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Juro zero

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Aquele mesmo povinho de esquerda que atira no mensageiro, dizendo desprezar quem "torce contra", tem torcido contra há séculos, prevendo eternamente a dêbacle do capitalismo para amanhã, ou no máximo para depois de amanhã. Sempre com aquele grito "Marx estava certo afinal!!!!" entalado na garganta, pronto para ser emitido. Tipo aquelas seitas que prevêem o fim do mundo para uma data específica, e depois vão sempre "atualizando" a previsão conforme o mundo não acaba.

Ou talvez o mundo já tenha acabado, e as pessoas não se aperceberam. A utopia simétrica da pessoa conservadora — um mundo ancestral onde tudo era previsível e estático — é mais exceção que regra, basta consultar qualquer livro de história geral. Nem a vida do homem pré-histórico era estável: a rápida difusão do homo sapiens pelo globo é uma epopéia movida pela fome, correndo atrás de caça e pesca, fugindo de glaciações e dos locais cujos recursos naturais foram esgotados.

E talvez Marx esteve certo afinal — na sua própria época. As pessoas sensatas incorporaram o que ele ensinou, e o mundo seguiu adiante.

Mas, para quem acha que desta vez o capitalismo está mesmo indo pro saco, não faltam alternativas, ou "modos de falha" como nós engenheiros de software gostamos de dizer.

O modo de falha mais óbvio, e muito bem discutido é o ecológico.

Alguém já disse que o socialismo nega as leis da economia, por isso mordeu o pó; e o capitalismo vai cair por negar a questão ecológica. Esse assunto é muito bem discutido no livro A prosperidade do vício, que já resenhamos. O fato do capitalismo moderno depender muito do crescimento econômico exponencial torna este modo de falha ainda mais agudo: o crescimento sem limite ameaça a ecologia, e a ecologia em algum momento vai apresentar a conta e negar o crescimento, o que finalmente desmonta o castelo de cartas do capitalismo atual.

Pessoalmente, tenho uma proposta para esta questão, que é uma economia baseada em preços complexos. O preço de qualquer produto ou serviço, hoje, é uma medida unidimensional, que expressa o esforço humano e a escassez daquele bem, e a própria escassez do esforço humano. O custo ecológico do bem é solenemente ignorado, e denominado "externalidade" pelos economistas, uma palavra bonita que na verdade significa "dane-se quem sofrer com a poluição e outros problemas ambientais".

Já o preço complexo teria dois componentes: a parte "real" continuaria expressando o preço tal qual o conhecemos hoje, e a parte "imaginária" expressaria o custo ecológico.

Mas é bem possível que um esquema de preços complexos acabe padecendo dos mesmos problemas do bimetalismo: uma das moedas acaba tornando-se mais escassa e mais valiosa. No caso, como a ecologia é um gargalo absoluto, a parte imaginária dos preços dominaria as decisões econômicas. Todos teriam muito dinheiro "real" no bolso e não poderiam gastá-lo porque não têm dinheiro "imaginário", e precisar-se-ia de ambos para comprar bens relevantes.

Outro modo de falha muito em voga nos últimos tempos é a inteligência artificial. Diferente da catástrofe ecológica, a inteligência artificial não precisa ser um problema.

Mas ela pode mudar radicalmente o cenário econômico, porque como dissemos antes, o preço de um produto é a medida do esforço humano investido nele. Num mundo onde tudo é manufaturado por robôs, e atividades ditas intelectuais (inclusive a criação dos produtos que os robôs vão fabricar) sejam executadas por computadores, o esforço humano vai deixando paulatinamente de ser escasso, e portanto vai perdendo valor monetário. Desaparece o grande mecanismo de auto-regulação do capitalismo.

Sem correções, chegaremos a uma "singularidade", a divisão de zero por zero: multidões ao léu sem qualquer fonte de renda, porém os bens e serviços produzidos com inteligência artificial tendem a ser praticamente de graça. Resta a pergunta: quem tem renda zero vai conseguir comprar o automóvel que custa um centavo?

