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Saudades do IRC

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2013.02.07

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Áureos tempos da Internet, anos 90 até o início dos anos 00, em que o IRC (Internet Relay Chat) era a "rede social" em voga.

Antes disso, creio que era o lance de "news" (NNTP), mas já não peguei a época áurea. Cheguei a usar NNTP para acessar um fórum de Delphi, mas era um servidor NTTP isolado; não era parte da gloriosa rede de notícias que propagava desde estudos científicos até fotos de zoofilia.

Há mais tempo ainda, os pontos-de-encontro eram os BBS, acessíveis por linha discada. Cheguei a usar uma ou duas vezes para obter softwares tipo PKZIP, mas no geral achava um saco. (Duas etapas heróicas da computação: desenvolvimento para Windows 16 bits e BBS. Meus cumprimentos a quem participou, mas fico feliz de ter ficado longe desses pepinos.)

Em particular no mundo do software livre, as ferramentas "das antigas" ainda são muito utilizadas, como mailing lists, e também o próprio IRC, graças à rede Freenode.

Mas para o grande público, o IRC "nunca existiu", o que é uma pena. Hoje existem inúmeras outras formas de comunicar-se mas nenhuma é, considerada isoladamente, tão interessante como o IRC.

O IRC tem um quê de radioamador: o acesso é livre e democrático. Via de regra qualquer um pode entrar em qualquer canal, ou falar diretamente a qualquer pessoa. O auto-policiamento das comunidades e a auto-organização em grupos de interesse funciona muito bem.

Assim como o radioamador, entrar no IRC exige um conhecimento técnico mínimo e uma "licença": instalar um programa específico e saber o endereço do servidor desejado. Além disso, ter computador e Internet nos anos 90 era para poucos, o que filtrava naturalmente os participantes.

A percepção podia ser de anonimato mas na realidade era muito seguro, porque tipicamente o servidor IRC rodava num provedor local ou reginal, cuja equipe técnica conhecia a galera e era conhecida dela; tipicamente eles também eram operadores dos principais canais. Associar IP ao usuário era trivial. O tipo de abuso que hoje em dia exige chamar a polícia e mover processo judicial, na época podia ser resolvido em 5 minutos. E a pena podia ser severa: perda da conta no provedor local, o que poderia significar de fora de toda a Internet.

A comunicação do IRC tem um quê de Twitter: a interatividade pede frases curtas, porém expressão ideias completas. Aliás, o Twitter empresta muito do IRC, talvez sem querer. Por exemplo, a possibilidade de dirigir-se a qualquer pessoa, ou citá-la, e/ou desenvolver uma linha de conversa. (A favor do Twitter, ele adiciona idiomatismos novos como @pessoa ou #assunto, que caíram na boca do povo. Um serviço que consegue isso tem de ser considerado.)

O IRC é essencialmente "ao vivo" mas a sua natureza textual e o protocolo aberto dão espaço a inúmeros truques. Você pode deixar um "bot" no seu lugar para registrar a conversa do canal, ou o canal pode manter um "bot-secretária" para deixar recados, fazer anúncios, até expulsar ("chutar", "kickar") usuários que falem palavrão. Outra tarefa comumente legada a um bot era a troca de arquivos (os famosos "fserves").

Não gosto de Windows mas é forçoso dizer que a popularidade do IRC deve muito ao mIRC, um cliente IRC para Windows. Ele era "scriptável", ou seja, implementava uma linguagem simples, derivada do BASIC, na qual você poderia implementar comandos novos, "bots", provedores de serviços, e até mudar o comportamento do programa em si. Pacotes de scripts que incrementavam o mIRC padrão eram largamente distribuídos.

Era interessante ver "a massa" programando, criando e alterando scripts do mIRC. Um fenômeno parecido com os computadores de 8 bits nos anos 80, quando todo mundo tentava arranhar uns programinhas em BASIC.

Entre as meninas, era popular um pacote que fazia todas as mensagens ficarem coloridas e as frases automaticamente traduzidas para o "miguxês". Falando de cores, a extensão do IRC para mostrar mensagens coloridas também foi uma invenção do mIRC — invenção odiada até hoje por muita gente, tanto por ser apócrifa quanto por viabilizar o pesadelo visual promovido pelos scripts de mau gosto (na minha opinião todos eram de mau gosto!).

Diversos fatores mataram o IRC como ferramenta social. Na minha opinião, o fator mais importante foi o desaparecimento progressivo da figura do provedor de acesso (ISP) regional, que normalmente era o mantenedor do servidor IRC, inclusive para atrair assinantes.

O IRC não escala muito bem, nem tecnicamente como socialmente. Não daria certo uma rede IRC com dez milhões de usuários. A solução técnica é regionalizar o IRC, ou designar servidores separadas para cada grupo de interesse, mas novamente é preciso haver um humano interessado em operar e policiar cada servidor.

Outro fator importante é o ingresso de um grande número de usuários "iletrados" na Internet, cuja proficiência limita-se ao browser, e não se daria bem com o jeitão de teletipo do IRC.

O MSN também é tido como um "carrasco" do IRC por seus recursos multimídia, mas ele não serve para travar conhecimento com pessoas totalmente desconhecidas. Hoje em dia, o Facebook supre esta deficiência — de forma pobre, em minha opinião — e também há aqueles "chats" via Web, terríveis pela falta de policiamento e pelo anonimato.

Se tivesse de destilar toda a minha queixa a um aspecto, eu diria que o IRC é um protocolo aberto, "peer to peer" e padronizado. A rede social típica é fechada, sua utilidade é limitada pelos recursos oferecidos pelo "dono da rede", e cuja existência é precária, potencialmente efêmera.

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