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Kafka: Carta ao pai

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Liebster Vater,
Querido pai,

Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa deste medo, que eu não poderia reuní-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente. E se procuro responder-te aqui por escrito, não deixará de ser de modo incompleto, porque também no ato de escrever o medo e suas conseqüências me atrapalham diante de ti e porque a grandeza do tema ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.

Ontem fui vítima da combinação de mau tempo em todo o País com a precária estrutura aeroportuária. Quando chegar em casa, terei completado quase 24h "viajando"; 18h e 3 escalas só pra conseguir sair da região NE.

Aí comprei uns livrinhos "de bolso" LP&M Pocket, daqueles que ficam expostos numa prateleira giratória, Aproveitar o aborrecimento para fazer a coisa mais prazerosa que há. Um livro sobre anarquismo, um romance de Agatha Christie, e um livro de Franz Kafka, "Carta ao Pai".

Muito interessante, comovente até, devia ser leitura obrigatória a todo pai. Para usar um termo da eletrônica, o pano de fundo é o "descasamento de impedância" entre amor paterno e amor filial, no que o próprio autor reconhece inúmeras vezes que é metade do problema, por conta do temperamento desprovido daquela centelha de revolta ou impetuosidade.

Fica a curiosa lição que essa impetuosidade filial, que os pais tendem a enxergar como desobediência, rebeldia e motivo de preocupação, é na verdade o antídoto universal para os erros da educação paterna. Erros que são normais e sempre serão parte do processo, já que todo pai é ser humano, errar é humano, mas Darwin não descuidou disto, embora às vezes escorregue e apareça um filho Kafkiano.

Diz-se que o autoritarismo paterno influenciou Kafka em toda a sua maravilhosa obra literária. Kafka enxergava o pátrio poder e os poderes estatais, religiosos, judiciais, etc. como manifestações semelhantes: amorosas e promotoras do bem comum pela definição teórica; esmagadoras, absurdas e desprovidas de sentido no mundo real.

O grande "show" é a estética do texto, aquelas frases longas de Kafka, que fazem uso pesado dos idiomatismos da lingua alemã. Esta versão foi traduzida por Marcelo Backes, uma tradução incrivelmente bem-feita e que tenta ser o mais fiel possível ao original.

Há um capítulo anterior à Carta em si, denominado "Sobre a Tradução", tão agradável de ler quanto o texto principal, onde o tradutor explica como procurou ser mais fiel ao texto original, evitando ao máximo "pasteurizar" o texto em nome de uma pretensa aculturação que tornaria o texto mais "agradável" ao leitor de lingua portuguesa.

Um exemplo é a questão das frases longas, que segundo Marcelo Backes outros tradutores procuraram "quebrar" em muitas frases menores, seguindo a métrica com que o leitor moderno e alfabetizado em português está mais acostumado (hoje em dia, a métrica curtíssima imposta por blogueiros e twiteiros torna tudo ainda pior). Tal fragmentação tira o impacto do texto, se o cara está escrevendo uma frase de duas páginas numa carta ao pai, é porque ele quer criar uma tensão, e dizer algo nas entrelinhas.

Outro bom exemplo é o uso deliberado da segunda pessoa, também pouco usual no português escrito corrente, mas ainda empregado no alemão quando os interlocutores têm intimidade. A Carta foi escrita em segunda pessoa, portanto a tradução mantém segunda pessoa. O tradutor pediu vênia pelas diferenças regionais, citando especificamente o RS como local onde ainda emprega-se o "tu vais" enquanto em SC ouve-se muito o coloquialíssimo "tu vai" [sic], e de SP para cima é "você vai", e os finados Mamonas Assassinas popularizaram o "a gente vamos", que assim como o menos errado "a gente vai", procura informalizar o "nós vamos". Infelizmente o abandono da segunda pessoa tem como efeito colateral a perda do belíssimo plural majestático em segunda pessoa, cujo uso corrente restringe-se a uma oração bem conhecida: Bendita sois vós entre as mulheres...

O tradutor saiu-se com um argumento adicional muito bom: que o uso da terceira pessoa distancia os intelocutores, e por uma característica da conjugação verbal, torna tudo ainda mais ambíguo. O exemplo do tradutor: "você podia", "ele podia", "eu podia", "o cachorro podia", "o salário podia", todo mundo podia, mas apenas "tu podias".

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