Nesse ponto a humanidade tem dois caminhos a seguir: a) aferra-se às regras do capitalismo, o que implica em entregar todo o produto econômico para uma pequena elite que controla as máquinas e/ou as poucas atividades que ainda sejam prerrogativa de humanos, porque é o único ponto da economia onde haveria algum tipo de "escassez" mensurável. b) adota-se uma versão turbinada do socialismo escandinavo, onde uma generosa renda mínima seja concedida à toda a população, e o ócio generalizado não seja mais considerado um problema social.

Eu ainda sou cético a respeito disso tudo. Os preços relativos das coisas vão mudar muito, é claro. Aliás, já estão mudando: certos bens como eletrodomésticos e eletrônicos estão absurdamente baratos quando comparados a alimentos, por exemplo. Por outro lado, as formas de gastar dinheiro estão muito mais abundantes hoje que há dez anos atrás.

A gourmetização talvez seja a grande resposta à invasão das máquinas. Por exemplo, tem um cara que cobra 40 dólares para apontar um lápis. Ninguém pagaria isso para um robô apontador de lápis. É um dispêndio que valoriza o artesanato. Inúmeros outros bens de luxo enfatizam "valor" no trabalho humano. Por exemplo: relógios suíços. Eles são triplamente obsoletos: relógios quartz são mais precisos, ninguém mais precisa usar relógios de pulso porque o celular tem relógio, e finalmente os relógios mecânicos poderiam ser inteiramente fabricados por robôs hoje, nem é preciso esperar a inteligência artificial evoluir para fazer isso. Mas são desejáveis justamente por "congelarem" um enorme esforço humano em fabricar e montar aquele monte de pecinhas miúdas.

Evolua ou não a inteligência artificial, ela é apenas um dos muitos fatores que empurram a humanidade para a adoção da renda mínima universal. Não é razoável supor que cada uma das 7 bilhões de almas vá encontrar uma ocupação frívola no estilo "aponte um lápis, ganhe 40 pratas". Ou talvez até encontre, mas entre procurar e encontrar, haverá um intervalo de tempo talvez longo, durante o qual as pessoas têm de comer e, de preferência, viver digna e confortavelmente.

O terceiro modo de falha do capitalismo está acontecendo neste momento: a tendência ao juro zero, e até negativo.

Assim como o preço baseado na escassez do esforço humano, a taxa de juros é um pilar do capitalismo, porque ela estabelece uma relação entre capital e renda, permitindo expressar ambas as coisas numa mesma unidade monetária. Você paga o aluguel de uma casa, e compra essa mesma casa, usando dinheiro e dinheiro.

Renda = capital × taxa de juros. Essa é a equação básica do capitalismo. Pode-se estimar a taxa de juros "sem risco" da economia, acima da inflação, comparando o aluguel com o valor de venda de uma casa. Se uma casa custa 200 mil, e o aluguel equivalente é 1000/mês, a taxa de juros é 6% ao ano (0,5% ao mês, pois 0.5% de 200 mil é 1000).

Isso parece algo óbvio, porém na Idade Média não era possível adquirir um pedaço de terra. A terra era de propriedade dos nobres ou da Igreja; e só podia ser obtida mediante herança ou conquista militar. Portanto, não tinha preço. Por analogia, outros bens de capital, como moegas e mesmo as casas ocupadas pelos servos, eram igualmente de propriedade exclusiva do suserano. (Há quem teorize que a produção agrícola era muito baixa na época, e esse sistema era o mais adequado dadas as limitações tecnológicas.) O dinheiro já existia, mas ele era uma medida de renda, não de capital. De lá pra cá, a coisa foi evoluindo aos solavancos, passando pelo mercantilismo onde o ouro era considerado a expressão máxima de capital, até os dias atuais onde quase todo o dinheiro circulante é virtual.

O status quo medieval equivale a uma situação de juro zero. A figura do aluguel continua existindo numa economia de juro zero ou medieval, porque o aluguel é função de quanto o inquilino pode pagar — e as pessoas aceitam pagar entre 20% e 25% da sua renda em moradia, na média. Por outro lado, se o juro tende a zero, o valor de compra do imóvel tende ao infinito, para equilibrar a equação.

