vir apinhados num vagão ferroviário, conhecido localmente por "Trem de Doido" (agora você sabe a origem dessa expressão coloquial).

Três casos particularmente me tocaram. Um foi o de um menino goiano de nove anos internado por hidrocefalia (sem ter problemas mentais). Recebeu uma única visita rápida do pai, que não disfarçou seu desprezo. Era bem-tratado por não ser "indigente"; morreu de tristeza.

O segundo caso interessante foi o cara louco que acumulava cada moedinha que achava ou ganhava. Depois de décadas, saiu do manicômio com uma pequena poupança, depois voltou para tirar de lá uma louca de quem gostava, e casou com ela. O sujeito era tão pão-duro com a pequena pensão que recebia, que chegou oferecer milhares de reais à psicóloga que o acompanhava, quando esta teve o automóvel roubado. Lembrou o final daquela piada "Sou louco mas não sou burro!".

O terceiro caso foi uma menina de 14 anos estuprada e engravidada pelo patrão advogado, mandada ao manicômio para evitar escândalo, com auxílio de freiras amigas da família. (Bonito, hein?) O filho, João Bosco, fruto do estupro, foi para um orfanato, enquanto a mãe foi liberada aos 21 anos por absoluta falta de desculpas para retê-la no sanatório. Mãe e filho reencontraram-se 40 anos depois.

O Colônia foi praticamente fechado devido ao movimento antimanicomial que ganhou força no final dos anos 1970. Entre inúmeras outras razões, o fato é que manicômios sempre foram sumidouro infalível de indesejáveis. No romance "O Cortiço", o anti-herói João Romão precisa livrar-se da sócia e esposa, e "...ia pensando em metê-la como idiota no Hospício de Pedro II".

Por conta desses abusos históricos, é quase impossível internar alguém num manicômio hoje em dia, e os prazos de alta são pré-fixados e bem curtos. Isto cria o problema oposto: quando aparece um louco "de verdade", a família acaba sobrecarregada. As vagas de manicômios foram extintas, mas não houve a contrapartida de criação de vagas em comunidades terapêuticas. O descaso social continua, travestido.

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