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Resenha: O jogo do poder na empresa, de Michael Korda

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2016.06.04

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

"Quando o poder está em jogo, é inútil esperar que alguém se comporte bem e honradamente, e, na verdade, ninguém o faz."

Meu pai era sócio do Círculo do Livro no início dos anos 1980. Os sócios obrigavam-se a comprar X livros por ano, que eram impressos especialmente para este clube de livros e tinham preços favoráveis. Me parece que era um bom mecanismo para expandir os horizontes de leitura: é certo que o catálogo nem sempre tinha livros na área de interesse primário do leitor. Muitos livros "exóticos" foram parar na estante do meu pai por esse método. Não sei se ele leu todos, mas eu li, sempre fui leitor compulsivo.

Particularmente interessante é o texto "O jogo do poder na empresa", do escritor britânico naturalizado americano Michael Korda. Obviamente o livro trata muito mais de vida empresarial, e mais centrada nos cargos executivos, mas há inúmeras e bem fundadas menções sobre como os "jogos de poder" ocorrem em outros campos, desde o âmbito domêstico até nas relações internacionais.

Quem lê com alguma assiduidade os quadrinhos do Dilbert, ou quiçá já leu livros do Scott Adams, como "O Princípio Dilbert", vai achar o texto, os exemplos e as anedotas bastante familiares. Assim como o Dilbert, existem muitas referências às típicas corporações do mundo anglófono; as corporações no Brasil são diferentes, para o bem e para o mal; mas muita coisa ainda coincide.

Por exemplo, todo mundo conhece ou conheceu "aquele cara" que cria tempestades em copo d'água, para depois colher o crédito de ter acalmado a tempestade. Ou que faz um número astronômico de horas extras sem realmente produzir. Ou que faz aquelas economias burras, como controlar clipes de papel e insinuar que os colegas passam tempo demais no café. Também tem o típico "chorão", que é diferente do "reclamão", porque o primeiro sabe "jogar o jogo", o segundo não sabe. Uma das minhas passagens prediletas: "Poucos homens, ao voltarem para casa após um dia de trabalho, afirmam que gostaram dele. (...) Ninguém lucra, admitindo que gosta do seu emprego. E há também sempre a suspeita de que uma pessoa que gosta de trabalhar possa não estar trabalhando o suficiente." O texto não só elenca as pessoas e seus truques, como ensina a usar esses mesmos truques em seu favor.

O livro de Korda é um produto perfeito e acabado dos anos 1970: recheado de cinismo e tecnocracia. Também há muitas referências às dificuldades das mulheres em cargos executivos, coisa que era uma novidade na época (a propósito, o autor escreveu outro livro especificamente sobre o chauvinismo masculino). Por outro lado, também transparece o lado bom da última década da Era de Ouro: todo mundo tinha um emprego "das 9 às 5", ainda que muitos desses empregos (principalmente os administrativos) eram (e são) reconhecidamente inúteis de um ponto de vista estritamente econômico; a sobrevivência humana era um problema resolvido, como a varíola; e todos os pudores sexuais estavam a caminho da lata de lixo da História (quem em sã consciência sonharia com o neoconservadorismo do século XXI?). O jogo do poder era o tempero residual da vida. "Agora que sexo é um assunto que pode ser discutido abertamente, o poder parece ser um pequeno e sujo segredo humano que nos restou para esconder."

Honestamente eu fico na dúvida se Michael Korda realmente pretendeu escrever um texto sério porém bem-humorado, ou pretendeu fazer um grande hoax, porque as doses de cinismo ao longo do livro são realmente cavalares. Nesse aspecto o Dilbert é menos ambíguo, é um ridendo castigat mores explícito.

É leitura recomendada para os nerds e engenheiros em geral, que no geral enxergam os absurdos gerenciais e burocráticos como sendo meras ineficiências a serem sanadas, quando na verdade elas existem para atender interesses. É bem conhecido o fato que engenheiros e nerds não sabem "jogar" muito. Mas isso melhorou um pouco desde 1970, pois ser nerd virou mainstream e colocar engenheiros em posições de comando está na moda. Nos anos 70, o cara que acabava promovido a chefe era o perpetrante de assédio sexual e moral, pois isso era visto como sintoma de uma personalidade forte e magnética (inclusive pelas mulheres). Hoje em dia isso dá cadeia e escândalo. Colocar um sofá-cama no escritório para insinuar que transa com a secretária, conforme Korda sugere fazer? Neeeeeem pensar!

O executivo de hoje tenta, antes, imitar o Steve Jobs: asceta, focado, obcecado, apaixonado pelo que faz (o que é diferente de simplesmente gostar do trabalho, note bem!), sempre procurando formar equipes AAA+ (pagando salários B-), trabalhar e fazer todo mundo trabalhar 90 horas por semana. Como Steve Jobs só houve um, o resto dos executivos imita-o como pode, geralmente limitando-se às piores facetas que são as mais fáceis de copiar. Não admira os anos 70 despertarem nostalgia.

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