Abordando essa questão de outra forma: se a taxa de juros sem risco é zero, nada impede um investidor (digamos, um interessado em comprar casa em vez de alugar) de emprestar o montante necessário, seja quanto for, e "amortizar" o empréstimo num prazo de 100 anos, ou mesmo 1000 anos. Obviamente, essa disponibilidade de crédito ilimitado empurra os preços de bens de capital para cima.

Na prática isso não acontece (ou seja, os preços não chegam ao infinito) porque o senhorio corre algum risco ao investir num imóvel, e esse risco tem de ser remunerado por uma taxa de juros positiva, ainda que pequena.

Imagine quem comprou um imóvel em Detroit, por exemplo. Lá, o aluguel também tende a zero nos dias atuais, porque os moradores que restaram em Detroit têm renda muito baixa, e 20% de pouco é bem pouco.

Fazer um financiamento de 1000 anos não é interessante nem para comprar casa no Vale do Silício, porque em 1000 anos pode acontecer muuuuita coisa, e a Falha de San Andreas está lá à espreita.

É interessante notar que a taxa de juros zero não chega no varejo do crédito. Não espere poder entrar no cheque especial sem pagar juros no futuro previsível. A taxa zero está reservada para quem tem acesso privilegiado ao dinheiro: governo, grandes bancos de investimento, os capitalistas de compadrio que mamam no BNDES. Algumas linhas de crédito pontuais, como imóveis, beneficiam-se de taxas mais baixas porque a garantia do crédito é o próprio imóvel, cujo preço oscila conforme outros bens de capital.

Por outro lado, a taxa de juros zero comparece no varejo das aplicações financeiras. Economizar para formar um pé-de-meia e viver dos juros? Pode esquecer. A quase totalidade dos planos de previdência presume uma rentabilidade de 6% ou 8% ao ano acima da inflação, que acaba gerando o grosso do capital no momento da aposentadoria. Sem juros, o conceito de aposentadoria desaparece. Você pode economizar para uma emergência, mas no geral tem de conformar-se em trabalhar até a morte.

(Alguém poderia argumentar que a aposentadoria estilo Baby Boomer está condenada pela diminuição da fertilidade, que por sua vez é uma necessidade já que o planeta não daria conta de uma população ainda maior.)

Fazer um pé-de-meia não serve mais como futura fonte de rendimentos. Mas existem outras opções. Já citamos imóveis para aluguel, mas há outros bens, como licenças de táxi, outorgas e monopólios de qualquer espécie, que proporcionam renda mesmo numa economia de juro zero. Em vez de poupar ou investir — atos inócuos porque inúmeros outros atores econômicos podem fazer o mesmo — o caminho natural é buscar por aqueles outros bens cuja renda é garantida. Sobrevém o rentismo e suas conseqüências desagradáveis.

Assim como o esgotamento ecológico e o desemprego estrutural, também o rentismo é observável no mundo atual, não é uma mera suposição. O rentismo é apontado como uma causa da desigualdade estrutural que assola os EUA. Quem possui uma casa, ou vai herdar uma, está bem na fita. Mas quem não tem, nunca terá. Pelo menos não numa região com bons empregos, que também estão concentrando-se rapidamente em meia dúzia de cidades.

Mas como isso aconteceu? Juro zero não é algo que cai do céu. Os economistas estão coçando a cabeça a esse respeito. Existem algumas hipóteses. A mais óbvia é que há dinheiro sobrando no mundo.

A economia mundial cresceu lindamente de 1950 a 1970. A partir daí, começou a patinar, e o rendimento médio das pessoas também patinou. Os governos dos países desenvolvidos procuraram compensar isso liberando mais e mais crédito, produzindo uma ilusão de prosperidade. Mais crédito significa mais dinheiro circulando.

Naturalmente, esse "inchaço" de prosperidade não seria eterno. A cada ameaça de esgotamento, os países desenvolvidos diminuíam mais os juros e também lançavam mão de keynesianismos. Até que chegamos no juro zero, o que é mais ou menos o fim da linha. Qual foi o antídoto para a crise de 2008? Maaaais liquidez.

Agora discute-se usar taxas negativas, para que a dívida pública efetivamente destrua dinheiro. Obviamente a taxa não pode ser muito negativa, porque todo mundo acumularia dinheiro vivo em casa; a negatividade da taxa refletiria a conveniência e segurança de guardar dinheiro no banco, em vez de dinheiro vivo no colchão.

Mas, todo esse dinheiro sobrando na praça não deveria ter causado inflação?

Aí entra outra hipótese: alguns economistas dizem que a taxa de inflação é uma enganação. Enquanto o índice de inflação presta atenção no preço do Big Mac, outros bens de que todo mundo precisa estão encarecendo a olhos vistos. Exemplo: imóveis. Só que a inflação dos imóveis não é contada como inflação. Ela é considerada "valorização".

É mais ou menos o que se faz em tempo de guerra: o governo imprime dinheiro para pagar os custos de guerra, mas faz campanha para que as pessoas comprem "bônus de guerra", que reabsorvem todo o dinheiro impresso, evitando inflação. No frigir dos ovos, quem compra bônus de guerra pagou um imposto extra, mas que um dia será restituído (se o país certo ganhar a guerra, é claro).

Então, o que pode ter acontecido: as pessoas tomaram crédito, e enfiaram esse dinheiro em imóveis. Nesse interim, elas sentiram-se prósperas, vendo todo aquele dinheiro fluindo. Mas foi uma sensação falsa; trocaram seis por meia dúzia. Tomaram crédito para pagar mais caro por algo que já tinham. Por isso a inflação ficou sob controle — ou melhor, o índice de inflação, que não leva em conta o custo de moradia.

Óbvio, toda boa mentira tem 90% de verdade. A abundância temporária permitiu que o povo comprasse alguns bens de consumo adicionais en passant. Todo mundo achou que o Big Mac ficou mais barato em relação ao limite do cartão.

Um problema particular de boas cidades em países desenvolvidos, tipo Londres, Melbourne, Toronto, Vancouver, etc. é o investimento estrangeiro em imóveis. Milionários de países tipo China, onde há inflação galopante e a segurança jurídica é nula, tentam aplicar o dinheiro em "paraísos", pensando no futuro (ou presente?) estouro da bolha chinesa. Garante-se assim o investimento e um teto para morar caso seja necessário fugir da China do dia para a noite.

Os governos adoram que se invista em imóveis. Primeiro, porque segura o índice de inflação, pelo mecanismo citado antes. Segundo, estimula temporariamente a economia local via construção civil. Terceiro, mas não menos importante, aumenta temporariamente a arrecadação de impostos imobiliários. Alguns países têm outorgado cidadania automática a estrangeiros que invistam um valor mínimo em bens de capital locais — concessão sob medida para chineses milionários...

Tudo perfeito, exceto para o nativo que mora nas cidades supracitadas, e gostaria de comprar casa ganhando um salário honesto.

Outro sintoma de que está sobrando dinheiro é o caixa de grandes empresas, tipo Apple ou Google. Elas mantêm centenas de bilhões de dólares em caixa, que percebem um rendimento próximo de zero. Por quê?

Uma explicação secundária é que esse tipo de empresa precisa ter "bala" para comprar concorrentes, ou empresas menores com tecnologias promissoras que possam vir a ser concorrentes. Mas não é uma explicação suficiente por si só.

A explicação primária pode ser que simplesmente não há onde investir esse dinheiro. A economia mundial não está crescendo o suficiente para absorver tamanhos investimentos. Se por qualquer motivo essas empresas se obrigassem a investir o dinheiro sobrando, ele não daria retorno; mais provavelmente seria perdido. Então a opção menos pior é deixá-lo parado mesmo.

Então, essa é a encruzilhada: crescimento econômico limitado duplamente pela ecologia e pela pura e simples inexistência de mais oportunidades de investimento; e o ataque duplo à "equação do capitalismo", por um lado pelo juro zero, por outro pela ameaça do esforço humano perder seu valor (monetário, pelo menos) em função da inteligência artificial. Tenho 40 anos, acho que vivo mais uns 40 e pelo jeito não faltará diversão nessas próximas décadas.

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